Segunda onda da Covid-19 na Europa: negligência capitalista criminosa

Uma segunda onda de Covid-19 está devastando a Europa. Isso não era inevitável, mas uma consequência mortal de os governos priorizarem a riqueza dos capitalistas em detrimento da saúde da população. Dizemos: faça com que os patrões paguem pela proteção às vidas e aos meios de subsistência! Para combater o vírus, abolir o capitalismo!


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A Europa está em meio a uma segunda onda mortal da pandemia de Covid-19. Esta nova onda de infecções agora é responsável por metade de todas as mortes diárias por Covid-19 em todo o mundo e o número já é maior do que durante a primeira onda na primavera [que ocorre entre março e junho] (7.842 em 10 de novembro, comparadas às 6.825 em abril). Bloqueios, toques de recolher, fechamento de bares e restaurantes, disjuntores[1], confinamento local — país após país é forçado a tomar medidas cada vez mais severas para responder ao crescimento exponencial da pandemia, que em muitos países está fora de controle, com leitos de UTI em capacidade máxima de ocupação. No entanto, essa segunda onda poderia ter sido evitada, ou pelo menos suas consequências poderiam ter sido melhor administradas. A razão de estarmos nessa situação se deve a uma combinação de fatores, todos os quais apontam para um fator primordial: a prioridade dos lucros capitalistas sobre a proteção da vida.

Na Europa, a reação dos governos capitalistas à primeira onda da Covid-19 foi tardia e insuficiente. Mesmo quando a Itália mostrava o futuro de outros países com duas semanas de antecedência, os governos da Espanha, do Reino Unido, da França e de outros países se recusaram a tomar as medidas necessárias. Eles não queriam introduzir bloqueios, pois afetariam negativamente a economia; isto é, a capacidade contínua dos capitalistas de obter lucros. Essa decisão custou vidas. Dezenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se medidas precisas e baseadas na ciência tivessem sido tomadas desde o início. Os sistemas de saúde (em muitos casos já enfraquecidos por décadas de austeridade) desmoronaram diante do crescimento exponencial das taxas de infecção, do número de pessoas internadas em hospitais e do número de pacientes que precisaram de leitos em UTI com respiradores mecânicos.

Em junho, a maioria dos países europeus havia conseguido controlar a pandemia. Trabalhadores da saúde e outros fizeram tudo o que era possível em um esforço conjunto. Os cidadãos observaram as medidas de contenção, embora estas nunca tenham atingido o nível necessário de um fechamento completo da economia. As pessoas foram orientadas a ficar em casa, ao mesmo tempo em que eram forçadas a trabalhar em setores não essenciais da economia, especialmente na indústria e na construção, usando transporte público superlotado. Tudo em nome dos lucros capitalistas. No entanto, houve uma redução substancial no contato social, o que colocou a pandemia sob controle.

Durante esse período, os governos em todos os lugares jogaram dinheiro na economia, assumindo o pagamento de salários no setor privado por meio de diferentes esquemas e resgatando empresas privadas, grandes e pequenas. Eles queriam atenuar o golpe da recessão econômica por medo de distúrbios sociais, na esperança de que este fosse um episódio curto.

Abertura sob pressão das empresas capitalistas

À medida que as imagens de hospitais superlotados começaram a desaparecer das notícias, a pressão dos capitalistas voltou com toda a força sobre seus governos, que por sua vez também estavam ansiosos para pôr fim às medidas de auxílio econômico. A indústria do turismo desempenhou um papel fundamental nisso. Países como Espanha, Grécia e Itália tinham pressa em voltar à normalidade e se abrir para os turistas. Em vez de um aumento gradual das medidas, restringindo o contato social, o que vimos foi uma corrida louca para reabrir a economia. Espanha, Grécia, França, Eslovênia e outros países pressionaram o Reino Unido para suspender as restrições a viagens e para mantê-las fora da lista de quarentena. Isso numa época em que o Reino Unido ainda registrava mais de 200 mortes por dia, um número muito maior do que o dos destinos turísticos.

