A ofensiva ucraniana: avaliação preliminar

Os relatos parciais e confusos de confrontos no front do Donbass apontam para o início da tão anunciada contraofensiva ucraniana. Com base em informações incompletas, é impossível fazer um prognóstico definitivo. As linhas seguintes, portanto, têm um caráter totalmente condicional.

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Enfatizo o fato de que elas representam minhas próprias opiniões, pois não pude comparar anotações com outros camaradas e ficarei sem comunicação por um tempo.

Segundo a vice-ministra da Defesa ucraniana, Hanna Mailar, uma ofensiva ucraniana está “ocorrendo em várias direções”. Essas declarações alimentam as especulações de que podemos estar testemunhando o início de uma campanha de Kiev para recuperar o território ocupado pela Rússia.

“Não se trata apenas de Bakhmut. A ofensiva está ocorrendo em várias direções. Estamos felizes com cada metro conquistado. Hoje é um dia de êxito para nossas forças”, disse ela.

Nas últimas semanas, o exército ucraniano intensificou seus ataques a depósitos de combustível e de armas russos – o tipo de ataque que geralmente precede grandes ofensivas terrestres. Kiev, no entanto, enfatizou que não anunciaria quando qualquer contraofensiva iria começar.

Devido aos intensos esforços de ucranianos e russos para manipular a opinião pública e enganar seus adversários em relação às suas estratégias militares, devemos receber os informes de ambos os lados com uma pitada de cautela. Porém, apesar disso, é possível analisar cuidadosamente as informações disponíveis e reunir material suficiente para formar uma avaliação básica.

Os comentários de Mailar antes mencionados foram produzidos depois de alegações do Ministério da Defesa da Rússia de que havia resistido a um ataque em “grande escala” da Ucrânia na região oriental do Donetsk. Em seu comunicado, os militares russos afirmaram ter matado 250 ucranianos e destruído vários veículos blindados utilizados no ataque, embora não tenham fornecido mais detalhes.

É impossível verificar de forma independente a afirmação, mas se for verdade, indicaria que o lado ucraniano está envolvido em operações de sondagem, destinadas a testar a resistividade das forças russas em certos pontos ao longo de uma linha de defesa que se estende por mais de mil milhas.

Isso é algo que temos que ter em mente de forma constante nas próximas semanas. Em maior grau do que qualquer outra, esta guerra está sendo travada no campo da propaganda. Pode-se prever de antemão que qualquer avanço dos ucranianos – mesmo a conquista de uma aldeia insignificante – será acompanhado por uma explosão ensurdecedora de propaganda triunfalista. Mas não devemos nos deixar enganar por esse barulho e, em vez disso, devemos manter nossa atenção fixa no equilíbrio fundamental de forças e nas realidades do campo de batalha, que geralmente têm pouca ou nenhuma relação com as “batalhas” que se perdem ou se ganham no campo de batalha da chamada guerra de informação.

Se fizermos um esforço para ignorar os exageros e considerar os fatos, ficará imediatamente evidente que os ucranianos não estão em uma situação favorável. Pelo contrário. O Ministério da Defesa ucraniano não divulga números de mortes, mas as perdas de ambos os lados foram muito grandes. A diferença é que a Rússia é um país muito maior que a Ucrânia e consegue repor suas perdas com mais facilidade.

A verdadeira ofensiva, quando vier, pode não estar sequer perto da área descrita nos relatórios iniciais. Os ucranianos vão testar vários pontos antes de lançar um ataque sério. Eles precisam prestar muita atenção a isso, porque seus suprimentos de soldados e armamentos são estritamente limitados e perdas severas os prejudicariam fatalmente.

O crescente desespero de Zelensky

Na sangrenta batalha por Bakhmut, a Ucrânia perdeu um grande número de soldados experientes, enquanto as perdas russas parecem ter sido confinadas principalmente ao Grupo Wagner, que participou da maior parte dos combates e que sequer faz parte do exército russo. As principais forças russas estão intactas e entrincheiradas atrás de uma linha de defesa fortemente reforçada.

