A Alemanha já não é o baluarte de estabilidade da Europa

A Alemanha, outrora aclamada como o bastião da estabilidade europeia, está a entrar num período de profunda agitação. A era do crescimento económico e da paz social está a chegar ao fim. A Alemanha está a atravessar uma crise intensa e todos os pilares do seu antigo “modelo de sucesso” estão a ruir, provocando divisões profundas na classe dirigente e um fermento entre as massas.

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A crise global do capitalismo está a atingir a Alemanha em particular, deixando a classe dominante alemã num dilema indissolúvel. Fundamentalmente, a economia alemã é inteiramente dependente dos mercados dos EUA e da China, e depende do comércio mundial para manter o seu acesso a matérias-primas baratas. No entanto, como já noticiámos anteriormente, a atual rivalidade entre estes gigantes imperialistas está a ameaçar a segurança económica da UE em geral e da Alemanha em particular.

Este facto traduziu-se num mal-estar palpável entre a classe dirigente quanto ao futuro do capitalismo alemão. Desde antes da pandemia da COVID-19 que a Alemanha tem registado uma saída maciça de capitais. À medida que as fissuras nas relações globais continuam a aprofundar-se, cada vez mais galinhas abandonam o galinheiro. No ano passado, a Alemanha sofreu a maior saída de capitais da sua História, registando um colapso do investimento europeu no país. Cerca de 70% do investimento alemão foi para outros países europeus

Para além disso, o investimento privado é também extremamente baixo em termos absolutos. Durante décadas, a classe dirigente investiu apenas cerca de 20% dos lucros líquidos em novas indústrias. A produtividade do trabalho por trabalhador só aumentou 0,3% ao ano na última década, apesar da contínua intensificação da exploração da classe trabalhadora.

Esta situação ameaça com o declínio do sector privado na Alemanha. O sector público do país não está a sair-se muito melhor. As políticas de austeridade e privatização das últimas décadas paralisaram os serviços públicos da Alemanha. A classe dirigente apoia-se sobretudo nas infraestruturas do passado, mas as escolas, as universidades, os caminhos-de-ferro, os hospitais, etc., estão a degradar-se rapidamente.

Nos últimos tempos, a economia alemã – outrora a potência da Europa – tem sido atingida por uma tempestade perfeita de crises: escassez de mão de obra em todos os sectores da economia; custos elevados da energia, que exercem uma pressão crescente sobre a indústria e as pequenas empresas; insolvências cada vez maiores e diminuição das exportações de mercadorias para países fora da UE.

Esta é uma receita para o desastre em todos os sectores. Certos sectores, como a indústria automóvel alemã (outrora a inveja do mundo), já sofreram uma grave quebra de produção, sem que se vislumbre qualquer alívio. A classe dirigente alemã não conseguirá sair desta crise, como aconteceu depois da crise de 2008.

Ao mesmo tempo, a inflação mantém-se teimosamente elevada. O preço do pão aumentou 19,2%, o dos lacticínios e dos ovos 21,6% e o dos legumes 21,7%. Esta é apenas a ponta do icebergue.

Austeridade e polarização

Com o custo de vida a tornar-se cada vez mais insustentável para as massas, a polarização de classes está a crescer enormemente. Já em 2021, mais de 14 milhões de pessoas na Alemanha foram consideradas “em risco de pobreza”. Após dois anos de inflação e turbulência económica, este número aumentou certamente de forma significativa.

A classe dirigente alemã apela agora a uma “Agenda 2030”, que faz lembrar o programa de contrarreformas laborais e sociais da “Agenda 2010”. Sob o lema da “flexibilização”, pretendem aumentar a semana de trabalho e aumentar a idade da reforma para 70 anos, depois de já a terem aumentado.

Enquanto o governo procura espremer a classe trabalhadora mais do que nunca, os patrões clamam por todo o tipo de subsídios para garantir os seus lucros. O Governo teve de recorrer aos chamados “orçamentos-sombra”, que lhe permitem pedir dinheiro emprestado para subsidiar os lucros das empresas, sem ultrapassar o limite constitucional alemão de empréstimos estatais.

A dívida pública oficial da Alemanha, que ascende atualmente a 2,4 biliões de euros, não tem em conta os 869 mil milhões de euros adicionais contraídos através de orçamentos paralelos.

Para além do “fundo especial” de 100 mil milhões de euros, anunciado no ano passado para melhorar as forças armadas alemãs, o Governo contraiu uma dívida especial de 200 mil milhões de euros para pagar um limite máximo para os preços da energia. Além disso, está previsto um “preço da eletricidade industrial”, que irá subsidiar ainda mais a indústria energética. No fundo, trata-se de uma política de protecionismo do Governo alemão, que acumula dívidas para encher os bolsos dos capitalistas.

Os orçamentos governamentais para este ano – e os orçamentos planeados para o próximo ano – são orçamentos de austeridade, que serão impostos à classe trabalhadora no meio de uma recessão. Este facto será, com razão, visto como uma grande provocação pelas massas, que são obrigadas a sofrer cortes insuportáveis, enquanto o grande capital engorda os bolsos com o dinheiro do Estado.

Crise de confiança

Confrontados com uma economia fraca e um governo incapaz e sem vontade de resolver os problemas da classe trabalhadora, os governantes estão a sofrer uma profunda crise de confiança.