As medidas de distanciamento social foram suspensas sem que fosse implementado um sistema sério de testes, rastreamento e isolamento. Esta foi uma questão crucial. Depois que a pandemia ficou sob controle, teria sido necessário conter os surtos locais. Isso significaria testes em massa direcionados e um sistema sério de rastreamento de contato para os infectados. Embora todos os países tenham aumentado o número de pessoas testadas, o sistema estava eivado de deficiências e em nenhum lugar foi realmente acompanhado por uma operação séria para rastrear os contatos.

A Inglaterra é um exemplo particularmente ruim a esse respeito. Depois de receber a promessa de um sistema “inovador”, acabamos com um que não consegue lidar com o aumento da demanda, no qual apenas 60% das pessoas testadas recebem seus resultados em 24 horas, e que só consegue contatar menos de 60% das pessoas que tiveram contato com aquelas cujos testes deram positivo. Por que isso acontece? Um fator importante é que o sistema de teste e rastreamento foi concedido a uma empresa privada, em vez de os recursos serem fornecidos às autoridades de saúde locais. Outro é a crise geral do capitalismo britânico a tal ponto que, a oito semanas do Brexit, as empresas ainda não sabem como estará a situação em 1º de janeiro.

Isso significou que os surtos localizados não foram controlados. Vamos dar dois exemplos das consequências disso. Os cientistas já determinaram que uma grande parte da segunda onda da Europa se resume a uma vertente específica do vírus (20A.EU1), que sofreu mutação na Espanha no início do verão [entre final de junho e julho]. O estudo mostrou como a nova variante representa mais de 80% dos casos no Reino Unido e na Espanha, 60% na Irlanda e até 40% na Suíça e na França, mas foi identificada em muitos outros países, tão distantes como Letônia e Noruega. A maioria dos países europeus não tinha, e ainda não tem, rastreio e teste adequados dos passageiros nos aeroportos. É considerado muito caro para implementar e muito prejudicial para a indústria do turismo e companhias aéreas.

O estudo vai mais longe e avança a hipótese de que a vertente variante teve origem em Lleida e Aragão, na Espanha, e que os trabalhadores agrícolas migrantes temporários eram o seu campo de cultivo. Por quê? Os trabalhadores agrícolas migrantes chegam a essas regiões no verão, onde são explorados como fonte de mão-de-obra barata e são forçados a viver em condições insalubres, em acomodações superlotadas ou, às vezes, dormindo ao ar livre ou em galpões no campo. Uma abordagem séria de saúde pública significaria testes em massa e o fornecimento de acomodações decentes. No sistema de especulação capitalista, isso não ocorreu. As mesmas áreas que têm grandes concentrações de trabalhadores agrícolas sazonais migrantes foram atingidas por surtos de CovidD-19 provenientes das indústrias de carne dessa região. As indústrias de carne têm sido um foco de infecção durante toda a pandemia em todo o mundo. O fato de trabalharem em fábricas lotadas, em baixas temperaturas e em ambientes barulhentos (forçando-os a gritar para se comunicarem) são fatores que favorecem a propagação da infecção entre estes trabalhadores.

Se os frigoríficos são considerados um setor essencial da economia que deve permanecer aberto, então as condições adequadas de saúde e segurança deveriam ser garantidas. Equipamentos de proteção individual (EPIs) deveriam ter sido fornecidos para todos os trabalhadores, junto com testes regulares e salários integrais para os infectados e forçados a se isolar, além daqueles com quem estiveram em contato, para que eles também pudessem se isolar. Mas sob o capitalismo, nenhuma dessas medidas óbvias de saúde pública foi tomada.

E assim, o vírus se espalhou dos campos de Lleida e Huesca, na Espanha, para toda a Europa, alimentando a segunda onda.

