Hieronymus Bosch e a arte da agonia do feudalismo (parte 2)

Hieronymus Bosch foi um dos mais notáveis e originais pintores de todos os tempos. Suas obras foram pintadas há 600 anos e ainda continuam surpreendentemente modernas, tendo antecipado o surrealismo. É a arte de um mundo em estado de turbulência, despedaçado por tendências contraditórias – um mundo em que a luz da razão se extinguia e onde as paixões animalescas ganhavam relevo, um mundo de horror e violência, um pesadelo real. Em síntese: um mundo muito parecido com o nosso. Alan Woods analisa isso do ponto de vista do materialismo histórico.


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PARTE 1

A face do mal

Na Alemanha, a arte gótica começava a refletir o novo espírito do Renascimento Italiano. Mas enquanto a arte italiana é cheia de luz e alegria, a arte alemã daquele tempo é sombria, seu conteúdo é austero, seu estilo grotesco. Essa arte está suspensa entre dois mundos. Tem caráter de transição porque é filha de uma época tradicional, na encruzilhada entre o tardio feudalismo e o nascente capitalismo.

O Retábulo de Isenheim é um retábulo pintado pelo artista alemão Matthias Grünewald, em 1506-1515. Aqui a crucificação de Cristo é representada de forma brutal e sádica. Aqui não há nenhum consolo, nenhuma esperança de redenção e de vida após a morte, e sim uma incessante escuridão. Os demônios presentes refletem o triunfo do mal. Essa é a arte de um tempo de medo e ansiedade. Ela penetra os recônditos mais sombrios do inconsciente coletivo de um tempo problemático em que homens e mulheres são assaltados por todos os lados pelas forças incontroláveis do mal.

Em sua tela A Coroação de Espinhos, Bosch representa homens como demônios, suas faces contorcidas com expressões inumanas. A autoridade é expressa na pessoa de Pôncio Pilatos, que é mostrado como um repulsivo cínico e hipócrita. A única face humana é a do próprio Cristo, prestes a ser martirizado. Aqui novamente a visão da humanidade parece ser negativa – é a visão de um mundo em ruínas, de uma humanidade sem redenção.

Em outra tela, Cristo Carregando a Cruz, que pode ser vista no Museu de Belas Artes em Ghent [cidade portuária da Bélgica], vemos a figura de um solitário e exausto Cristo cercado por homens com rostos de bestas e monstros. São rostos de homens tão corrompidos que perderam todo conteúdo ou sentimento humano. No entanto, quando verificamos mais cuidadosamente, vemos que esta conclusão é demasiado radical. O que Bosch tem em mente não é a humanidade como um todo, mas um específico grupo social. Os rostos representados não são do povo pobre, mas de mercadores, cavalheiros e outras autoridades, inclusive um monge dominicano monstruosamente fanfarrão.

Enquanto os pecadores que sofrem os tormentos do inferno são representados nas telas de Bosch com certa compaixão, para aqueles homens ele mostra franco ódio. Aqui também há uma lição ao nosso tempo. Bosch pintava em um tempo em que os valores de mercado e o dinheiro eram fenômenos novos que tinham apenas emergido como uma força social. Nos nossos dias, falamos de um homem que “vale” um bilhão de dólares e sequer pensamos sobre o que estamos dizendo – que as pessoas tornaram-se meras mercadorias, coisas à venda.

Na defesa de seu poder, riquezas e privilégios, os ricos e poderosos são capazes de revelar terrível ferocidade e crueldade. Os rostos desumanizados em Cristo Carregando a Cruz são os rostos de ávidos, vorazes e incontroláveis apetites e a corrupção do espírito humano. São os rostos da riqueza e do poder sobre a terra – não como gostariam de ser apresentados, mas como são realmente. Bosch sem misericórdia desnuda a máscara sorridente para revelar a fera predadora à espreita.

Naturalmente, os que estão no poder gostam de se ver sob luz diferente, como benfeitores da humanidade, os “empregadores”, os “capitães da indústria” e assim por diante. Retratos aduladores os representam sob luz mais favorável. A Carroça de Feno é a chave para tudo isso. Ela resulta da chamada economia de mercado que corrompe o mundo e usurpa sua humanidade.