Lembremo-nos da afirmação de Napoleão de que a defesa tem uma vantagem sobre o ataque de três para um. Os russos tiveram muito tempo para se preparar para uma contraofensiva ucraniana. Apesar das alegações absurdas do Ocidente, eles não têm falta de munição. Ao contrário da Ucrânia, a Rússia tem uma poderosa indústria bélica, que trabalha horas extras, produzindo armas, munições e mísseis.

Em contraste, os ucranianos são totalmente dependentes dos suprimentos do Ocidente e estão constantemente reclamando que lhes falta quase tudo. Nos últimos meses, Zelensky mostrou sinais crescentes de desespero. Suas constantes viagens ao exterior visavam garantir que não houvesse redução no fornecimento de armas. Nisso, teve êxito – pelo menos no curto prazo.

No entanto, o futuro é incerto. Em público, os EUA e a OTAN continuam a proclamar que estão unidos e continuarão a apoiar a Ucrânia “pelo tempo que for necessário”. Mas, em particular, as coisas são muito diferentes. Há evidências muito claras de que o apetite por essa guerra no Ocidente está diminuindo. A inflação, diretamente ligada à guerra, está atingindo o Ocidente, enquanto as sanções contra a Rússia, embora tenham causado algum dano, não tiveram um efeito comparável e, em absoluto, nenhum efeito sobre a máquina de guerra russa.

Nos bastidores, os líderes ocidentais estão pressionando os ucranianos para iniciar negociações com a Rússia. Mas isso seria o beijo da morte para Zelensky. Significaria inevitavelmente uma perda de território, o que, dizem eles, está fora de questão. Portanto, por enquanto, as questões devem ser resolvidas no campo de batalha. Mas Zelensky sabe que mais cedo ou mais tarde terá que negociar.

A verdadeira intenção da ofensiva é ganhar um pouco mais de território, para que a Ucrânia possa entrar nas negociações de paz com uma mão mais forte. Mas essa é uma aposta muito arriscada, cujas consequências podem ser desastrosas para a Ucrânia.

A outra razão, mais premente, para a ofensiva é uma tentativa desesperada de provar aos apoiadores ocidentais de Zelensky que todos os bilhões que eles despejaram no esforço de guerra ucraniano não foram em vão, que a Ucrânia ainda pode lutar – e vencer.

É claro que Zelensky mobilizou todos os nervos e músculos para reunir todas as forças que restam para esta ofensiva. Ele chamou de volta todos os soldados que enviou para os EUA, Grã-Bretanha e outros lugares para fins de treinamento – quer esse treinamento tenha sido concluído ou não.

Desde o início da guerra, a Ucrânia perdeu um grande número de suas tropas endurecidas pela batalha. Estes estão sendo substituídos por recrutas inexperientes que estão sendo lançados em um conflito sangrento para o qual não estão preparados. As perdas foram horríveis, mas não são nada comparadas com o que está sendo preparado. É verdade que muitos são corajosos e estão dispostos a sacrificar a vida. Mas entusiasmo e coragem não são suficientes para vencer guerras. E recrutas inexperientes não substituem veteranos em qualquer guerra.

Qual será o resultado? Como sempre, é preciso ser muito condicional. A sangrenta equação da guerra tem tantas variáveis que raramente é possível uma previsão precisa. Fatores como moral, qualidade dos oficiais em todos os níveis, questões logísticas – até mesmo o clima – desempenham um papel importante. No entanto, é possível fazer um prognóstico muito provisório, que poderá ser modificado, corrigido ou, se necessário, totalmente rejeitado. Os eventos é que decidirão.

A luta real ainda está por começar

A situação atual lembra os estágios iniciais de uma luta de boxe, onde os dois antagonistas estão circulando entre si, trocando socos para tentar ter uma ideia clara dos pontos fortes e fracos do adversário. Podemos descartar incidentes menores com segurança, como os ataques isolados de drones em Moscou ou a aventura de Belgorod. Foram meras alfinetadas, encenadas para fins de propaganda ou como distração, que não terão qualquer efeito no curso da guerra.