Outro caso de surto localizado, que poderia ter sido evitado ou controlado, é a situação em Leicester, na Inglaterra, no início do verão. Um grande número de casos foi detectado e este era o primeiro local a entrar em um segundo bloqueio, de alguma espécie. A fonte? As centenas de fábricas têxteis de Leicester, onde grande número de trabalhadores, muitos deles nascidos fora do Reino Unido, trabalham em condições de superlotação, por salários miseráveis (às vezes até abaixo do salário-mínimo) e sem equipamento de proteção. Algumas dessas fábricas, que atendem a marcas de moda de alta costura, permaneceram abertas mesmo durante o primeiro bloqueio, sem medidas de segurança, jogando com trabalhadores desesperados que precisavam do dinheiro para sobreviver.

Isso se combinou às condições de moradias superlotadas em que muitos desses trabalhadores vivem, o que torna difícil o isolamento, e se agravou dadas as condições de saúde subjacentes relacionadas à precariedade. Mais uma vez, uma combinação de lucros capitalistas, a exploração dos trabalhadores, a pobreza etc., criou um caldeirão mortal no qual o vírus prosperou. Isso poderia ter sido evitado? Certamente.

Essas falhas – a suspensão apressada das restrições sem um sistema adequado de teste, rastreamento e isolamento – foram agravadas pelo retorno dos estudantes do ensino fundamental, médio e universitário às escolas e faculdades, em setembro. A justificativa para esta decisão foi a importância de os estudantes receberem educação e terem interação social com seus pares, e o fato de os estudantes mais pobres serem prejudicados por terem menos acesso à aprendizagem online. Tudo isso é verdade e nós concordamos. No entanto, a verdadeira razão subjacente pela qual a classe capitalista queria reabrir as escolas era o impacto d o fechamento das escolas na capacidade dos pais de irem trabalhar. No caso das universidades, havia um fator adicional: a saber, os lucros que as instituições obtêm com alojamentos de estudantes e mensalidades em muitos países.

As instituições de ensino deveriam ter permanecido fechadas? Não necessariamente. Em todos os países, foram prometidas medidas para tornar as escolas o mais seguras possível: turmas menores, mais professores, dividir os alunos em pequenas bolhas autônomas etc. No entanto, todas essas medidas exigem recursos, em um momento em que os sistemas educacionais em toda a Europa foram devastados por 10 anos de austeridade brutal. Na prática, essas medidas necessárias não foram tomadas, ou não foram suficientes, colocando em risco crianças, professores e funcionários, e transformando as escolas em viveiros de propagação do vírus de e para as famílias.

Além das medidas mencionadas, deveria haver testes regulares em massa para o corpo docente. Sempre que se enviava para casa um “bolha” de grupo ou classe escolar para isolamento, toda a “bolha” e todos os membros de suas famílias deveriam ser testados imediatamente. Nada disso foi feito, porque custa dinheiro.

Até certo ponto, pode-se argumentar que os governos europeus foram pegos de surpresa pela primeira onda da pandemia de Covid-19. Isso não é estritamente verdade, pois quando o número de infecções começou a aumentar na Europa, a China já havia tomado medidas severas de bloqueio e outros países asiáticos também haviam tomado medidas rígidas para prevenir a propagação do vírus. Embora se possa argumentar que eles tinham a vantagem de terem lidado com ondas anteriores de doenças respiratórias. No entanto, como a primeira onda de Covid-19 na Europa começou na Itália, outros países tiveram duas ou três semanas para se preparar. Os atrasos na tomada de medidas naquela altura custaram dezenas de milhares de vidas em toda a Europa. Vidas que poderiam ter sido salvas, se os governos não priorizassem “a economia” (ou seja, os lucros capitalistas) em vez da saúde pública.

O certo é que, na época, pouco se sabia sobre o vírus, como ele se espalha e quais as medidas mais eficazes para contê-lo e erradicar a transmissão na comunidade. Agora sabemos que uma das principais formas de propagação do vírus é por meio de pequenas partículas aerossóis, que permanecem em espaços fechados e mal ventilados. Também sabemos sobre a gravidade dos eventos de agrupamento e super-propagação (o fato de que cerca de 80% dos contágios se originam de apenas 10% das pessoas infectadas), o que enfatiza a importância do rastreamento da contaminação e, particularmente, do rastreamento retroativo.