O Jardim das Delícias

O Museu do Prado, em Madri, acolhe a maior obra-prima de Bosch, O Jardim das Delícias. Aqui a tragédia da existência humana se expressa numa espetacular tour de force [façanha]. Tudo é uma louca explosão de cor e movimento que nos deixa a cabeça girando. Há tal massa de detalhes, imagens e justaposições tão surpreendentes que é impossível vê-los em conjunto de uma só vez. Mas quando nos concentramos em cada detalhe, maravilhamo-nos com a riqueza de sua composição.

Em O Jardim das Delícias somos confrontados com um tema recorrente em Bosch – a tentação. Isso representa, em si mesmo, uma contradição e uma manifestação de tendências conflitantes e antagônicas. O fruto proibido (o prazer sensual terreno ou os prazeres da carne) é representado como frutas ou como uma bela mulher nua – a mais desejável de todas as frutas proibidas. A mesma imagem pode ser vista em A Tentação de Santo Antônio. A um exame mais atento, o que Bosch está pintando não são as delícias da terra, mas os tormentos do inferno.

Essa tela é um tríptico (como A Carroça de Feno), ou seja, está dividida em três partes. Em típico estilo medieval, é uma alegoria. Ela conta uma história. Mais corretamente, conta a história do homem que perdeu a graça de Deus. Da esquerda para a direita, começa com o Jardim do Éden. Mas até mesmo nesse paraíso, as sementes do demônio já estão presentes. No Jardim do Éden já vemos monstros: um peixe com mãos humanas e uma cabeça de pato que agarra um livro ao emergir por uma cavidade, enquanto um leão que matou sua presa está prestes a devorá-la. A fonte da vida, grotescamente desenhada no centro da tela, é encimada por uma lua crescente, o sinal do diabo, uma alusão ao Islã e aos turcos.

Ainda mais sinistro é a coruja que nos encara de um buraco na base da fonte. Enquanto, para os atenienses antigos, a coruja era uma ave associada com a deusa Athena, a deusa da sabedoria (daí o termo “a sábia coruja”), na Idade Média, essa ave noturna com seu sinistro grito estava associada com o diabo. A coruja aparece recorrentemente na obra de Bosch.

O painel central apresenta um vasto panorama da vida: figuras nuas, animais fantásticos, frutas por todos os lados e híbridos arranjos de pedra. Os enormes morangos que os homens desesperadamente tentam provar são o símbolo da tentação em sua mais óbvia forma – o sexo. O peixe gigantesco que aparece por todos os lados é o símbolo fálico. No primeiro painel, os humanos (Adão e Eva) são maiores que os animais e estão na mesma escala de Jesus (Deus). Mas aqui as dimensões são alteradas.

O painel central contém muitos pássaros que se misturam com os humanos e até mesmo os alimentam com frutas (proibidas). Aqui temos uma ideia brilhante que nos aproxima do surrealismo. Na vida cotidiana, as aves são vistas geralmente como inofensivas. Elas nos atraem com suas penas coloridas e melodiosos cantos. Mas essas aves se apresentam sinistras e ameaçadoras. Têm dimensões aumentadas e são de longe maiores que os humanos. Com seus olhos sem expressão e seus pontiagudos bicos, elas parecem ameaçar os humanos nus e indefesos ao seu redor.

No Jardim das Delícias há perigo a cada passo. Bosch está nos advertindo de como são provisórios todos os prazeres mundanos. O doce sabor dos sensuais frutos cedo desaparecerá. Toda a humanidade converge na mesma direção e isso é mostrado no painel direito. Aqui temos uma verdadeiramente infernal cena representando com detalhes gráficos os tormentos da danação.

