O Estado tenta resgatar o capitalismo em colapso

O FMI declarou no início de abril que entramos “na pior crise econômica desde a Grande Depressão”. Ontem (29/4), sua perspectiva foi confirmada quando os números divulgados para os EUA mostraram uma taxa de queda de 4,8%. Hoje, os números mostram uma contração de 3,8% em um trimestre na zona do euro. O tratamento desastroso da pandemia de coronavírus aguçou uma crise econômica que já estava em andamento.


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Uma queda sem precedentes

Os números divulgados hoje foram piores que o esperado. A queda de 3,8% na zona do euro, em um trimestre, é significativamente pior do que a queda nos EUA, 4,8% em uma base anualizada (o valor equalizado para os EUA seria algo em torno de 1,5%). A economia francesa contraiu 5,8% e a espanhola 5,2% no último trimestre. Os números para as economias europeias são piores do que qualquer outro trimestre já registrado e a queda é muito mais terrível do que em 2009. Espera-se que o segundo trimestre seja pior em todos os lugares.

A pandemia não poderia ter ocorrido em um momento menos oportuno. A economia mundial nunca se recuperou da crise de 2008-09. Como explicamos no passado, a recuperação havia se reduzido, com as economias da Alemanha, Japão e Reino Unido, pelo menos, já se contraindo.

O capitalismo está enfrentando uma crise de decadência senil. Esse sistema podre já deveria ter sido derrubado há um século, mas uma combinação de guerra mundial e o papel dos reformistas e stalinistas deu-lhe uma nova oportunidade de vida. Os primeiros sinais do fim do boom do pós-guerra já podiam ser vistos na crise dos anos 1970, mas, através da austeridade e dos ataques à classe trabalhadora, combinados a uma expansão sem precedentes do crédito, a classe capitalista adiou esse desenlace. Agora, as aves agourentas estão de volta no poleiro.

O World Economic Outlook [Perspectiva da Economia Mundial] do FMI, no início deste mês, contribuiu para uma leitura terrível. O FMI previu uma contração de 4,2% na economia mundial neste ano. Isso é significativamente pior do que o recorde anterior do pós-guerra, em 2009, que foi de 1,6%. A grande maioria dos países sofreria uma recessão este ano, com os países capitalistas avançados sendo os mais atingidos. A zona do euro enfrentaria uma contração de 7%. No Japão – neste momento relativamente não afetado pelas epidemias – uma contração de 5%, e nos EUA, uma contração de 6%. Todas essas previsões pressupõem que a economia se levantará em algum momento deste ano e que não haverá segunda onda do vírus neste ou no próximo ano. Esse otimismo não é compartilhado pelos epidemiologistas.

O FMI nos proporciona, de maneira útil, cenários alternativos do que aconteceria se sua previsão de referência não se sustentasse. Se houver outra onda na segunda metade do ano, a queda seria mais acentuada, em torno de 7%. No entanto, o FMI está do lado otimista do argumento.

Várias instituições privadas estão prevendo cenários mais sombrios: o IHS Markit estava prevendo uma queda de 3% no PIB dos EUA no primeiro trimestre de 2020, sobre uma base anualizada. Isso acabou sendo uma estimativa otimista, pois os números de 29 de abril mostraram o equivalente a uma contração de 4,8% (anualizada). Além disso, a IHS Markit previu uma queda de 27% no segundo trimestre, com o impacto do bloqueio (novamente, anualmente). Isso não significa literalmente uma queda de 27% neste trimestre, mas que a taxa de declínio é tal porque os efeitos do bloqueio não se acumularão nos próximos trimestres. Ainda assim, espera-se que a queda seja significativamente mais severa do que em 2009. Em outras partes do mundo, o Morgan Stanley prevê uma queda de 11% na produção da zona do euro este ano, com o Reino Unido não muito atrás, com 10%. Até Christine Lagarde estava ameaçando os governos da zona do euro com uma queda de 15% na produção se eles não tomassem medidas.

