Grã-Bretanha: greve RMT – “É uma guerra de classes”

A luta de classes está escalando na Grã-Bretanha, enquanto os membros do RMT em greve paralisam as ferrovias, e os conservadores e os patrões tentam esmagar os sindicatos. A imprensa da sarjeta está gritando sobre “guerra de classes”. E – pela primeira vez – eles estão corretos. Republicamos este artigo de 22 de junho, publicado originalmente em socialist.net [em inglês].

[Source]

Ontem, os ferroviários do sindicato RMT (dos trabalhadores Ferroviários, Marítimos e dos Transportes) realizaram o primeiro dos três dias de greve previstos para esta semana. Isso provocou o fechamento de estações e a paralisação de trens em todo o país.

Em Londres, os trabalhadores ferroviários em greve também se juntaram aos membros do RMT no metrô, fechando-o e paralisando a capital.

Esta é a maior greve ferroviária em décadas e está se tornando uma luta monumental para todo o movimento trabalhista, enquanto os membros do RMT lutam para defender seus empregos, salários e condições.

Também está se preparando para ser a primeira de muitas grandes greves programadas para os próximos meses, enquanto a classe trabalhadora luta para proteger seus padrões de vida diante da inflação e dos arrochos salariais.

Uma vitória nesta greve ferroviária será, portanto, vital para encorajar toda a classe trabalhadora: dos professores aos trabalhadores dos correios, de médicos a faxineiros.

Frenesi da mídia

Naturalmente mesmo este único dia de ação assustou consideravelmente a classe dominante, que se empenhou em atacar e difamar o sindicato.

A mídia dos patrões lançou uma ofensiva feroz contra o RMT: tentando rotular o sindicato como “extremista”; seu secretário-geral, Mick Lynch, como “marxista”; e com membros “excessivamente remunerados” como se fossem “chantageados” por seus líderes para “paralisar” o país.

Tais mentiras e histeria são esperadas, à medida que a classe trabalhadora organizada se move cada vez mais na ação e luta por seus próprios interesses.

Por uma vez, pelo menos, a imprensa da sarjeta disse a verdade, com a capa desta manhã do Sun declarando: “É uma guerra de classes!” – como alertou o trapo humano Murdoch sobre o potencial de um verão de greves de outros trabalhadores.

Para seu crédito, Mick Lynch está enfrentando os cães de ataque dos capitalistas – sejam eles apresentadores de TV sensacionalistas, parlamentares conservadores ou líderes da indústria; consistentemente atalhando seus absurdos e apresentando as verdadeiras razões por trás dessas greves em inúmeras aparições na mídia.

E apesar da enxurrada de propaganda reacionária, uma pesquisa recente mostrou que a maioria das pessoas comuns – 58% – acha que as greves ferroviárias são justificadas. Enquanto isso, apesar dos melhores esforços dos patrões para demonizar o RMT, a mesma pesquisa descobriu que os entrevistados acreditavam que o governo conservador é mais culpado pela ação grevista em andamento do que o sindicato.

De fato, as demandas do RMT – pela defesa dos empregos e por um aumento real de salários – estão claramente ganhando eco, com trabalhadores em toda a Grã-Bretanha simpatizando com os grevistas, à medida que a inflação aumenta para 9,1%, o máximo em quatro décadas, e a crise do custo de vida morde cada vez mais forte.

O Partido “Trabalhista”

Infelizmente, em seus esforços para provar ser um representante confiável dos grandes negócios, o campeão do establishment, “Sir” Keir Starmer, aconselhou os parlamentares trabalhistas da bancada a não participarem dos piquetes do RMT.

No entanto, tal comportamento vergonhoso não fez nada para apaziguar os capitalistas. Apesar dos esforços da liderança trabalhista para distanciar o partido das greves, os conservadores e a imprensa de direita tentaram continuamente vincular os dois – mesmo que o RMT não seja afiliado ao trabalhismo!

Ao mesmo tempo, a recusa de Starmer em apoiar a greve enojou trabalhadores e ativistas de todo o movimento trabalhista.

No entanto, vários deputados trabalhistas desobedeceram às ordens de seu líder e visitaram piquetes para oferecer sua solidariedade.

Essa atitude desafiadora é bem-vinda. O apoio às medidas tomadas pelos trabalhadores deve ser o mínimo esperado de qualquer representante “Trabalhista”.

Linhas de piquetes

Os apoiadores de Socialist Appeal também mostraram solidariedade com os trabalhadores do RMT em greve ontem, visitando piquetes por todo o país.

Os grevistas nos contaram histórias angustiantes de uma cultura de bullying e racismo da alta administração, deixando alguns trabalhadores com problemas de saúde mental.

