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Depois
da crise política e econômica dos anos 1970, a burguesia internacional, apoiando-se
nas derrotas das lutas operárias na Grã-Bretanha e nos EUA, dos processos
revolucionários em Portugal, no Estado Espanhol, Grécia, Chile, Argentina... e,
mais tarde, no colapso do estalinismo, começou uma dura ofensiva contra os
trabalhadores. Esta ofensiva, que no plano político se traduziu numa virada
pronunciada à direita das organizações operárias, no terreno econômico se
orientou em direção a um incremento substancial da valorização do capital e da
taxa de lucros depois dos reveses sofridos nos anos 1970. Os mecanismos para
obter isto foram variados. Por um lado, a privatização massiva de empresas e
serviços públicos nos países capitalistas desenvolvidos e o aumento
extraordinário da mais-valia absoluta e relativa extraída da força de trabalho,
graças à forte desregulamentação do mercado de trabalho e ao drástico descenso
dos salários. Por outro, a abertura dos mercados mundiais às mercadorias dos
países imperialistas e o colapso dos preços das matérias-primas.
Estes
fatores, junto à incorporação de quase dois bilhões de pessoas à economia
mundial depois do colapso da URSS e do restabelecimento do capitalismo na
China, agiram como um poderoso impulso à divisão internacional do trabalho e
proporcionaram a oportunidade de conseguir grandes rendimentos. A taxa média de
lucros empresariais nos EUA e na Europa passou de 12-14%, entre 1975-1982, para
valores superiores a 20% desde meados da década dos anos 1980 até a atualidade,
percentagens estas mais similares às obtidas nos anos 1960.
Não
obstante, enquanto na época dourada do capitalismo norte-americano e europeu
dos anos 1950 e 1960 a
parte fundamental da acumulação capitalista se realizava através da reinversão
de capital na produção, dando lugar ao aparecimento e desenvolvimento de novos
ramos e setores produtivos e estendendo a divisão do trabalho em escala nunca
vista na história do capitalismo, nestas duas últimas décadas a modesta
rentabilidade do investimento na produção propriamente dita provocou o
deslocamento de enormes quantidades de capital à especulação financeira.
Nestes
vinte anos, os governos de todos os países capitalistas desenvolvidos entraram
em acordo para uma profunda e acelerada liberalização dos mercados de capital,
favorecendo o crescimento exponencial da atividade nos mercados financeiros
internacionais (mercados de divisas, de obrigações, de ações e, finalmente, o
mercado dos derivados), até superar as magnitudes econômicas fundamentais que
expressam a riqueza real produzida (PIB, investimento, comércio internacional,
reservas de divisas mundiais). Como conseqüência, a brecha entre a produção
real e a especulação financeira aumentou em proporções desconhecidas (entre
90-95% da movimentação atual de capital não correspondem a operações comerciais
ou de investimento, mas a movimentos puramente especulativos) 1.
Este
domínio tão esmagador do capital financeiro, característico da etapa
imperialista do desenvolvimento capitalista, deu lugar ao que alguns
economistas denominam de passagem de finanças bancárias a finanças de mercado.
Este eufemismo serve para designar o fato de que os chamados investidores
institucionais (fundos de investimento, fundos de pensões e companhias de
seguros) concentram nestes momentos a parte de leão do capital financeiro,
superando amplamente o PIB dos países capitalistas avançados e decidindo, em
proporção cada vez mais ampla, movimentos que têm grande transcendência na
economia real (como a compra, fusão e fechamento de fábricas e empresas e a
destruição de centenas de milhares de empregos, provocadas por este tipo de
operações).
Da especulação financeira a uma possível recessão
Como
já assinalamos em outras oportunidades nestas mesmas páginas, a especulação
financeira e o endividamento privado e empresarial, que são conseqüência direta
do crescimento econômico, não é um fenômeno novo. O que realmente é novo é a
dimensão adquirida nos últimos anos, convertendo a economia da nação mais
poderosa da história, os EUA, na mais endividada do planeta.
Num
contexto de grandes lucros e excesso de liquidez, os Bancos Centrais
alimentaram a dinâmica com taxas de juros baixíssimas; desta maneira foi
induzido o endividamento massivo, a famosa alavancagem, através do qual foram
adquiridas propriedades imobiliárias e títulos bursáteis que não valiam, nem de
longe, os preços pelos quais eram comprados, e foram cobertas operações de
fusão e compra de empresas que, por sua vez, tornaram mais aguda a inflação dos
valores cotizados 2.
Durante
todo este período, a bolha imobiliária e bursátil e o crédito barato se
converteram no fator fundamental para manter a arrancada do investimento, do
consumo e da produção, tanto nos EUA como na Europa. Mas, finalmente, como nós
os marxistas sempre defendemos durante estes anos, as causas fundamentais do
crescimento transformaram-se no catalisador da queda. "Há dois fatores que
contribuem para a euforia e a sustentam", assinala o professor Galbraith em seu
sintético, mas interessante, livro sobre a euforia financeira, "o primeiro de
tais fatores é a extrema fragilidade da memória em assuntos financeiros. Em
conseqüência, o desastre é facilmente esquecido. Como tal, quando voltam a se
dar as mesmas circunstâncias ou outras muito semelhantes, às vezes com poucos
anos de diferença, aquelas são saudadas por uma nova geração, freqüentemente
cheia de juventude e sempre com uma enorme confiança em si mesma, como um
descobrimento inovador no mundo financeiro e, mais amplamente, no econômico
(...) O segundo fator que contribui para a euforia especulativa e para o
inelutável colapso é a enganosa associação entre dinheiro e inteligência (...)
