França: ação do governo contra petrolíferos desencadeia convocação de greve geral

Neste artigo publicado na segunda (17) na página da Corrente Marxista Internacional (CMI), Jorge Martín e Joe Attard explicam os motivos da greve iniciada no dia 18 e as mobilizações de massa que continuam por toda a França.

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Em 11 de outubro, o governo francês decidiu usar os poderes do Estado para “requisitar” vários entrepostos de petróleo onde os trabalhadores estavam em greve desde 27 de setembro. Isso levou à convocação de um dia de greve nacional na terça-feira (18). Acabando de sair de uma grande manifestação contra o custo de vida no dia 16, a luta de classes na França está rugindo de volta à cena.

Com quatro das sete refinarias do país fechadas, a greve dos petroleiros está causando escassez generalizada em postos de gasolina em todo o país, escassez esta que está começando a afetar o transporte e os serviços essenciais e lentamente paralisando o país. Os trabalhadores do petróleo estão exigindo um aumento salarial de 10% para acompanhar a inflação.

Apesar de uma campanha da mídia e dos políticos de direita contra a greve, os trabalhadores do petróleo têm amplo apoio público, já que milhões de trabalhadores de outros setores estão enfrentando um ataque semelhante ao poder de compra de seus próprios salários.

Greve geral

Diante da intervenção estatal contra a greve dos petroleiros, a militante Federação Nacional dos Trabalhadores da Indústria Química, da CGT, a FNIC-CGT, fez um apelo para generalizar as greves a outros setores.

Uma reunião conjunta de organizações sindicais (envolvendo a CGT, FO, Solidaires, FSU e organizações estudantis de ensino médio e universitário Fidl, MNL, Unef e Vie lycéenne) decidiu convocar um “dia nacional de mobilizações incluindo greves” em 18 de outubro.

A CGT estava falando de uma “greve geral em todos os setores”. A convocação pode servir como ponto de encontro e marcar o início de um movimento de greve generalizada. Outros setores já vinham se juntando com greves em usinas nucleares, aeroespaciais e automobilísticas, além da indústria química, entre outros. Os ferroviários já votavam pela greve, alguns a partir de 17 de outubro, outros a partir de 18.

Vários sindicatos, como o sindicato dos transportes CGT-Cheminots, anunciaram ação em 18 de outubro em solidariedade aos trabalhadores da Energia – Rafael Lopez

As três restantes refinarias de petróleo francesas deverão aderir à greve nacional, com o FNME-CGT anunciando que está totalmente aprovado um “alargamento (…) a todas as empresas de energia”.

Os sindicatos de transporte CGT-Cheminots e Sud-Rail anunciaram uma ação em 18 de outubro, oferecendo solidariedade aos trabalhadores da energia e exigindo aumentos salariais para seus membros. Também se fala que os motoristas de ônibus da empresa de transporte público RATP podem se juntar.

Além disso, foram apresentados anúncios de greve pelo sindicato dos serviços públicos UFSE-CGT, que além de prometer “apoio total à greve dos trabalhadores da indústria do petróleo”, está pedindo um aumento de salário imediato de 10%, com aumentos compatíveis com a inflação a partir de então, e se opõe a qualquer tentativa de reforma previdenciária.

Além disso, o CFDT-Santé, o principal sindicato de 200 mil membros no setor médico privado, convocou uma greve para o dia 18, com membros instruídos a largar o trabalho em clínicas e lares de idosos. Este é um desenvolvimento notável, pois as greves anteriores foram prejudicadas pela falta de coordenação entre os trabalhadores do setor privado e do setor público.

Macron em um aperto

Além de aumentar a oposição na frente industrial, Macron também está em apuros no Parlamento. Tendo perdido a maioria nas eleições gerais, ele está encontrando dificuldades para aprovar seu novo Orçamento, voltado para manter a inflação sob controle.

Ele já desistiu de incluir um aumento, há muito planejado, na idade de aposentadoria e enfrentou forte oposição aos cortes de gastos do Estado. Foi aprovada uma emenda por uma coalizão de parlamentares da oposição, introduzindo novos impostos para desencorajar as empresas francesas de pagar “superdividendos” a seus acionistas.