Outra curiosa suposição feita pelo FMI é que a infecção não se espalhará amplamente para fora dos países capitalistas avançados. Por que razão os países mais pobres do mundo estariam melhor equipados para lidar com a pandemia, ninguém sabe. Nesses países, privados de recursos e sangrados pelo imperialismo, a superlotação, a falta de moradia e de assistência médica criarão as condições para uma catástrofe humana. A única graça salvadora até agora tem sido a relativa ausência de viajantes internacionais, o que reduziu o número de casos importados, mas, uma vez que a transmissão local decole, haverá pouco a fazer para detê-la.

À medida que a infecção se espalha rapidamente na Índia, África e América Latina, a perspectiva também é de desastre econômico: enquanto o FMI esperava que a Índia crescesse 2% em 2020, a Fitch Ratings e o Barclays Bank preveem estagnação, com 0,8% e 0% de crescimento, respectivamente.

Mas todas essas previsões são conjecturas qualificadas. A verdade é que ninguém realmente o sabe. O FMI também assume que a economia se recuperará rapidamente, assim que as medidas forem levantadas, mas isso também é uma grande suposição.

Desastre em formação

Muitas indústrias estão cambaleando com a crise:

  • As lojas de varejo já estavam lutando sob a pressão dos varejistas on-line. Muitas lojas que foram fechadas agora com o objetivo de distanciamento social nunca serão reabertas ou, se o fizerem, descobrirão que seus clientes não estão mais lá.
  • Isso vale para restaurantes que, se sobreviverem ao bloqueio, não verão seus clientes retornando.
  • A indústria de viagens provavelmente se recuperará, mas, no curto prazo, não chegará nem perto do que era. Neste momento, a capacidade mundial das companhias aéreas caiu 73%. O setor aéreo levou de seis a oito anos para se recuperar dos ataques do 11 de setembro, e isso foi durante um boom. Desta vez provavelmente será pior. Tanto a Airbus quanto a Boeing estão buscando resgates.
  • O ensino superior será atingido com força. É o caso dos dois maiores mercados da educação: Reino Unido e EUA.
  • A indústria do petróleo está em pânico. A demanda por petróleo caiu 20 milhões de barris por dia, ou cerca de 20%, enquanto as pessoas ficam em casa. Mesmo o acordo sem precedentes entre os EUA, Arábia Saudita e Rússia não conseguiu elevar o preço acima de seu mínimo de 18 anos.
  • Prevê-se que a indústria automotiva, central no setor de manufatura, tenha um corte nas vendas em 21% globalmente, com uma queda de 26% na Europa. Se não fosse o apoio maciço do governo, isso já teria resultado em demissões em massa e fechamento de fábricas.
  • Até os hospitais norte-americanos, em seus próprios cálculos sombrios, estão pedindo socorro depois de ter que cancelar procedimentos mais lucrativos para tratar pacientes com coronavírus.

Apesar dos governos de todo o mundo estarem pagando quantias sem precedentes em apoio às empresas, o desemprego está aumentando a uma taxa sem precedentes. Nos EUA, 26 milhões solicitaram benefícios de desemprego (o que não significa necessariamente que eles foram demitidos permanentemente).

Economistas consultados pelo Wall Street Journal esperam que 14 milhões de empregos sejam perdidos nos próximos dois meses e que a taxa de desemprego suba para 13% em junho: o aumento mais rápido de todos os tempos. Um dos consultores econômicos de Trump, Kevin Hasset, ganhou as manchetes ao prever uma taxa de desemprego de 16 a 17%, comparando isso com a crise de 2008-2009, quando os EUA perderam 8,7 milhões de empregos: “No momento, estamos perdendo muitos empregos por causa disso a cada 10 dias“.

É claro que ninguém sabe onde isso vai acabar, mas já estão aumentando a perspectiva de aumento do desemprego para 20% nos EUA e no norte da Europa, que conseguiram evitar o desemprego em massa em 2009. A OIT está alertando que 1,6 bilhão de pessoas – metade da força de trabalho global – corre “o risco imediato de perder o sustento“. Também estima que 1,6 bilhão de trabalhadores no setor informal já perderam 60% de seus ganhos no primeiro mês da crise.