Os condenados são punidos de acordo com os seus pecados: os glutões são condenados a vomitar eternamente ou são excretados pelo Demônio, que tem a cabeça de uma ave. Um homem (possivelmente músico em vida) tem seu corpo penetrado pelas cordas de uma harpa, enquanto outro tem uma flauta enfiada no ânus. Há uma espantosa variedade de demônios e monstros de todos os tipos, cada um deles o produto de um pesadelo.

Contudo, o mais terrível e desconcertante de todos os monstros no Inferno é o Homem Árvore que está localizado no centro da pintura. Seu torso oco, repousando sobre um par de troncos de árvore podres, está perfurado por galhos afiados que se projetam de seu próprio corpo. O homem árvore tem um olhar perdido que paira além do espectador, sua estranha e pensativa expressão sugere que o homem árvore pode ser um autorretrato do próprio Bosch, a observar melancolicamente o espetáculo da queda da humanidade.

Contradições

Essas notáveis telas expressam extremo contraste entre luz e sombra, mas no final as sombras sempre ganham. Aqui estão combinados todos os pesadelos da Idade Média. Fogo do inferno e enxofre. Eterna danação e sombras, o choro e o ranger de dentes.

Nas telas de Bosch somos dominados por um poderoso sentimento de oposição. Não apenas vemos o agoniado conflito de tendências incompatíveis: nós o sentimos, o tocamos, o ouvimos e o cheiramos. As imagens são tão vívidas que se lançam da tela e te agarram pela garganta. Frequentemente elas nos evocam a arte do surrealismo – que resultou de contexto histórico similar. Existem as mesmas contradições subjacentes, que se apresentam perfeitamente justapostas.

Bosch pintou o período em que viveu e refletiu isso como um espelho. Este é o inferno na terra. Para a grande maioria da humanidade, o século 15 era já uma espécie de inferno sobre a terra. Há uma grande profundidade aqui. Como toda arte maior, essa não permanece na superfície e penetra os mais profundos recônditos da psique humana, capturando e trazendo à superfície todos os seus sonhos e pesadelos mais secretos. Aqui a arte imita a vida.

Em um mundo onde muitos viviam famintos, vemos cenas de espantosa comilança. Temos aqui a mesma brutal desigualdade entre ricos e pobres, a mesma desigualdade e injustiça que existe em nossos tempos. Incapaz de corrigir essas injustiças flagrantes no mundo real, Bosch as pune em suas telas. O sofrimento dos condenados corresponde à natureza de seus pecados: mulheres vaidosas e lascivas são representadas fazendo sexo com sapos e lagartos que se agarram a suas partes íntimas. Essa é uma expressão da misoginia essencial da visão de mundo do cristão, para quem o Pecado Original foi invenção da Mãe Eva Universal. Os músicos são atormentados por seus próprios instrumentos que se transformam em equipamentos de tortura etc.

A inspiração artística para essas visões tem suas raízes no passado medieval, embora ainda pareça impressionantemente moderna. Isso se vê nas grotescas figuras de demônios e pecadores nas paredes externas de igrejas – gárgulas etc. Certamente, era esse o mais vívido componente dessa velha arte. Mas até então ela desempenhava um papel subordinado, enquanto com Bosch ela assume independência e luz própria.

Reforma e Contrarreforma

A morte finalmente alcançou Bosch em sua Bolduque natal em 1516. Um ano depois um jovem monge chamado Martinho Lutero foi até a igreja em Wittenberg e pregou suas 95 teses em sua porta. A revolta da burguesia contra o feudalismo encontrou sua expressão, inevitavelmente, no protesto religioso. A religião protestante no fundo expressa a visão de mundo e os interesses da burguesia. A velha ordem feudal encontrou seu mais fanático modelo na católica Espanha.

Toda a Europa agora se encontrava à beira de um período de revolução e contrarrevolução na forma de guerras religiosas. Estava entrando numa dança de morte que durou três décadas. As chamas inflamadas da atormentada visão do inferno de Bosch devastaram as cidades da Holanda, da Alemanha e da Boêmia. Em parte alguma as guerras religiosas foram travadas com maior crueldade do que na pátria de Hieronymus Bosch, onde a primeira revolução burguesa da história se expressou como uma guerra de independência nacional dos Países Baixos contra a Espanha.