Segunda onda da Covid-19 está fora de controle

É isso que torna tão escandalosa a descontrolada segunda onda de Covid-19. Todos os especialistas sabiam que as condições do outono europeu propiciariam uma segunda onda. Os governos estavam totalmente cientes. Existem agora exemplos concretos de como lidar com a pandemia de forma eficiente. Ainda assim, os governos da Europa tomaram medidas insuficientes, atrasaram as medidas necessárias e permitiram que a segunda onda avançasse, resultando em milhares de pessoas morrendo em todo o continente. Essas mortes poderiam ter sido evitadas ou pelo menos minimizadas. A razão subjacente para isso são, novamente, os lucros capitalistas.

Um dos exemplos mais evidentes e escandalosos disso é o governo britânico de Boris Johnson. Já no dia 21 de setembro, o Grupo de Aconselhamento Científico para Emergências (SAGE) do governo alertou sobre o aumento da velocidade na transmissão do vírus e, principalmente, nas internações hospitalares, e recomendou um conjunto de medidas para implantação imediata:

“2. Será necessário adotar um pacote de intervenções para reverter essa ascensão exponencial de casos. Por si mesmas, as intervenções isoladas são improváveis de trazer R abaixo de 1 (alta confiança). Para a lista restrita de intervenções não-farmacêuticas que devem ser consideradas para imediata introdução se inclui:

a. Um circuit-breaker (período curto de isolamento) para retornar a incidência para níveis baixos;

b. Recomendar o trabalho em casa para todos os que puderem;

c. Proibir todo contato dentro de casa com membros de outras famílias (exceto com os membros da bolha de apoio);

d. Fechar todos os bares, restaurantes, cafés, academias e serviços pessoais (salões de beleza, por exemplo);

e. Todas as aulas universitárias ou nos colégios devem ser online, a menos que o ensino presencial seja absolutamente

O que Boris Johnson fez? Ignorou os conselhos de seus próprios especialistas. Sob pressão da direita Brexiteer do partido Conservador e dos capitalistas que se opunham a qualquer novo bloqueio, ele prevaricou. Seu governo levou mais de seis semanas para tomar as medidas que o SAGE considerou urgentes em setembro. Portanto, não foi até 4 de novembro, quando um bloqueio nacional por tempo limitado começou. Em 21 de setembro ocorreram 32 mortes e 368 internações hospitalares; em 4 de novembro os números chegaram a 300 mortes e mais de 1.500 internações hospitalares.

A história é a mesma em todos os lugares: França, Espanha, Itália, Grécia. A maioria dos governos europeus atrasou a resposta à segunda onda, começou com medidas parciais e claramente ineficientes (como o fechamento antecipado de bares e restaurantes) e medidas regionais muito suaves etc. Os resultados estão aí para todos verem.

Diante desse nível de incompetência, de mensagens confusas, de medidas contraditórias, não é surpresa que haja um alto grau de ceticismo da população em relação às diretrizes do governo. Alguns até questionam a eficácia dos bloqueios, dizendo coisas como: “as medidas regionais não funcionaram”, “já tivemos um bloqueio na primavera e o vírus está se espalhando novamente”, “talvez tenhamos que aprender a conviver com isso”. Na realidade, não foram os bloqueios em si que falharam, mas a maneira desordenada como foram implementados e comunicados, com os governos muitas vezes culpando a população por não seguir as regras em vez de aceitar quaisquer falhas de sua parte. Pedir às pessoas para ficarem em casa, enquanto os trabalhadores da indústria e da manufatura têm de trabalhar, não é realmente um isolamento sob qualquer hipótese. Isso tudo minou a confiança das pessoas.

Somada a isso está a questão de quem paga. Bares, restaurantes, instituições culturais, cabeleireiros, academias e todos os tipos de pequenos negócios estão sendo instruídos a fechar, sendo levados à falência, deixando os trabalhadores sem salários e, em muitos casos, sem empregos. Desta vez, os governos não estão intervindo com ajuda financeira tanto quanto durante os primeiros bloqueios na primavera, ou apenas o estão fazendo com relutância e tardiamente. O motivo é claro. O financiamento do governo durante a primeira onda levou a um aumento maciço da dívida pública e dos déficits orçamentários. Um relatório da VoxEU calcula que “o aumento da taxa média da dívida na área do euro está estimado em mais de 15%, elevando-se a mais de 100%. Ele aumentará cerca de 20% na França e cerca de 30% na Itália e na Espanha”.