As massas populares não confiam em nenhum ministro do governo federal, incluindo o chanceler. De acordo com as sondagens de opinião, não mais de 20% das pessoas estão satisfeitas com qualquer ministro atual. De um modo geral, todos os partidos políticos registam índices de popularidade muito baixos. Segundo sondagens recentes, o grau de satisfação com o Governo é de apenas 27%, após uma queda constante da popularidade ao longo do ano.

Os três partidos da coligação governamental viram a sua popularidade cair a pique nos últimos tempos. O apoio ao Partido dos Verdes caiu de quase 25% nas sondagens no ano passado para 15%. Recentemente, obteve o seu pior resultado em 20 anos nas eleições estaduais de Bremen. O Partido Social-Democrata também caiu de quase 26% de popularidade na altura das eleições de 2021 para apenas 17% atualmente. Por último, a popularidade do liberal FDP caiu quase para metade desde 2021, atingindo uns escassos 7% nas últimas sondagens.

Nas últimas semanas, o apoio ao chanceler Olaf Scholz diminuiu drasticamente. De acordo com as sondagens realizadas no final de agosto, dois terços dos alemães estão insatisfeitos com o seu mandato e apenas 18% afirmaram que votariam nele para chanceler se pudessem escolher novamente.

O único partido que está atualmente a ganhar um apoio significativo é a Alternativa para a Alemanha (AfD), de direita, que é agora o segundo partido mais forte. O crescimento do apoio do AfD deve-se menos ao seu programa político e mais às suas credenciais “antissistema”. É também um dos únicos partidos que não esteve no governo nos últimos anos, o que significa que, ao contrário dos partidos tradicionais do capitalismo alemão, ainda não foi testado no poder.

Há uma disputa entre os governantes sobre a forma de lidar com o AfD. No seio da CDU conservadora, levantam-se cada vez mais vozes que apelam à cooperação com o AfD a nível local. No entanto, esta atitude causa medo às camadas “sensíveis” da classe dominante, que preferem evitar o AfD, abertamente reacionário.

Se o AfD conseguir manter o seu atual apoio, tornar-se-á provavelmente a força mais influente nas eleições estatais do próximo ano. Isto só irá exacerbar as tensões no seio da classe dominante. O medo da influência do AfD já é a força motriz por detrás da crescente ênfase na “guerra cultural” e no “mal menor”. Estas distracções divisórias da política de classe continuarão a ser impulsionadas pela classe dominante nos próximos tempos.

A luta de classes no horizonte

O Die Linke (Partido da Esquerda) não oferece uma verdadeira alternativa. Em vez de apresentar uma resposta socialista à crise social e económica, o partido está atolado em divisões a todos os níveis, que ameaçam destruí-lo. O partido encontra-se numa situação que pode tornar-se a sua crise final. O seu aparelho está a desintegrar-se e quase não restam membros ativos ao nível das bases.

Assim, enquanto a crescente polarização à direita encontra a sua expressão no AfD, a esquerda está bloqueada politicamente pela degeneração do Die Linke. Isto cria a ilusão de que há uma mudança de consciência para a direita, mas é puramente superficial.

A tendência é para uma radicalização da consciência para a esquerda, expressa em duras lutas de negociação coletiva. Em Hamburgo, 2.000 trabalhadores dos transportes paralisaram a cidade no início deste ano. Embora a sua luta tenha acabado por ser vendida pela direção, os trabalhadores pressionaram o seu sindicato a intensificar a luta contra os patrões. No sector público, houve uma luta inspiradora pela negociação coletiva no início deste ano, com 100.000 trabalhadores – incluindo muitos jovens – a aderirem ao sindicato. Isto levou à chamada “megagreve” em março.

Em última análise, esta greve foi apenas “mega” em palavras, uma vez que a burocracia sindical dividiu vergonhosamente a luta e minou o seu verdadeiro potencial. Mas uma nova camada de jovens trabalhadores na Alemanha está a procurar uma forma de lutar pelos seus interesses e a pôr cada vez mais os sindicatos à prova.

A redução do tempo de trabalho será uma questão crucial nos próximos tempos, uma vez que a exigência de uma semana de quatro dias, sem perda de salário, é muito popular entre a classe trabalhadora alemã. Na indústria siderúrgica, os sindicatos já estão a exigir uma semana de quatro dias. Isto é apenas o início e a exigência será satisfeita em cada vez mais sectores da economia.

18% dos trabalhadores na Alemanha já se estão a “demitir discretamente”[1]. Outros 69% dos trabalhadores dizem que se recusam a fazer qualquer coisa fora do âmbito do seu trabalho. Quarenta e cinco por cento dizem que trocariam de emprego por uma semana de quatro dias. Estes números são reveladores de um profundo descontentamento que, mais cedo ou mais tarde, encontrará expressão nos sindicatos.

Grandes camadas da sociedade alemã estão desiludidas com o sistema capitalista. O marxismo, o socialismo e o comunismo estão a tornar-se cada vez mais populares entre os jovens. Já estamos a ver os primeiros sinais das lutas monumentais que estão para vir. Na ausência de uma saída política para esta agitação de classe, está a formar-se na Alemanha uma enorme explosão social que irá abalar os alicerces do capitalismo na Europa e a nível internacional.