Protestos em meio ao aumento da repressão estatal na Tunísia

Em 6 de fevereiro, milhares de manifestantes saíram às ruas de Túnis, capital da Tunísia, cantando “o povo quer a queda do regime” contra o partido islâmico Ennahdha, que faz parte da coalizão governamental. A polícia de choque já havia mobilizado cordões de segurança ao redor do centro da capital, impedindo que carros e pessoas entrassem nas ruas ao redor da Avenida Habib Bourguiba, onde ocorreu a manifestação. Apesar desses esforços, o protesto foi um dos maiores dos últimos anos.


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O protesto ocorreu em desafio ao bloqueio que o governo impôs no mês anterior na tentativa de impedir a erupção de um movimento geral em comemoração à revolução de 2011. Ironicamente, essa manobra, por si mesma, mostrou-se um fator contribuinte para o surgimento de um novo movimento. Durante as últimas três semanas, a Tunísia foi abalada por um poderoso movimento de protesto, principalmente constituído por jovens, que exigem mudanças econômicas e políticas, e o fim da brutalidade policial.

A manifestação de 6 de fevereiro foi, ao contrário dos protestos anteriores, convocada pelo grande sindicato UGTT para marcar o aniversário do assassinato do ativista de esquerda Chokri Belaid, morto em 2013. Os manifestantes aproveitaram a oportunidade para mostrar sua raiva contra as condições econômicas miseráveis, uma elite política corrupta e o uso da violência policial contra milhares de pessoas presas durante as últimas três semanas de protestos.

Repressão policial

Em 19 de janeiro, surgiu um poderoso movimento da juventude que rapidamente se espalhou por toda a Tunísia, quase exatamente 10 anos após a revolução de 2011 que derrubou o déspota Ben Ali. Os jovens foram forçados a agir, já que a crise econômica corroeu os padrões de vida e condenou 36% dos jovens ao desemprego. A classe dominante tunisiana e seus representantes políticos responderam às demandas dos manifestantes com força brutal.

Os militares foram enviados para patrulhar as ruas de bairros da classe trabalhadora; e a França, o antigo senhor colonial, ajudou o governo tunisiano enviando 60 caminhões da polícia para conter os protestos. Não é a única vez na história recente que a França mostrou um interesse ativo na supressão das massas de sua ex-colônia. Durante a revolução de 2011, Michèle Alliot-Marie, então Ministra das Relações Exteriores, ofereceu ajuda da França a Ben Ali para reprimir a revolta na Tunísia. Com o apoio do imperialismo ocidental, o Estado tunisiano desencadeou a brutalidade da polícia.

Durante as mais de três semanas de protestos, mais de 1.680 manifestantes foram presos, 600 deles menores, e, em 25 de janeiro, Haykel Rachdi, um dos manifestantes, foi morto pela tropa de choque ao ser atingido na cabeça por uma bomba de gás lacrimogêneo. Notícias de violações dos direitos dos manifestantes sob custódia da polícia, “equivalentes a tortura”, vieram à tona. Todas as chamadas potências ocidentais “democráticas” olharam para o outro lado.

No final de janeiro, parecia que o governo havia conseguido suprimir o movimento e que o impulso havia começado a ceder. A falta de uma direção revolucionária, com experiência de como fazer avançar a luta sobre uma base de classe, deixou a classe dominante com a iniciativa, e eles iniciaram uma repressão contra a juventude revolucionária tunisiana e os militantes de esquerda em geral. Por exemplo, quatro ativistas da UGET (União Geral dos Estudantes da Tunísia) foram sequestrados pela polícia em 1 de fevereiro enquanto estavam em um táxi. E, em 3 de fevereiro, Rami Riahi, um ativista comunista, foi preso devido a uma postagem no Facebook considerada ofensiva à polícia. As experiências das últimas semanas provam mais uma vez que o Estado é um órgão de governo de classe, um órgão de opressão de uma classe por outra.

Enquanto milhares de jovens revolucionários da Tunísia sentiam a brutalidade do Estado tunisiano, o governo comemorou o que considerou como uma vitória. Em 5 de fevereiro, o primeiro-ministro Hichem Mechichi se reuniu com uma delegação de um dos sindicatos da polícia e saudou “o profissionalismo demonstrado pela polícia no tratamento dos protestos recentes”. A classe dominante e seus representantes políticos não devem comemorar tão cedo. Eles podem ter vencido a batalha inicial, mas a guerra está longe de terminar.

O papel da UGTT

A manifestação de sábado foi, como os protestos que se espalharam pela Tunísia nas últimas semanas, organizada pela UGTT (União Geral do Trabalho da Tunísia), a federação sindical mais poderosa do país. A UGTT anunciou que convocou a manifestação para proteger os direitos democráticos que as massas tunisianas conquistaram na revolução de 2011. Como marxistas, concordamos que os direitos democráticos que os trabalhadores e jovens tunisianos conquistaram na revolução de 2011 devem de fato ser defendidos, pois fornecem às massas novos canais para desenvolver suas lutas contra a classe dominante tunisiana e seus apoiadores imperialistas.