Nos anos 1930, o PIB dos EUA caiu 25% em um período de três anos, com o desemprego subindo para 25%. Se os burgueses conseguiram evitar uma depressão em 2008-9, agora essa perspectiva é muito real:

A demanda severamente deprimida, as interrupções no fornecimento e a incerteza extremamente alta manterão a manufatura em uma trajetória extremamente fraca no curto prazo“, disse Oren Klachkin, economista da Oxford Economics. “Acreditamos que a economia começará gradualmente a voltar ao normal no terceiro trimestre. Observamos que o risco de um bloqueio prolongado pode resultar em uma recuperação muito lenta e desigual“.

A esperança dos economistas é que a economia possa se recuperar rapidamente assim que as restrições artificiais forem removidas. No entanto, quanto mais tempo permanecerem no lugar, mais danos causarão. A economia de mercado capitalista é de longe a menos adequada para esses tipos de medidas. A famosa mão invisível é altamente dependente de crédito e confiança, sendo esta última um pré-requisito da primeira. No entanto, no momento, não há confiança no futuro.

Consumidores e empresas olham para o futuro com apreensão, pois ninguém sabe o que está por vir. Ninguém sabe como será o mundo depois que o bloqueio terminar (para não mencionarmos quando terminará) e, portanto, ninguém fará os investimentos necessários para reativar a economia. Por que investir em capacidade produtiva quando a capacidade produtiva já é muito abundante e você não sabe se os clientes desejam seus produtos ou podem comprá-los?

Um credor de última hora

É por isso que o Estado está agora desempenhando um papel sem precedentes. O Estado é agora o credor, o consumidor e a galinha que põe os ovos de ouro. Comentamos isso em um artigo publicado há um mês, mas agora os desenvolvimentos foram ainda mais longe.

As dívidas do Estado já eram altas, embora não tão altas quanto durante a Segunda Guerra Mundial. Agora, elas devem superar seu pico da guerra mundial, sem perspectivas realistas de serem reembolsadas. O Estado prometeu quantias sem precedentes de dinheiro em empréstimos e subsídios, na tentativa de manter os negócios abertos durante o bloqueio.

Mercado após mercado está vindo abaixo. A insegurança e a falta de crédito (apesar de todos os seus melhores esforços) significam que as empresas, que eram razoavelmente sólidas há três meses, agora estão enfrentando a falência. No mundo das finanças, sempre apaixonado por criar novas palavras da moda, isso ficou conhecido como “anjo caído”. Agora, espera-se que governos e bancos centrais mantenham essas empresas vivas até que a situação se estabilize.

Nos EUA, o Federal Reserve está expandindo enormemente seu balanço patrimonial à medida que empurra o crédito para mercados onde não está presente desde a Grande Depressão. Um programa de US$ 600 bilhões está tomando forma, oferecendo empréstimos, por meio dos bancos, de até quatro anos para pequenas e médias empresas. Ele está tentando se isolar das perdas, pedindo aos bancos emissores que tomem 5% dos empréstimos e ao governo federal para cobrir os primeiros US$ 75 bilhões em perdas potenciais do esquema.

No entanto, os empréstimos às pequenas e médias empresas se veem eclipsados pelo total de crédito sendo injetado no sistema. No final do ano passado, o Federal Reserve tinha cerca de US$ 4 trilhões em seu balanço. Mas agora ele está acionando um programa extremamente rápido de compra de ativos (que é como os bancos centrais emprestam dinheiro). Em 22 de abril, havia atingido US$ 6,6 trilhões e a expectativa é de 8 a US$ 11 trilhões. No auge da depressão da década de 1930, o balanço do Fed estava logo acima de 20% do PIB dos EUA. Ele ultrapassou esse nível perto de 2011. Agora, esperam que atinja 40-50% – e em tempo recorde.

Espera-se que o BCE [Banco Central Europeu] comece a apoiar os títulos podres do “anjo caído” esta semana, a fim de evitar falências em larga escala na zona do euro. Eles também devem expandir ainda mais seu programa de flexibilização quantitativa de 2,8 trilhões de euros. Apesar de o BCE ainda não ter formalmente concordado em fazê-lo, os mercados e as agências de classificação esperam firmemente que impeça a falência de empresas e países do sul da Europa. Na realidade, eles estão dando ao BCE pouca escolha sobre o assunto.