Os tormentos diabólicos representados por Bosch assemelham-se àqueles realmente infligidos pela Inquisição Espanhola sobre os corpos de homens e mulheres indefesos, em nome da religião. Depois do esmagamento da primeira revolta na protestante Holanda pelo sinistro Duque de Alba, muitas das mais conhecidas obras de Bosch foram levadas à Espanha. Filipe II, católico fanático e dirigente da Cruzada antiprotestante, era um admirador entusiasta de Bosch e ou comprou ou confiscou todos os seus trabalhos ao alcance de suas mãos. Ele os colocou em seu palácio El Escorial, estranha mistura de monastério e centro do poder imperial.

O painel que Bosch tinha pintado com o motivo dos sete pecados mortais, ele o colocou em seu quarto de dormir e ali esteve até sua morte. Esse painel tinha gravada a enigmática advertência: “Tenha cuidado, Deus vê tudo”. Mas é duvidoso que Filipe visse algo. Ele não entendeu nem Bosch nem suas telas, que continham uma denúncia feroz da Igreja Romana e de suas práticas corruptas, como a inesquecível pintura de uma porca com um véu de freira pressionando um homem a assinar um documento – provavelmente para transferir toda sua fortuna à Igreja. Essas telas contêm uma forte descrição da decadência moral da Igreja.

Por um estranho acidente da história, a obra de Bosch foi entusiasticamente endossada pela liderança da Contrarreforma, como Frei José de Singüenza, o conselheiro espiritual de Filipe II. Na verdade, não há uma só imagem ou de um monge ou de uma freira em todas as telas de Bosch que ele tenha apresentado sob luz favorável. Se Bosch estava abrindo caminho para algo, era para a derrubada da Igreja e não para sua defesa. Pode-se mesmo dizer que Lutero deu uma expressão coerente às incoerentes ideias que Bosch expressava em sua arte. Nesse sentido, a arte antecipa a história.

Alguns especialistas até mesmo sugerem que Bosch era membro de alguma das numerosas seitas dissidentes e heréticas daqueles tempos, que se multiplicavam como cogumelos depois da trovoada. Wilhelm Fraenger tentou provar que ele era membro de uma seita religiosa dissidente – os Adamitas. Eles se reconheciam entre si como irmãos e irmãs, e as mulheres tinham posição proeminente entre eles. Eles celebravam a árvore e as delícias do paraíso; realizavam seus cultos juntos e nus, como Adão e Eva antes da Queda. Essa era uma ideia revolucionária, impregnada de igualitarismo. Fraenger reivindica que as telas de Bosch são baseadas nos rituais Adamitas. Contudo, outros escritores negam essa opinião, e não há nenhuma prova consistente para isso.

Ontem e hoje

Bosch pode ser visto como o último pintor da Idade Média. Referindo-se à arte daquele período, Walter Bosin escreveu: “A agonizante Idade Média fulgurou com uma grande explosão de brilho antes de morrer para sempre” (Hieronymus Bosch, c. 1450-1516: Entre o céu e o inferno). Mas sua arte não nos parece medieval. Ela nos fala em voz alta e clara. Seu estilo e sua técnica são incrivelmente modernos. Isso se deve a sua mensagem interior. É uma arte que tem algo a dizer. Mira a face da realidade, sem medo, e nos pede que pronunciemos nosso julgamento sobre ela. Que contraste com as irrelevâncias estéreis da arte dos nossos dias!

Bosch pintou em um tempo em que o capitalismo estava apenas começando sua trajetória. Sua época heroica ainda pertencia ao futuro, fora do campo de visão de Bosch. Tudo o que podia ver eram os sintomas de uma sociedade em fase de decadência terminal. Sempre que um sistema socioeconômico esgota seu potencial, vemos os mesmos sintomas: crises econômicas, guerras e conflitos internos, decadência moral e crise de ideias, que se refletem em perda de fé na antiga moralidade e religião, acompanhada pelo incremento de tendências místicas e irracionais, de um sentimento geral de pessimismo, da falta de confiança no futuro e da decadência da arte e da cultura.

