FMI prevê uma recuperação… apenas para as nações ricas

No início deste mês, o FMI e o Banco Mundial realizaram sua segunda série de reuniões desde o início da pandemia. Apesar dos horrores indescritíveis que milhões de pessoas estão enfrentando, aqui o clima era de celebração e otimismo. A economia mundial está se movendo novamente, e ainda mais rápido do que eles esperavam!


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O crescimento do PIB mundial per capita, vejam vocês, está previsto para ser apenas 3 pontos percentuais menor, no final de 2022, do que havia sido previsto antes da pandemia. Isso não é ruim, dizem eles, considerando a queda estimada de 6,5% em 2020 e a queda esperada de 4% para 2021.

Mas o mesmo relatório do FMI e do Banco Mundial escondeu o fato de que a próxima recuperação “global” é quase inteiramente esperada apenas nas nações de alta renda da Europa e da América do Norte. Essas cifras serão ainda melhores para as nações capitalistas avançadas, cujas economias devem ser apenas 1 ponto percentual menores em 2022 do que se havia previsto antes do surgimento da Covid-19. Mas se espera que as economias de baixa renda e as chamadas “economias emergentes” – excluída a China – deverão ficar 6,5% abaixo das previsões de 2020 até o final de 2022.

Vida na sombra

Portanto, a classe capitalista nas nações ricas desfrutará de uma certa recuperação. Enquanto isso, os países mais pobres do mundo sofrerão mais do que nunca. Nas palavras do último relatório “World Economic Outlook” do FMI:

“Os caminhos divergentes de recuperação provavelmente criarão lacunas significativamente maiores nos padrões de vida entre os países em desenvolvimento e outros, em comparação com as expectativas pré-pandêmicas. Perdas de renda per capita cumulativas ao longo de 2020-22, em comparação com as projeções pré-pandemia, são equivalentes a 20% do PIB per capita de 2019 nos mercados emergentes e economias em desenvolvimento (excluindo a China), enquanto nas economias avançadas as perdas devem ser relativamente menores, em 11%” (ênfase adicionada).

Mas a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, ofereceu algumas palavras para suavizar a ocasião: “Leon Tolstói, em Ana Karenina, capta muito bem onde está hoje a economia mundial: toda a variedade da vida é feita de luz e sombra”. O uso que ela dá às palavras de Tolstói quase torna a previsão do FMI um bonito poema. A economia mundial é como o reflexo da luz do Sol no solo de uma floresta. Para alguém que se encontra sob um Sol escaldante, as “sombras” servem apenas para destacar a “variedade da vida” em todo o seu esplendor.

Mas essas “sombras” são mensuráveis em indicadores de miséria humana. Em janeiro deste ano, o Banco Mundial informou que outros cinco milhões de pessoas em todo o mundo entraram no nicho da pobreza extrema como resultado da Covid-19. No Brasil, 117 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar – contra 85 milhões há um ano. Cerca de 31 milhões de pessoas na África Ocidental e Central podem não ter alimentos suficientes para comer este ano – um terço a mais do que há um ano. Em março deste ano, a migração da Guatemala aumentou 70%, enquanto homens, mulheres e crianças fugiam da fome e da pobreza. Estas são algumas das vítimas que vivem na “sombra” da recuperação.

Uma recuperação baseada em quê?

Os países ricos esperam que o lançamento da vacina leve à liberação de uma certa “demanda reprimida”. É certo que haja, nos países mais ricos, uma camada que, agora, está de posse de economias que não puderam gastar durante o bloqueio. Esta, no entanto, está longe de ser a situação enfrentada pela maioria dos trabalhadores e jovens. Quando ouvirem os capitalistas celebrando o retorno dos “bons tempos”, exigirão sua parte justa – após uma década de austeridade e o sofrimento da pandemia. Esta é uma receita pronta e acabada para a luta industrial.

Para as chamadas nações “emergentes” e “de baixa renda”, o horror da pandemia não terá fim. As nações ricas estão acumulando centenas de milhões de doses de vacina não utilizadas, permitindo que o vírus circule livremente no restante do mundo, onde causa contínuas cenas de devastação. Quanto tempo teremos pela frente até que as nações imperialistas sejam mordidas novamente por uma nova variante graças à política de suas classes dominantes?

Mesmo nas nações mais ricas, a recuperação só foi possível porque o Estado interveio com maciços subsídios protetores, algo que não era possível na mesma escala nos países mais pobres. Mas essas medidas, por sua vez, podem levar a disputas olho-por-olho, dente-por-dente que podem alimentar novas guerras comerciais e uma nova espiral descendente do comércio mundial.

Além disso, os gastos nesses níveis não podem continuar indefinidamente. Foram gastos US$ 16 trilhões em todo o mundo em pacotes de estímulo. O déficit fiscal das economias avançadas mais do que quadruplicou no último ano, para 11,7% do PIB. Isso terá que ser pago com juros. Mais cedo ou mais tarde, isso significará uma austeridade renovada, cortes e ataques à classe trabalhadora.

Organismos como o Banco Mundial e o FMI estão insistindo para que os governos adiem o dia do juízo final o máximo possível por medo da agitação social e da revolução. Da mesma forma, nas economias “emergentes”, o déficit mais do que duplicou, principalmente como resultado da desaceleração econômica. Isso significa que os trabalhadores dos países mais pobres, uma vez que, eventualmente, se recuperem da brutalidade da pandemia, terão que lidar com uma intensificação de longo prazo da austeridade e da exploração.

Mas o infortúnio das nações mais pobres é uma oportunidade para os ricos obterem lucros ainda maiores. A hipocrisia das potências imperialistas realmente não conhece limites. Tendo pisoteado as nações mais pobres na luta para proteger seus mercados, para patentear a tecnologia de vacinas, para acumular doses de vacinas, EPIs, equipamentos médicos etc. – eles agora estão se apresentando como salvadores dos pobres!

O nacionalismo da vacina é complementado pela diplomacia da vacina. E, como sabemos, se você é uma nação pobre lutando por dinheiro, o FMI e o Banco Mundial sempre podem ajudá-lo… por um preço. De acordo com a Oxfam, dos 91 empréstimos concedidos pelo FMI durante a pandemia, 76 incentivaram ou exigiram medidas de austeridade. Isso incluiu cortes do setor público e congelamento de salários, cortes em subsídios aos combustíveis e serviços de saúde, bem como a introdução de impostos mais altos sobre itens de primeira necessidade, como alimentos e roupas. Portanto, embora o FMI e o Banco Mundial estejam encorajando as nações ricas a “gastar, gastar, e gastar” para evitar a revolução e manter o boom, eles ainda exigem sua libra de carne das nações pobres que devem “cortar, cortar e cortar”.

Toda a variedade da vida é realmente feita de luz e sombra.

A disparidade entre ricos e pobres sob o capitalismo não deveria surpreender. Os ricos são ricos porque os pobres são pobres. Os ricos das nações imperialistas são ricos porque se alimentam, como parasitas, da riqueza das nações “pobres”.

A polarização de classes que o capitalismo mundial está criando será a queda da classe capitalista. A próxima era será de tumultuada luta de classes. Nas palavras de Leon Tolstói:

O ódio e o desprezo do povo oprimido estão aumentando, e a força física e moral das classes mais ricas está diminuindo: o engano que sustenta tudo isso está se esgotando, e as classes ricas não têm mais nada com que consolar-se”.