Protestos se espalham pela Espanha após a prisão de Pablo Hasél

Por uma semana inteira, manifestações ocorreram na Catalunha e restante da Espanha em protesto à prisão do rapper comunista Pablo Hasél, que foi preso no dia 16 de fevereiro, em Lleida, por opiniões políticas expressadas em suas músicas e tweets. Sua prisão desencadeou uma onda de raiva, particularmente entre os jovens, que sofreram repressão violenta nas mãos do Estado.


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Apesar de na tarde de sua prisão e dia seguinte as manifestações e comícios terem acontecido principalmente na Catalunha e Valência, nos dias 17 e 18 de fevereiro eles começaram a se espalhar por toda a Espanha, com manifestações em Madri, Guadalajara, Zaragoza, Burgos, Granada, Sevilha e muitos outros lugares. Em muitas das cidades da Catalunha nas quais os protestos já haviam acontecido, as pessoas foram às ruas novamente.

Repressão brutal

Um denominador comum foi a repressão brutal da polícia, com o objetivo de intimidar os manifestantes predominantemente jovens.

Em Barcelona, uma mulher foi atingida por um projétil de espuma e mais tarde perdeu o olho no hospital. As balas de espuma são usadas pela polícia de choque na Catalunha como substituição das balas de borracha e já causaram muitos casos sérios de lesão. Essas balas não devem ser disparadas acima da parte superior do corpo, mas nesse caso elas claramente foram.

Em Madri, milhares de pessoas reuniram-se na Porta do Sol, no Centro da cidade.

A polícia então começou a bloquear todas as saídas e usou bastões e escudos para impedir os protestantes de marchar.

Novamente, a repressão foi brutal, com policiais usando palavras de baixo calão contra jovens mulheres e batendo em adolescentes que protestavam pacificamente.

Em Valência, após duas noites de repressão policial, centenas foram às ruas novamente para protestar, incluindo alguns parlamentares de esquerda do parlamento regional. Quando a manifestação começou, sem nenhum aviso ou qualquer provocação, a polícia de choque atacou de frente, deixando um jovem com o crânio fraturado.

Em Lleida, uma das manifestações foi até a prisão de Ponent, onde Hasél está sendo mantido. Prisioneiros gritavam as frases: “liberdade de expressão” e “os ricos nunca entram, os pobres nunca saem [da prisão]”.

O objetivo da repressão está claro: estabelecer claramente que manifestações contra a prisão de Pablo Hasél não serão toleradas. As forças do Estado temem que, se os protestos continuarem, eles ganharão força. Ao mesmo tempo, eles querem projetar a imagem de violência, o que vai permitir que a mídia e políticos pintem os protestantes como “extremistas” e “bandidos violentos”, tirando a credibilidade da causa defensora da liberdade de expressão e tirando a atenção da questão principal.

Em Barcelona, um grande número de jovens entrou em confronto com a polícia todas as noites desde a prisão de Hasél. Eles estão com raiva da repressão policial e frustrados com o fato de que nenhum partido político está fazendo algo para resolver esta ou outras questões. No dia 19 de fevereiro, o Sindicato dos Estudantes dos Países Catalães (SEPC) chamou uma greve estudantil e manifestações. Um dos participantes disse: “aqueles que aumentam o tom e choram por causa dos protestos devem se concentrar em oferecer dignidade e um futuro decente para a juventude e a classe trabalhadora”.

A raiva não é somente sobre a prisão de Hasél, que atuou como gatilho para esse movimento. É também sobre o fato de que a direita e a extrema direita podem se manifestar sem medo de repressão policial, mas a tropa de choque é usada toda vez que a juventude antifascista sai às ruas. Manifestações de esquerda contra os cortes no serviço nacional de saúde são proibidas, enquanto neonazistas podem comemorar a Divisão Azul dos voluntários espanhóis, que lutaram lado a lado com os nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Embora o movimento não demonstre nenhum sinal de parar, até agora ele é limitado à juventude. A não ser que ele se espalhe para outras camadas, ele vai chegar a um beco sem saída. As organizações cívicas, sindicatos, comitês de defesa da república (CDRs), partidos políticos de esquerda e outros, deveriam chamar manifestações de massa no final de semana para que o movimento aumente.

Infelizmente, até agora, eles não fizeram nada disso. Unidas Podemos está completamente ligada ao governo PSOE. Na verdade, a situação toda está sendo uma grande vergonha para a UP (IU-PODEMOS). Eles fazem parte do governo, que é parcialmente responsável pela prisão de Hasél e pela repressão policial contra os manifestantes. Eles fizeram declarações públicas repudiando a prisão de Hasél e fizeram uma moção no parlamento para o governo o absolver (moção que é improvável de ser aprovada), mas falharam em não chamar protestos contra a sua prisão e aplicar pressão na PSOE.