No entanto, é curioso que só agora a liderança da UGTT tenha percebido, de repente, após um mês de protestos em massa e de repressão brutal do Estado, a necessidade de defender os direitos democráticos. Em janeiro, as chefias da UGTT denunciaram o movimento de protesto em andamento e culparam os jovens, não a polícia, pela violência, enfrentamentos e confrontos! A liderança da UGTT não só falhou em reconhecer as frustrações legítimas dos jovens, mas também os desacreditou. Em vez de apelar à classe trabalhadora para se juntar aos protestos em curso e ligar o poderoso movimento dos trabalhadores à energia revolucionária da juventude, a UGTT colocou-se do mesmo lado da classe dominante tunisiana e da elite política.

As ações da UGTT durante as últimas semanas indicam que a direção tem tentado deliberadamente manter separada a luta da juventude e dos trabalhadores. Em 17 de janeiro, a UGTT encenou uma greve nacional de um dia entre os trabalhadores ferroviários, rodoviários e do tráfego aéreo da Tunísia. A greve foi efetiva e colocou uma pressão considerável sobre o governo, razão pela qual deveria ter sido estendida por tempo indeterminado e, além disso, ligada ao movimento de protesto em curso. Essas ações teriam aumentado maciçamente a pressão sobre o governo e poderiam ter mudado decisivamente o equilíbrio de forças nas ruas em favor das massas.

Mas, em vez disso, os líderes da UGTT encerraram a greve e anunciaram que uma greve nacional de dois dias seria realizada um mês depois! Os trabalhadores tunisianos dos transportes ferroviários, rodoviários e aéreos entrarão em greve nos dias 20 e 21 de fevereiro (um sábado e domingo). Esta estratégia das cúpulas da UGTT não pode ser vista senão como uma tentativa de separar a luta dos trabalhadores da luta da juventude e adiá-la para um momento menos perigoso para a estabilidade geral do sistema capitalista na Tunísia. Sob a liderança atual, a UGTT não é uma força revolucionária, mas um pilar de apoio ao capitalismo tunisiano, o que é claramente ilustrado por sua participação no Quarteto de Diálogo Nacional: uma iniciativa de colaboração de classes em que a UGTT, juntamente com o instituto patronal, a Liga Tunisiana dos Direitos Humanos e a Ordem dos Advogados colaboraram para estabilizar o capitalismo tunisiano após a revolução de 2011, a fim de garantir que a revolução ficasse dentro dos limites da democracia burguesa.

Então, por que a UGTT convocou a manifestação para o sábado? Os indícios sugerem que o descontentamento com a posição da direção do sindicato estava crescendo a partir de baixo. Em 30 de janeiro, cinco ramos setoriais da UGTT publicaram uma declaração conjunta expressando seu apoio ao movimento de protesto. O topo da UGTT fez um movimento calculado. Sentiram a pressão aumentar e de forma oportunista decidiram agir para assegurar a sua posição pessoal e o apoio continuado da UGTT entre a classe trabalhadora tunisiana.

Mas não se pode confundir as motivações dos manifestantes com as da cúpula da UGTT. O impressionante número de manifestantes que compareceram ao comício de sábado, apesar do risco de serem submetidos à cruel brutalidade policial, é um testemunho da militância e da coragem das massas tunisianas, que continuam determinadas a lutar por uma vida melhor. As experiências dos últimos 10 anos (incluindo as das últimas semanas) provam a necessidade de um partido revolucionário para levar a luta das massas tunisianas a uma conclusão revolucionária.

A necessidade de uma direção revolucionária

O capitalismo tunisiano vive uma crise profunda, que se manifestou em todos os rincões do Estado e da sociedade. O impasse do sistema é claramente expresso como um declínio da fé na moral e nas idéias que legitimam o sistema, sendo a religião um dos mais importante deles. Desde a revolução de 2011, quase constantemente, o partido capitalista islâmico Ennahdha tem sido o partido do governo sozinho ou em coalizão com partidos capitalistas “seculares”. Portanto, é digno de nota que a religião esteja em declínio na Tunísia.

Em 2013, apenas 16% dos tunisianos se consideravam não religiosos. Em 2018, esse número havia crescido para 31% e, entre os jovens, o número chegava a 50%! Esse desenvolvimento reflete uma rejeição geral do sistema atual e não é difícil entender as razões. O sistema capitalista não pode oferecer às massas tunisianas nada além de padrões de vida em queda e opressão policial. Não é por acaso que um dos gritos das manifestações de janeiro foi: “Nem polícia nem islamistas, o povo quer revolução”.

A revolução de 2011 provou que os problemas do povo tunisiano só podem ser resolvidos derrubando o capitalismo. Enquanto o capitalismo permanecer, não haverá fim à vista para o sofrimento dos trabalhadores e da juventude no Norte da África e no Oriente Médio. Os trabalhadores e jovens tunisianos provaram repetidamente que estão dispostos a lutar para mudar radicalmente a sociedade e que estão prontos para assumir o seu destino em suas próprias mãos. O que eles precisam para ter êxito é de uma direção revolucionária, que possa unir as lutas da juventude e dos trabalhadores tunisianos em um programa socialista.

Enquanto não existir uma direção revolucionária, a iniciativa de liderar movimentos futuros recairá sobre os ombros das atuais direções de organizações como a UGTT, que se recusam a romper os limites do capitalismo. A lição das últimas semanas mostra que é necessário construir uma organização revolucionária com raízes na classe trabalhadora antes que exploda o próximo movimento revolucionário. A tarefa dos jovens e trabalhadores da Tunísia é, portanto, estudar as experiências da classe trabalhadora e construir uma direção marxista, capaz de liderar os movimentos revolucionários vindouros para a conquista do poder.