Em muitos países, isso foi agravado por conflitos entre as administrações central e regional sobre a imposição de medidas para combater a pandemia, o que tornou sua implementação ainda mais confusa.

Protestos e distúrbios

Como resultado, em muitos países vimos diferentes tipos de protestos, e tentativas de organizações demagógicas de extrema direita e de direita para capitalizá-los. Esses protestos vão desde a teoria da conspiração, ligada a organizações de extrema direita, até protestos genuínos de proprietários de pequenas empresas e trabalhadores de setores afetados que exigem ajuda econômica. O fato de alguns dos afetados pelas medidas serem pequenos empresários pequeno-burgueses de bares, restaurantes, cabeleireiros etc., torna este um terreno fértil para demagogos de direita. Não é por acaso que, na Grã-Bretanha, o demagogo reacionário Nigel Farage esteja mudando o nome de seu Partido Brexit para o de Partido Reformador do Reino Unido antibloqueio. Mas seria um erro pintar todos os protestos com o mesmo pincel.

Vimos em Madri protestos nos bairros operários do sul da capital contra o governo regional de direita que implementou um confinamento totalmente ineficaz, ao mesmo tempo em que cortava recursos do serviço público de saúde. Na Itália, trabalhadores e pequenos empresários surgiram em várias cidades com um lema claro: “você nos fecha, você nos paga”. E na Grã-Bretanha, houve resistência no norte da Inglaterra em aceitar medidas regionais sem o apoio financeiro governamental necessário, expresso em um confronto entre o prefeito de Manchester e Boris Johnson.

Como combater a Covid-19 do ponto de vista da classe trabalhadora

Então, qual deve ser a posição dos socialistas revolucionários sobre a questão de como lutar contra a Covid-19 e lidar com a segunda onda na Europa? Em primeiro lugar, precisamos explicar que isto não é resultado inevitável da evolução da pandemia, algo sobre o qual não temos controle. A segunda onda poderia ter sido evitada, ou pelo menos seu impacto seriamente minimizado se as medidas necessárias para proteger a saúde pública tivessem sido tomadas. E não foram tomadas por causa da necessidade de se preservar os lucros capitalistas.

Precisamos analisar as melhores práticas em todo o mundo, o que funcionou e o que não funcionou. Houve muito debate na mídia durante o verão europeu sobre o chamado “modelo sueco”. Anders Tegnell, o epidemiologista estatal que projetou a resposta do país, argumentou em maio que sua abordagem significava que 40% das pessoas em Estocolmo estariam imunes à Covid-19 até o final de maio, o que daria ao país uma vantagem. Segundo ele: “No outono, haverá uma segunda onda. A Suécia terá um alto nível de imunidade e o número de casos provavelmente será bastante baixo”, ao contrário de outros países que haviam optado por bloqueios.

Bem, agora o outono chegou e, na Suécia, o número de hospitalizações por Covid-19 está crescendo mais rápido do que em qualquer outro país europeu, dobrando a cada oito dias. Assim, a Suécia teve uma taxa de mortalidade per capita mais alta do que seus vizinhos nórdicos na primeira onda e isso não impediu uma segunda onda.

Na verdade, a abordagem da chamada “imunidade de rebanho” foi contestada na prática. Recentemente, o The Economist estava coletando dados do norte da Itália que pareciam mostrar que, nos municípios mais afetados pela primeira onda, a propagação da segunda onda parecia ser mais lenta, talvez apontando para um grau de imunidade ao nível da população. Esses são lugares onde cerca de 24% da população tem imunidade. Apesar do entusiasmo do The Economist por esses números, eles não mostram necessariamente o que querem inferir e não constituem uma receita para uma política a ser implementada. Em primeiro lugar, a razão pela qual a pandemia está se espalhando a um ritmo mais lento nos municípios mais atingidos na primeira onda também pode ser porque as pessoas de lá, que viram muitos parentes, amigos e vizinhos morrerem, tenham mais cuidado para manter um maior grau de distanciamento social. Em segundo lugar, que conclusões políticas pode-se tirar de Bergamo? Como se permite desejar que muitas pessoas sejam infectadas e morram para que uma onda subsequente do vírus se espalhe a um ritmo mais lento? Isso é loucura.