Protestos continuam no fim de semana

Entre sexta-feira e domingo (19 e 21 de fevereiro), nós vimos a continuação dos protestos na Espanha. O movimento é irregular, com o epicentro sendo na Catalunha, de onde Hasél é e onde o impacto do plebiscito do 1º primeiro de outubro de 2017 ainda é sentido. A experiência da repressão policial lá afeta uma parcela muito maior da população, que estava envolvida no movimento insurrecional naquele momento. Camadas maiores da juventude ganharam experiência com os conflitos com a polícia no final de 2019, quando líderes do movimento pró-independência foram sentenciados à prisão.

No sábado, mais de 110 protestos em cidades da Espanha aconteceram. Em Málaga, por exemplo, milhares marcharam pelo Centro da cidade no horário do almoço.

Em Barcelona, a manifestação foi grande, cerca de 10 mil pessoas, com colunas de diferentes bairros convergindo para o Centro da cidade.

Quando o protesto começou a se mover, ele foi bloqueado pela polícia de choque e forçado a ir em direção às ruas mais estreitas de Gracia. Ali, a polícia bloqueou completamente os manifestantes, os deixando sem saída, e passou a atacá-los de forma brutal. O objetivo claramente não era “manter a ordem” ou “prevenir revolta”, mas ensinar uma lição aos manifestantes.

A manifestação em Madri foi muito menor durante a semana, com somente algumas centenas de pessoas presentes, comparada com os milhares que estiveram na Porta do Sol na quarta-feira anterior. A repressão policial usada naquele dia claramente limitou o número de participantes posteriores.

Mesmo após os ataques violentos da polícia em Barcelona no sábado, milhares se uniram novamente no domingo na Estação de Sants e marcharam para o Centro da cidade, onde o conflito com a polícia se iniciou novamente.

No sábado e domingo grandes manifestações ocorreram no País Basco, incluindo milhares de pessoas em Bilbao no domingo, no horário de almoço, marchando com as palavras “Pablo Hasel askatu – aministia osoa” (Libertem o Pablo – anistia total).

A mídia e políticos burgueses, desde o PSOE no poder até a extrema direita, lançaram uma campanha conjunta para demonizar os protestos, usando os conflitos com a polícia e destruição de propriedade para os taxá-los como “anarquistas”, “extremistas violentos” etc. Além disso, eles também lançaram uma campanha para tirar a credibilidade de Pablo Hasél (“ele veio de uma família bem de vida”, “ele era uma criança violenta” etc.).

Isso mostra que eles estão preocupados com o movimento, especialmente com a maneira como ele desacreditou a democracia espanhola do regime de 1978, e como ele reflete uma revolta mais profunda entre a juventude.

De uma maneira cínica, o PSOE, a direita e a mídia também usaram as revoltas como uma arma contra o Podemos e a Izquierda Unida, apesar de nenhuma dessas organizações terem convocado os protestos ou sequer chamado seus apoiadores a participarem.

A direita e seções do PSOE gostariam de ver a UP removida do governo, mas o problema para o Primeiro-ministro Pedro Sánchez é que o seu governo já é frágil, contando com o apoio parlamentar externo. Remover a UP cedo demais o deixaria exposto.

Raiva acumulada

Sem uma liderança clara ou perspectiva, essa explosão de raiva muito provavelmente passará, mas de qualquer forma ela é extremamente importante de um ponto de vista sintomático. Na Catalunha e em toda a Espanha, assim como em outros países, há muita raiva acumulada por conta da irresponsabilidade com a pandemia, pelas falhas óbvias do capitalismo em lidar com uma emergência de saúde, pelo crescimento da desigualdade e polarização da riqueza, falta de qualquer perspectiva de um futuro decente para a juventude, brutalidade policial, tratamento dos imigrantes, crescimento da extrema direita e impotência dos partidos oficiais de esquerda.

Há também uma geração entrando em cena que se tornou consciente do que estava acontecendo durante a crise de 2008. Essa geração nunca experimentou o capitalismo de outra forma senão em crise e, agora, está sendo arrastada para outra recessão prejudicial. Essa geração tem pouco a perder. Ela esteve à frente das barricadas no Equador, Chile e Espanha em 2019; no movimento #BLM nos Estados Unidos no verão de 2020 e agora novamente na Espanha.

Uma parte inteira desta geração está sendo atraída pelas ideias revolucionárias e trazendo consigo outras camadas da sociedade, que estão se juntando às atividades ou ao menos expressando simpatia. Eles merecem uma liderança revolucionária apropriada, e muitos entre eles farão parte dela. Construir essa liderança é a tarefa mais importante do dia.

Até agora, o movimento foi liderado principalmente pela juventude e, por mais que os participantes estejam muito irritados, há um limite de quão longe eles podem ir sem uma perspectiva clara. É, portanto, de se saudar que a campanha em Lleida, de onde Pablo Hásel vem e onde ele foi preso, tenha convocado uma série de piquetes de informação pela cidade essa semana, uma coletiva de imprensa fora da prisão, uma reunião de massa aberta na quinta-feira e uma manifestação de massa no sábado.

É crucial que a campanha seja levada para os bairros da classe trabalhadora, sindicatos e organizações políticas de esquerda para combater a campanha da mídia, do governo e dos partidos políticos de direita. Ela deve ser construída em direção a uma luta coletiva da juventude e dos trabalhadores contra o regime podre de 1978.