… e um gastador de última hora

Estima-se que as dívidas do governo em todo o mundo aumentem em 16 pontos da renda nacional, de 69 para 85% do PIB este ano. O déficit orçamentário dos EUA é estimado em 19% (o mais alto desde 1945) após o quarto pacote de ajuda pandêmica, e só aumentará. A média para as economias capitalistas avançadas é de pouco mais de 10%, e o Brasil, a China e a Índia estão em um nível semelhante. Assim, não apenas o Estado está efetivamente garantindo uma grande parte do mercado da dívida, mas também uma grande parte do gasto na economia é composta pelo déficit no orçamento do Estado.

Ao mesmo tempo em que tenta reduzir os custos de empréstimos das empresas, os governos também estão transferindo subsídios em larga escala às empresas para manter os funcionários sob contrato. Mais de 30 milhões de trabalhadores na Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha estão fazendo com que o Estado pague seus salários, embora a uma taxa reduzida. Isso representa cerca de um quinto de toda a força de trabalho desses países.

Um dos problemas com esses esquemas, que visam fornecer apoio de curto prazo para empresas viáveis, é que é praticamente impossível saber o que será um negócio viável ou não daqui a cinco meses, pois o passado não é um bom guia para o futuro. É evidente o risco de que os bancos centrais e os governos acabarão mantendo as empresas com suporte vital por tempo indeterminado.

É exatamente isso o que se supõe que o governo e os bancos centrais não deveriam estar fazendo, mas eles não têm alternativa:

“‘Capitalismo sem falência é como catolicismo sem inferno’, disse Howard Marks, diretor do fundo de investimento Oaktree Capital Management LP, em uma carta aos acionistas este mês, escrevendo que ‘os mercados funcionam melhor quando os participantes têm um medo saudável da perda’. Marks, em uma entrevista posterior, disse que não queria sugerir que as ações de Powell estavam erradas: ‘O fato de algo poder ter consequências negativas e não intencionais não significa que seja um erro’”.

Independentemente do que pensem das medidas, poucos realmente pensam que estão errados e menos ainda têm alternativa. Os republicanos que se opunham aos resgates de 2008 agora estão apoiando as medidas com a desculpa de que as circunstâncias são únicas: “Isso deve ser considerado um evento muito estranho de Cisne Negro, e não algo que seria revisado em circunstâncias comuns“, segundo o senador Pat Toomey. Steve Bannon, o consultor político de Trump, é apenas um dos muitos que reconhecem a nova situação:

“‘A era de Robert Taft, do conservadorismo do governo limitado?’, disse Steve Bannon, o guru político do presidente Trump, referindo-se ao senador de Ohio que lutou contra a expansão de programas governamentais e empréstimos federais. ‘Não é relevante. Isso simplesmente não é relevante’”.

Até o ministro das Finanças do Brasil, o “Chicago Boy” Guedes, foi forçado a ceder sob pressão da classe dominante. A classe dominante não está interessada em banalidades vazias e está discutindo abertamente se ele está pronto para o trabalho ou deve ser demitido. Ele introduziu um pacote de apoio emergencial de US$ 223 bilhões e agora está tentando se defender de parecer “um economista keynesiano“. Aparentemente, ele fez uma “distinção conceitual” entre medidas de emergência e reforma estrutural. Mas Keynes nunca foi um defensor dos princípios da intervenção estatal; ele apenas a considerou uma necessidade, sob certas circunstâncias, para garantir o funcionamento do capitalismo e impedir a revolução.

Para dar a Guedes e Toomey o que lhes é devido, é verdade que crises dessa magnitude ocorrem apenas muito raramente, como um Cisne Negro. Na verdade, é apenas a segunda na história do capitalismo. No entanto, essa advertência não faz sentido, já que estamos em crise agora e não há saída no curto prazo. Isso apenas reforça o argumento de que, diante dessa crise, eles só são capazes de jogar muito dinheiro público no problema. Não importa se eles são seguidores de Friedman ou Keynes, eles acabam fazendo a mesma coisa no final, porque não têm escolha.