O ataque mais recente foi um assunto muito mais sério, mas, como eu disse, foi apenas um ataque de sondagem e ainda não uma ofensiva completa. Podemos esperar vários outros ataques antes que a ofensiva principal se desenvolva. Seu caráter e localização exatos só serão conhecidos depois de ocorrido.

Os ucranianos possuem força suficiente para infligir derrotas aos russos? Sem dúvida. Tendo reunido todas as forças disponíveis, os ucranianos podem inicialmente varrer tudo à sua frente – embora a um custo muito alto em vidas.

Mais uma vez, fala-se em retomar Bakhmut (Prigozhin já está protestando contra a perda de uma pequena aldeia próxima, que seus homens capturaram e entregaram ao exército russo). Isso é bem possível e será saudado como uma vitória importante. Mas não será nada disso.

A importância estratégica de Bakhmut é francamente insignificante, e foi muito tolo da parte de Zelensky construí-la para fins de propaganda. Convinha aos russos manter aquele inferno queimando porque agia como um moedor de carne para matar combatentes ucranianos, enquanto quase todos os combatentes do lado russo eram da unidade de Wagner, que sofreu a maioria das baixas.

Prevejo que os russos em geral tenderão a recuar diante do avanço ucraniano. Podemos esperar um verdadeiro carnaval de alegria na mídia ocidental. Mas eles devem esperar um pouco antes de convocar desfiles de vitória. Longe do fim da guerra, a verdadeira batalha ainda não terá começado.

Os russos tiveram muito tempo para construir uma linha de defesa fortemente reforçada. A área ante ela constituirá um campo de matança terrível, onde as tropas que se aproximarem ficarão sob uma barragem de fogo. É aqui que as batalhas decisivas acontecerão. E, na minha opinião, é aqui que as forças ucranianas verão interrompido seu avanço.

É neste ponto que a guerra será decidida, de uma forma ou de outra. Os russos montaram uma força gigantesca, que pode aproveitar o momento para passar à ofensiva. Seu êxito parece mais provável, mas, como sempre em uma guerra, nada está assegurado.

Desde o início desta guerra, houve muitas surpresas. Por um lado, os ucranianos demonstraram uma enorme resiliência e coragem, o que ninguém pode negar. E o moral sempre desempenha um papel muito importante na guerra. No entanto, como afirmamos, o moral por si só nunca é suficiente para garantir a vitória. E não está nada claro se o moral de civis e militares poderia sobreviver a uma série de reveses no campo de batalha.

O lado russo, como vimos, tem muitas vantagens sobre os ucranianos. Nos tempos soviéticos, essas vantagens teriam sido mais do que suficientes para garantir a vitória. Mas a Rússia atual não é a União Soviética. O regime de Putin é reacionário e corrupto até o âmago. É uma criação de uma oligarquia capitalista, assim como o próprio regime de Zelensky.

Em qualquer sociedade, o exército é a imagem espelhada do regime. As falhas marcantes do exército russo nos estágios iniciais desse conflito não foram acidentais. A hesitação, as falhas e outros defeitos contribuíram para o fracasso. É verdade que o exército russo aprendeu muitas lições. Mas não se pode excluir que novos erros possam ser cometidos. O moral dos soldados russos que travam uma guerra contra irmãos eslavos também não pode ser subestimado.

Por todas essas razões, será necessário acompanhar o andamento da guerra com a maior atenção. Nem é preciso dizer que os marxistas não podem apoiar nenhum dos lados. É uma escolha entre duas oligarquias igualmente reacionárias, sendo que por trás de uma delas se destaca o imperialismo ocidental. Nem a vitória de um nem a do outro significará algo de progressista para a classe trabalhadora.

Nossa tarefa é acompanhar o progresso da guerra conforme ela se desenrola, oferecer uma análise clara e extrair as lições necessárias para educar os trabalhadores avançados e a juventude em um espírito internacionalista revolucionário intransigente.

Nosso slogan é o de Spinoza, que Trotsky frequentemente citava: “Nem chorar, nem rir, mas entender”.

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