Áustria: terror em meio a uma crescente crise humanitária

Na segunda-feira (2/11), às 20h, homens armados com rifles de assalto abriram fogo nas ruas de Viena, na Áustria. Até o momento, há relatos de quatro mortos e 15 feridos, dos quais sete estão em estado crítico. A partir de Seitenstettengasse1, os agressores realizaram tiroteios em seis locais diferentes no centro da cidade. Além das vítimas civis, um dos agressores foi baleado por forças policiais. Um número desconhecido de outros terroristas, por enquanto, conseguiu escapar pela cidade. Este é o primeiro grande ataque terrorista na Áustria em 45 anos.


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No momento em que este informe foi escrito, as sirenes da polícia eram ouvidas constantemente nas ruas da cidade. A mídia está convocando as pessoas para ficarem em casa ou onde se encontrem. Enquanto isso, o chanceler Sebastian Kurz falou ao público pela segunda vez em 52 horas. Desta vez, informou-nos que: “Nós, a República e, em particular, Viena, vivemos tempos difíceis, com uma (ameaça) terrorista em curso … Graças às forças de segurança, a polícia conseguiu eliminar um terrorista. Muito obrigado aos serviços de emergência, à polícia, aos bombeiros e ao serviço de ambulâncias. Estamos com os familiares das vítimas. Nossos parceiros internacionais estão conosco. No momento, temos uma situação em que um ataque islâmico está ocorrendo” (esta e todas as outras citações são transcrição do próprio autor). Estas foram palavras genéricas típicas de um homem que notoriamente se autopromove e que é cada vez mais impopular.

Apontar para o Islã era um privilégio obviamente reservado ao Sr. Kurz. Numa segunda entrevista para a TV, alguns minutos depois, fomos informados de que:

“A reunião parlamentar de amanhã foi obviamente cancelada. O que acontecerá amanhã depende do que acontecerá esta noite. A segurança pública é assumida pelas forças armadas; a tarefa da polícia é capturar ou eliminar os terroristas. As pessoas deveriam ficar em casa. Se você pode sair amanhã será decidido esta noite. É uma situação de segurança muito tensa. Vários dos autores, que são profissionais, estão soltos. Estou informando a todos direto da equipe de gerenciamento da crise. Também estamos em boa comunicação com o prefeito vienense. Uma razão antissemita por trás dos eventos não pode ser descartada. Existem vários suspeitos, o perigo ainda não foi completamente evitado. Não é possível voltar à vida normal. Quando o perigo passar, vocês podem voltar para suas casas. A situação está sobretudo relacionada com o centro da cidade. Sigam as instruções das autoridades”.

Antes desta declaração, o presidente austríaco, o liberal Alexander Van der Bellen, apelou no Twitter para que os austríacos “defendam a liberdade por todos os meios”. A líder da oposição liberal Beate Meinl-Reisinger falou de um “ataque a uma sociedade aberta“, e a líder social-democrata Pamela Rendi-Wagner disse que “obviamente a sessão parlamentar de amanhã tem de ser cancelada” (trata-se de uma sessão especial convocada pelos social-democratas para denunciar os planos do governo de atacar os direitos de pensão dos trabalhadores que trabalharam ininterruptamente durante 45 anos). Enquanto isso, o ministro do Interior usa os holofotes para promover a unidade nacional: “Deve ficar claro. Quem ataca um de nós, ataca a todos”.

Os agressores de hoje, sejam eles quais forem, são o puro exemplo da barbárie. Não está totalmente claro quem e quais eram seu alvos imediatos. Na área onde ocorreu o ataque fica a “Associação Cultural Israelense”, uma sinagoga e o prédio administrativo da comunidade judaica da cidade, mas também é uma rua cheia de cafés e restaurantes. Esses cafés estavam lotados nessa noite, pois era uma noite quente e a última noite antes do bloqueio da Covid-19, que havia sido programado – no penúltimo discurso do chanceler no sábado – para começar na manhã de terça-feira.