O papel do Estado

O aumento do papel do Estado em si é um sintoma da rebelião das forças produtivas contra as restrições da propriedade privada, como Engels, Lenin e Trotsky apontaram. Ted Grant explicou isso na década de 1950:

“É claro que o aumento do papel do Estado com o fim do laissez-faire já havia sido apontado por Marx e Engels. A tendência das forças produtivas de superar os limites da propriedade privada obriga o Estado a intervir cada vez mais na ‘regulamentação’ da economia”.

E, novamente, a tendência monetarista das últimas décadas terá necessariamente de ser revertida:

“A toda ação corresponde uma reação igual e contrária”. Esta lei se aplica não apenas à física, mas também à sociedade. O impulso para a privatização alcançará seus limites. Isso já está começando a acontecer na Grã-Bretanha. Em certo estágio, a tendência para a estatização se reafirmará. ”

Isto é o que aconteceu agora, e com uma explosão. Contudo, de maneira alguma resolve a crise, mas apenas fornece um paliativo transferindo os passivos para o balanço público. Nos anos 50, havia muitas ilusões de que a intervenção estatal resolveria os problemas do capitalismo. Ted Grant apontou que isso não impediria outra crise, e ele se mostrou correto quando o boom da década de 1950 deu lugar à crise da década de 1970.

Este vírus atingiu uma economia que já estava em dificuldades. Esta crise está em preparação desde o final da Segunda Guerra Mundial. Os capitalistas conseguiram adiá-la com um aumento maciço da dívida, mas agora isso atingiu seus limites. A crise de superprodução está em pleno andamento.

Algumas grandes corporações emergirão disso mais fortes. Elas o conseguirão não com base no desenvolvimento das forças produtivas, investindo em novas tecnologias e indústrias, mas por serem as últimas empresas em pé, enquanto as outras, menos lucrativas, vão à falência. A consolidação inevitavelmente significará a perda de empregos. Isso prejudicará ainda mais o mercado, o que tornará os novos investimentos não rentáveis. O Estado intervirá para salvar as empresas grandes demais para falir, mas não pode salvar a economia como um todo.

O capitalismo monopolista de Estado, como Lenin o chamou, não interrompe as crises do capitalismo porque na verdade não elimina a anarquia do mercado. A motivação do lucro continua sendo a força motriz da economia, e o Estado apenas lhe dá uma ajuda. No entanto, quaisquer que sejam as linhas de crédito estendidas às empresas multinacionais, quaisquer que sejam os subsídios, não haverá investimento a menos que haja um mercado, e o mercado agora está encolhendo, à medida que os trabalhadores são demitidos ou recebem cortes nos salários.

É necessária uma economia planejada

O próximo desastre não é uma necessidade. Se não vivêssemos sob essa sociedade bárbara, que coloca os lucros acima de tudo, poderíamos administrar a crise sem que ela se transformasse em uma catástrofe. Se se produzem demasiados produtos, isso deveria apenas dar aos trabalhadores tempo livre adicional. Somente sob a lógica distorcida do capitalismo muita capacidade produtiva se transforma em crise.

Uma economia planejada e nacionalizada poderia, nessas circunstâncias, ser fechada com poucos danos às perspectivas de longo prazo da economia. É claro que haveria algum deslocamento, mas a economia seria capaz de recomeçar em um nível semelhante de produção. Pode haver uma escassez de produtos menos essenciais por um período, mas não haverá desemprego, fome ou falta de moradia e a economia se recuperará rapidamente.

Os recursos poderiam ser alocados rapidamente de um setor da economia para outro, usando a engenhosidade da classe trabalhadora, totalmente envolvida na gestão da economia. Não haveria necessidade de pagar aos capitalistas quantias exorbitantes de dinheiro para fazê-los satisfazer as necessidades básicas da sociedade, sejam elas alimentos ou equipamentos de proteção. O nível de solidariedade entre os trabalhadores está sendo exibido em todos os lugares onde o vírus atingiu. Se os trabalhadores estivessem no comando, em vez de excluídos de todas as decisões importantes, a efusão espontânea de solidariedade nas mídias sociais e o aplauso nas ruas teriam sido transformados em ações concretas.

O capitalismo está preparando a miséria para bilhões de trabalhadores. Nossa tarefa é confinar esse sistema podre à lata do lixo da história. O futuro da humanidade depende disso.