Membros de outros sindicatos – incluindo CWU, Unison, NEU e Unite – também estavam lá para oferecer apoio.

Nossos camaradas falaram com membros locais do RMT, que corretamente apontaram que os Conservadores estão tentando fazer desta disputa um espetáculo para atacar todo o movimento trabalhista. Mas isso é contraproducente, já que a maioria dos trabalhadores também está enfrentando ataques aos seus salários e condições reais e apoia essa ação grevista.

Um grevista apontou corajosamente que o único caminho a seguir é mobilizar todo o movimento sindical, com o objetivo de uma greve geral para derrubar os conservadores. Essa é exatamente a perspectiva com a qual o movimento trabalhista deve se armar.

Camaradas que participaram do piquete da Liverpool Street entrevistaram o secretário da East London Rail Branch, Walé Agunbiadé, que também destacou a força do apoio público, bem como o aumento da desigualdade.

Apoiadores de Socialist Appeal em Londres também se juntaram ao piquete na estação Kings Cross, ajudando a distribuir panfletos do RMT e conversando com as pessoas sobre a greve.

Os camaradas relataram um clima otimista na linha de piquete. Apenas 30% dos serviços da East Coast Mainline estavam operando – muito abaixo das expectativas da administração de operar com 80%. Muitos automóveis buzinavam em apoio e os transeuntes levantavam o polegar como aprovação.

Darren, um dos trabalhadores ferroviários em greve, disse a Socialist Appeal: “Não pode haver espaço para apatia quando seus empregos, termos e condições de trabalho e pensões estão em risco. Mas não haverá espaço para simpatia quando você não tiver mais trabalho pelo qual lutar”.

Nossos camaradas também visitaram o piquete em Newcastle. O apoio aqui foi extremamente positivo, com um transeunte afirmando: “Já era hora de enfrentarmos esses chefes que pensam que podem se safar tratando os funcionários dessa forma!”.

Um dos grevistas nos disse: “O apoio do público tem sido ótimo. O público percebe que não ganhamos £ 41.000. Eles não caíram na armadilha dos ataques e mentiras dos conservadores”.

Um colega desse trabalhador então acrescentou: “Por que estaríamos em greve se ganhássemos mais de £ 40.000 por ano? É um lixo o que eles estão fazendo”.

Em Leeds, a linha de piquete também foi sólida. Os trabalhadores falaram da segurança do trabalho como uma grande preocupação, ao lado dos baixos salários, com vários cortes potencialmente levando a riscos elevados – e até a mortes.

Os membros do RMT entenderam claramente seu papel como a primeira vaga de greves em um tsunami de ação militante. Muitos mencionaram não estar em greve apenas por eles mesmos, mas por toda a classe trabalhadora.

Nossos camaradas também apoiaram piquetes em Sheffield, Norwich, Ipswich, Cardiff, Clacton-on-Sea, Cambridge, Morpeth, Acton e em muitos outros locais em todo o país.

Ponto de inflexão

Esta greve tem potencial para ser um ponto de virada na luta de classes na Grã-Bretanha. Todos os olhos estão voltados para o RMT.

Uma vitória nesta batalha será um grande estímulo para todo o movimento sindical, que veio ganhando força de forma constante e segura ao longo do ano passado, com greves e disputas se espalhando por indústrias e regiões.

De fato, isso é reconhecido pelos conservadores, com o deputado PM Dominic Raab afirmando em uma entrevista que “nós [leia-se: a classe dominante] não podemos permitir que os sindicatos ganhem essa luta”.

Como tal, é vital que todo o movimento trabalhista apoie o RMT.

Uma greve nacional de professores já está nos planos, com o NEU alertando o governo de que o sindicato passará a votar pelos membros se suas demandas por um aumento salarial adequado não forem atendidas.

E mais de 115.000 trabalhadores dos correios do Royal Mail – organizados no CWU – também estão prontos para votar em uma possível ação de greve sobre os salários.

Avizinha-se uma ação grevista nacional similar no serviço público, nos tribunais e na indústria de telecomunicações. E, sem dúvida, a vitória desses trabalhadores encorajaria os funcionários do NHS e os funcionários do governo local a se mobilizarem também.

Os líderes sindicais devem oferecer uma estratégia de luta: organizar a ação coordenada de todo o movimento – não apenas para fortalecer essas lutas e ganhá-las em nome de seus membros, mas para derrubar esse governo dos bilionários e patrões.

Como Nick Oung, membro do RMT e ativista de Socialist Appeal, afirma corretamente: “Quanto maior nossa greve, melhor será nossa vitória!