São essas as características que se espera encontrar em uma sociedade que esgotou seu caráter progressista e que é incapaz de desenvolver as forças produtivas como fez no passado. Em todos os casos existe o sentimento de que “o fim do mundo está se aproximando”. Na Antiga Roma, essa crença encontrou sua expressão na religião cristã, que apregoava que o mundo estava a ponto de acabar em chamas de um dia para o outro. No período de decadência do feudalismo, as seitas flagelantes marchavam pelas cidades e povoados predizendo o fim do mundo. Nos dois casos, o que se aproximava não era o fim do mundo, mas a morte de um sistema socioeconômico definido (o escravismo e o feudalismo.)

Agora que a primeira década do século XXI terminou, está evidente que é o capitalismo que entrou em fase de decadência terminal.

O mundo de Bosch tinha muitas coisas em comum com o nosso. O mundo no início do século XXI é um mundo de turbulências, violências e caos. É o mundo do 11 de setembro e da ruína do Iraque e do Afeganistão. Vivemos em um mundo arruinado pelas guerras. A fome e a miséria convivem com a riqueza e a ostentação mais obscena.

A enfermidade do sistema se manifesta em todos os níveis. Seis séculos depois, a carroça de feno ainda continua sua peregrinação, esmagando homens e mulheres sob suas pesadas rodas. A alienação capitalista e o fetichismo da mercadoria ocuparam tal espaço em nossas psicologias que sequer somos conscientes disso. Seria necessário um artista da envergadura de Bosch para que esses preconceitos profundamente ocultos aflorassem em nossa consciência.

Em nenhum outro momento da história o governo do dinheiro esteve tão arraigado como em nossa época. As pessoas se veem degradadas ao nível de objetos e as coisas inanimadas adquirem características humanas. Nesse processo, a humanidade se desvaloriza, empobrece e se aniquila. Aqueles rostos cruéis e desumanos, deformados pela avareza e pela ganância, que aparecem nas obras de Bosch, hoje se mostram nos saguões das bolsas de valores do mundo, esses enormes cassinos em que os convulsos movimentos do mercado decidem a sorte de milhões de homens e mulheres.

Os pesadelos de Bosch não estão tão longe das condições de nossa época, salvo que, em vez de pinturas, podemos ver essas mesmas espantosas imagens todas as noites nas telas de nossos televisores. Mesmo assim, nada disso encontra expressão em nossa arte contemporânea. Quatro milhões de homens, mulheres e crianças são massacrados em uma guerra civil no Congo e o melhor que nossos artistas britânicos encontram para nos oferecer é uma cama desfeita.

Por que as pessoas estão sempre olhando para trás, admirando, com nostalgia, a grande arte do passado? Porque a arte, hoje, nada mostra de significativo. Pablo Picasso pintou sua obra-mestra, Guernica, em resposta à guerra civil espanhola. Francisco Goya pintou seus Desastres da Guerra como comentário e sentença sobre os horrores de sua própria época. Mas hoje em dia até mesmo os tubarões nos são apresentados mortos e conservados em formol.

A própria arte foi esterilizada e embalsamada em um sarcófago de cristal. Pela primeira vez em séculos, a arte nada tem a nos dizer sobre o mundo em que vivemos. Converteu-se em propriedade de um minúsculo cenáculo de compradores e estetas totalmente distanciados da realidade e da vida. Se a arte mostra indiferença em relação aos problemas e à vida das pessoas, não surpreende então que as pessoas se mostrem totalmente indiferentes à arte.

Nossa época necessita de seu próprio Bosch para colocar um espelho em sua face e mostrá-la tal qual é. Esses artistas devem estar em algum lugar, mas suas vozes não se ouvem, afogadas como estão pelo carnaval ruidoso e especulativo que domina a arte, da mesma forma que domina o restante de nossa sociedade. Cedo ou tarde a verdadeira voz da arte, sincera e valente, se fará ouvir, e a humanidade se enriquecerá ao ouvi-la.