Enquanto isso, esse governo e a classe que ele representa estiveram em guerra com o povo a partir de outro ângulo. Ao mesmo tempo em que esses eventos bárbaros estavam ocorrendo, o fracasso total da abordagem laissez-faire do governo em relação à pandemia estava alcançando o país. O número de infectados na Áustria está disparando e estava entre as taxas mais altas do mundo na semana passada. Este é o resultado da política de “responsabilidade individual”, que fez com que o governo não aproveitasse o verão para tomar medidas sérias para enfrentar a pandemia. A falta de qualquer forma de rastreamento de contato significava que o vírus poderia se espalhar sem ser detectado e agora está surgindo em todos os lugares. Não houve contratação de mais pessoal sanitário, enfermeiras ou professores. O transporte público está lotado e nenhuma providência foi tomada nas fábricas. Dentro de alguns dias, a capacidade dos hospitais terá sido atingida e, mais alguns dias, os hospitais podem ter que começar a rejeitar o tratamento de certos pacientes por falta de capacidade.

Um raro vislumbre da situação real no setor público foi exibido no circo da mídia global reacionária em torno do ataque terrorista quando um sindicalista do serviço público de ambulâncias vienense, claramente em estado de choque, disse ao vivo na TV: “Chamo a todos os meus colegas para que se apresentem ao serviço e liguem para os seus centros de trabalho. Fui politicamente inspirado pelo prefeito Zilk (o prefeito de Viena entre 1984-1994), que disse: ‘Garanto a cada vienense uma ambulância e uma cama de hospital’. Mas agora temos a Covid-19 e inclusive este ataque terrorista, e esta cidade cresceu, mas não o número de ambulâncias”. A seguir a este aparecimento na TV, a emissora teve de apresentar apressadamente outro responsável garantindo ao público, com fartura de fatos e números, que não faltam ambulâncias.

Ao mesmo tempo, vemos um aumento imenso da taxa de exploração dos trabalhadores em todos os setores. Como expressaram as Associações dos Industriais: “A pandemia mostra as reservas de produtividade que temos: 54% da força de trabalho é capaz de produzir a 80% da capacidade”. Os enfermeiros são obrigados a trabalhar mesmo que tenham resultado positivo no teste de Covid-19, os professores têm que dar suas aulas e os trabalhadores de fábrica se veem pressionados em meio a uma onda permanente de demissões em massa.

A classe dominante tira partido da barbárie

Portanto, este ataque atende prontamente ao propósito de desviar a atenção dos ataques da classe dominante e, ao invés disso, dividir a classe trabalhadora por meio do acirramento do racismo e do medo ao “inimigo externo”. É claro que a burguesia aproveitará ao máximo esse ataque bárbaro para canalizar a raiva pública e os sentimentos de insegurança para seus próprios fins.

Mas rejeitamos todas as lágrimas de crocodilo dos representantes deste sistema capitalista podre. Somos informados de que muitos líderes mundiais enviaram suas condolências. Mas Boris Johnson não fala pelos trabalhadores britânicos; nem o belicista Emmanuel Macron fala pelo povo francês quando oferece uma relação especial com o governo austríaco. Não devemos esquecer as políticas de nosso próprio governo e suas posições desumanas. O chanceler Kurz defendeu abertamente a necessidade de os imigrantes morrerem no Mediterrâneo. Ele enviou a polícia especial austríaca à Grécia para deter imigrantes desesperados que chegavam pelo mar. O terror insano e atroz em nossas cidades é um preço que nós, as pessoas comuns, temos que pagar pelas guerras e humilhações constantes infligidas e organizadas pela classe dominante.

É o capitalismo que cultiva o câncer do terrorismo e da barbárie. Mesmo assim, somos constantemente informados de que o verdadeiro problema da sociedade são os migrantes, os pobres e os oprimidos. Mas a realidade não pode ser eliminada com o racismo reacionário. O que este evento revela é a crise global do capitalismo e a instabilidade resultante refletida na Áustria. Em última análise, as implicações desse processo são revolucionárias. Diante de todas as formas de barbárie capitalista, erguemos a bandeira da revolução, da unidade de classes e da luta pelo socialismo.


Notas:

1 Seitenstettengasse Temple, a principal sinagoga de Viena, Áustria.