O Conselho de Ministros francês acaba de aprovar o uso do artigo 49.3 da Constituição, um mecanismo que permite ao executivo forçar o estabelecimento de leis através do parlamento sem votação, “se a situação o exigir”.

Esse movimento, considerado uma “opção nuclear”, seria extremamente perigoso. Não apenas enfureceria as massas, mas poderia levar a um voto de desconfiança do qual Macron não teria a garantia de vencer.

A França Insubmissa (LFI), que lidera a principal coalizão de oposição de esquerda no parlamento (a Nupes), convocou uma manifestação nacional em 16 de outubro contra o alto custo de vida e a crise climática. O Partido Socialista e os Verdes, bem como dezenas de outras organizações, aderiram.

Nessa corrida, o líder da LFI, Melenchon, mencionou as mulheres marchando em Versalhes contra o alto custo de vida em 1789, desencadeando a Revolução Francesa, e convocou os manifestantes em 16 de outubro a “fazer melhor que elas”. A manifestação foi muito grande, com os organizadores estimando uma participação de 140 mil pessoas, declarada por Melenchon como um “imenso sucesso”.

Ele declarou no comício principal em Paris que a liderança de Macron estava “frita” e que ele estava mergulhando a França no caos, prometendo que: “teremos uma semana do tipo que não vemos com muita frequência”.

Como comentam os camaradas franceses de Révolution:

“A greve das refinarias, a manifestação de 16 de outubro e a [greve] de 18 de outubro podem marcar uma viragem na situação política e social. Com sua arrogância de sempre, Macron criticou, ontem, o ‘punhado de pessoas’ que paralisam as refinarias.

“No dia 16 de outubro, 18 de outubro e além, devemos iniciar um vasto movimento para acabar com o “punhado de pessoas” que controlam a economia deste país e se empanturram de lucros, enquanto o povo afunda na privação e na precariedade.”

Por uma greve geral indefinida para derrubar Macron!

Mas nossos camaradas franceses levantam uma nota de cautela em um editorial recente:

“Já dissemos isso repetidas vezes… os ‘dias de ação’ sindicais, por mais massivos que sejam, não podem fazer o governo recuar. E como esses dias de ação são ineficazes, inevitavelmente mobilizam cada vez menos pessoas. O último dia de ação em 29 de setembro, por exemplo, passou em grande parte despercebido.

“O governo só vai recuar diante do desenvolvimento de um vasto movimento de greves renováveis, abrangendo um número crescente de setores da força de trabalho. No entanto, as direções nacionais do movimento sindical se recusam a reconhecer a necessidade dessa estratégia, explicá-la – e, portanto, preparar seriamente nossa classe para um movimento dessa natureza. Este é um obstáculo significativo, mas apenas relativo. A passividade e moderação das direções sindicais não podem impedir que a raiva social se expresse de forma radical, mais cedo ou mais tarde. Vimos isso com o movimento dos Coletes Amarelos em 2018 e 2019.”

Até agora, os dirigentes sindicais usaram dias isolados de ação como válvula de escape para aliviar a pressão entre a classe trabalhadora ou, na melhor das hipóteses, para levar seus membros às ruas para alavancar as negociações nos bastidores com o patrões e o governo. Em suma, eles se esforçam para manter a classe trabalhadora dentro de canais seguros.

A forte exibição neste fim de semana é mais uma indicação da ira que existe na sociedade francesa. Mas para que essa ira se traduza em ação militante, capaz de derrubar Macron e acabar com a investida de ataques contra os trabalhadores, precisamos construir uma greve geral generalizada, política e aberta que paralisará o país.

Os ferroviários, um dos batalhões pesados ​​da classe trabalhadora, já estão levantando a perspectiva, com um representante do SudRail dizendo que os membros “realizarão assembleias gerais na terça-feira, 18 de outubro, em toda a França e colocaremos a questão da greve renovável”.

Este é o caminho a seguir. A França está à beira de ferver mais uma vez, e as condições que proporcionam movimentos de massa existem em toda a Europa. O que é necessário é um programa radical de luta de classes e uma liderança ousada e determinada, capaz de levar esta luta até o fim.