Pode haver debates legítimos do ponto de vista epidemiológico e de saúde pública sobre o melhor curso de ação, mas na realidade a maioria dos governos e políticos que defendem estratégias baseadas na ideia de “imunidade de rebanho” o fazem do ponto de vista da defesa dos lucros capitalistas, independentemente das consequências para a vida das pessoas. A propósito, alguns dos governos que tomaram medidas duras no início para conter e controlar a pandemia também o fizeram motivados pelos lucros capitalistas. Eles calcularam que, se conseguissem conter a pandemia desde o início, teriam uma vantagem competitiva sobre os outros países por poder reiniciar a economia mais cedo. Este é o argumento do Fundo Monetário Internacional (FMI), que em seu relatório World Economic Outlook do mês passado defendeu medidas mais rápidas e contundentes para conter a pandemia.

Países como China, Nova Zelândia, Taiwan, Coreia do Sul, em diferentes graus, tomaram medidas como bloqueios em massa, testes generalizados e um sistema de testes e rastreamento muito eficiente. Em outubro, a cidade chinesa de Qingdao detectou 12 casos de Covid-19 ligados a um hospital que atendia pessoas que chegavam do exterior. Eles decidiram testar toda a população da cidade, 9 milhões, no espaço de cinco dias. A Coreia do Sul tem um sistema de teste e rastreamento muito eficiente. Esses países também estabeleceram controles rígidos de entrada de pessoas, com testes de todas as chegadas e quarentenas de todos aqueles com teste positivo em hospitais ou hotéis especialmente designados. O teste em massa também foi usado com eficácia na Eslováquia, onde toda a população adulta foi testada em dois finais de semana. Este é o tipo de medida que deve ser implementada para evitar a propagação da pandemia.

Evidentemente, a China é um país capitalista e governado por um regime autoritário. Uma das razões pelas quais tomou medidas rápidas e eficazes (após uma tentativa inicial de encobrir a pandemia) é que a permanência do partido no poder depende em grande parte de ser visto como eficiente e ser capaz de garantir o crescimento econômico e a saúde dos cidadãos. Outro lado disso é o fato de que o maior grau de intervenção do Estado na economia da China (em parte como resultado da economia planejada no passado) permite mobilizar recursos de forma mais eficaz.

É uma indicação do lamentável estado do capitalismo no Reino Unido e na Europa em geral que medidas desse tipo não tenham sido tomadas, ou que tenham sido criminosamente atrasadas. Durante a Segunda Guerra Mundial, um período de emergência nacional, a classe dominante, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, tomou medidas de intervenção estatal na economia e direcionou a produção para o esforço de guerra, com pouca consideração pelos direitos de propriedade privada. No final das contas, em tempos de crise, os limites da anarquia do sistema de “livre mercado” são totalmente evidenciados para que todos vejam.

Portanto, o programa que os socialistas revolucionários devem defender está evidente:

  • A construção de um sistema estatal de teste e rastreamento eficiente e bem financiado.
  • Implementar medidas que permitam o isolamento das pessoas se o resultado for positivo, o que significa pagar salários integrais, mas também fornecer acomodação adequada nos casos em que as condições de moradia superlotada não permitam que se isolem em casa. Isso pode ser feito requisitando hotéis, casas e apartamentos vazios.
  • Se a pandemia estiver fora de controle com transmissão generalizada na comunidade, os bloqueios serão necessários. Devem ser bloqueios reais. Somente devem trabalhar os trabalhadores dos setores da economia essenciais para a manutenção da vida e da saúde. O resto deve ficar em casa com o pagamento integral. A indústria e a construção devem ser fechadas, a menos que estejam ligadas a setores essenciais da economia. Os setores que permanecerem abertos devem estar sob a supervisão de Comitês de Saúde e Segurança do Trabalhador eleitos no chão de fábrica com poderes para reorganizar a produção e interrompê-la quando considerada insegura. Não há razão para as pessoas serem trancadas em casa, mas não deve haver contato físico entre famílias diferentes.
  • As pequenas empresas que são forçadas a fechar devem ser isentas de pagar aluguel, e receberem isenções fiscais e ajuda financeira. As grandes empresas não devem receber qualquer ajuda, mas sim contar com seus lucros acumulados, dividendos etc. Quaisquer grandes empresas que requeiram auxílios do Estado devem ser nacionalizadas sem compensação.
  • Devem ser realizados testes em massa para identificar surtos.
  • Para que as escolas e universidades permaneçam abertas, deve-se reduzir o tamanho das turmas, por meio da contratação em massa de novos professores e da requisição de edifícios apropriados. Deve haver testes em massa de trabalhadores da educação. Quando há um surto em uma escola, todas as crianças e funcionários da bolha, assim como suas famílias, devem ser testados em 24 horas.
  • Devem ser proibidos os despejos e as reintegrações de posse de famílias, juntamente com dispensas para pagamento de aluguel e contas. Deve-se fazer com que os grandes gigantes do setor de energia e os proprietários paguem.
  • Exigimos um programa massivo de investimento no serviço público de saúde.

Além disso, como uma vacina parece estar mais próxima no horizonte, é imperativo que isso não se torne mais uma oportunidade para os capitalistas lucrares. As grandes empresas farmacêuticas devem ser expropriadas sem compensação e colocadas sob o controle democrático dos trabalhadores com base nas necessidades gerais da população. Isso não pode ser deixado nas mãos de empresas privadas que operam com base em seus lucros e no interesse de seus acionistas. Afinal, grande parte da pesquisa em que baseiam seus produtos já é realizada em instituições financiadas pelo Estado. As vacinas devem ser distribuídas com base na necessidade, não na capacidade de pagamento. A nacionalização das empresas farmacêuticas também garantiria o acesso à vacina em todo o mundo, ao invés de uma corrida louca para obter uma dose em que os países capitalistas avançados teriam uma vantagem.

Um programa como este não só colocaria a pandemia sob controle e contribuiria para um nível zero de Covid, mas também asseguraria às pessoas que o que está sendo feito é eficaz e que as medidas são postas em prática para proteger não apenas suas vidas, mas também seus meios de subsistência. Esse programa também seria capaz de conquistar as camadas pequeno-burguesas para o lado da classe trabalhadora.

É claro que tal programa levantaria imediatamente a questão: quem deve pagar? Bem, é simples. Nós dizemos: faça os capitalistas pagarem! Um relatório do banco suíço UBS revelou que os bilionários do mundo aumentaram suas fortunas já enormes para um recorde de US$ 10,2 trilhões (mais de R$ 54,3 trilhões) em julho de 2020. O relatório aponta que se trata de “uma nova alta, ultrapassando o pico anterior de US$ 8,9 trilhões alcançados no final de 2017”. Entre os bilionários, a riqueza total dos bilionários da saúde aumentou 50,3%, chegando a US$ 658,6 bilhões (mais de R$ 3,6 trilhões).

Não é que não exista dinheiro para tomar as medidas necessárias para combater a pandemia. A questão é que a riqueza está concentrada em cada vez menos mãos no topo, enquanto a maioria, a classe trabalhadora que criou toda essa riqueza, é deixada para se defender por si mesma. Se as 250 maiores empresas de cada país fossem colocadas sob propriedade comum e controle dos trabalhadores, poderíamos pagar não apenas pela luta contra a Covid-19, mas também por empregos, casas e meios de subsistência decentes para toda a população.

Para combater o vírus, abolir o capitalismo!


Nota:

[1] Tradução de circuit-breaker, que significa a adoção temporária de restrições mais rígidas, por períodos curtos, sendo por isso diferente de lockdown.