Somente depois do colapso especulador surge a verdade..." 3.
Deixando de lado que Galbraith não pode reconhecer que a verdadeira origem da
euforia especulativa é a dinâmica do modo de produção capitalista e o afã de
lucro, é evidente que a inovação financeira é o que mais se parece, sempre e em
cada uma das etapas históricas em que acontece, a uma gigantesca fraude que
aumenta a fortuna dos mais ricos e destrói a dos fracos.
O
próprio Greenspan, em recentes declarações à imprensa econômica, considerava
boa a frase de Galbraith, "Somente depois do colapso surge a verdade". O antigo
presidente da Reserva Federal dos EUA (FED) reconhecia que a bolha imobiliária
foi "inevitável num sentido porque quando se inicia a desenvolver uma euforia
na economia são enfrentados aspectos inatos da natureza humana (...) já vimos
bolhas inflarem e desinflar durante 60 anos e estou convencido de que nunca
teremos capacidade nem através da política monetária e fiscal, nem através de
medidas governamentais de acabar com essas bolhas sem afetar a economia". Se
substituirmos a expressão "natureza humana" por funcionamento do capitalismo,
estaremos de acordo. Mas, agora, as coisas se tornaram muito sérias. O próprio
Greenspan comparou a situação da economia estadunidense com a de um organismo
enfermo: "Alguém cujo sistema imunológico não funciona muito bem está sujeito a
todo tipo de enfermidades, e a economia nestes níveis está sujeita a toda uma
série de choques potenciais".
Injeção de liquidez para evitar o colapso. O Estado ao
resgate
A
gravidade do ocorrido com a crise das subprime
nos EUA está ainda por se ver. As cifras são enganosas e as fontes oficiais
tudo fazem por ocultar a verdade com medo de que o pânico se generalize.
Segundo o último informe da OCDE, a crise hipotecária estadunidense terá um
custo entre 200 e 300 bilhões de dólares (entre 135,2 e 202,8 bilhões de
euros), cifra que Goldman Sachs aumenta até os 400 bilhões de dólares. Contudo,
a própria OCDE afirma que é "demasiado cedo para estabelecer conclusões
firmes". Confirmando as suspeitas, a maior agência de qualificação do mundo, a
norte-americana Standard & Poor's (S&P) considera, em seu último
informe, que as instituições financeiras, tanto européias quanto dos EUA,
somente deram a conhecer uma quarta parte de suas perdas na crise das subprime.
O
que realmente chama a atenção é que, num contexto de grandes turbulências
financeiras, a rentabilidade das bolsas internacionais tenha se mantido em 2007
em nível surpreendentemente alto, algo que pode mudar drasticamente em 2008.
Que é que explica este comportamento? Uma das razões foi a intervenção do
Estado, isto é, dos Bancos Centrais de todo o mundo, para resgatar o sistema
creditício injetando grandes quantidades de capital. Recorrendo aos mecanismos
de intervenção estatal, tão repudiados pelos neoliberais, e socializando as
perdas, o Estado garantiu a solvência de muitas entidades implicadas em uma das
maiores fraudes do século, evitando desta forma um colapso monumental. Assim
funciona a economia de livre mercado!
Os
bancos centrais dos EUA e da Europa não são os únicos que participam do
resgate. Àqueles se uniram as autoridades monetárias da China, Singapura, Abu
Dhabi... Enquanto os primeiros abastecem ingentes quantidades de capital ao
mercado interbancário; os segundos utilizam suas instituições públicas de
investimento (os chamados "fundos soberanos") para injetar capital nos grandes
bancos de negócios 4 que estão passando por dificuldades depois de
anos de investimentos baseados em um endividamento endemoninhado.
O
Banco Central Europeu (BCE) já injetou cerca de 500 bilhões de dólares,
enquanto na FED e na chamada Federal Home
Loans Banks, doze cooperativas de crédito amparadas pelo governo estadunidense,
emprestaram cerca de 250 bilhões. No passado 12 de dezembro, a FED, da mão do
BCE e dos bancos centrais do Canadá, Inglaterra e Suíça, anunciou um novo
leilão de empréstimos às instituições financeiras num montante inicial de 40
bilhões de dólares. Esta ação foi decidida um dia depois de que a FED cortasse
em um quarto de ponto o preço do dinheiro até 4,25%.
Mas
nem a rebaixa das taxas nos EUA, nem a propaganda do plano de intervenção dos
grandes bancos centrais serviram para acalmar a incerteza nos mercados,
confirmando a enorme volatilidade da situação econômica e a desconfiança
existente entre os próprios bancos para emprestarem dinheiro entre si.
Petróleo e inflação. A economia estancada
A
insistência em injetar mais liquidez nos mercados financeiros longe de ser a
solução pode provocar um problema ainda maior. Num contexto como o atual, com o
barril de petróleo situado nos 100 dólares e com um crescimento obsceno dos
preços das matérias-primas agrárias e industriais e dos artigos de primeira necessidade
(alimentos, gás, eletricidade, combustível...), o aumento da circulação de
capital pode piorar as coisas. Alimentar o mercado com mais créditos com o
objetivo de animar o investimento, quando o problema não é de liquidez, longe
de permitir alcançar o objetivo buscado pode provocar uma explosão da inflação
sem corrigir a dinâmica descendente do ciclo.
Muitas
vozes já advertem contra o perigo de estagflação, isto é, estagnação com
inflação. Grandes palavras que nos remetem à crise dos anos 1970 (os analistas
vaticinam uma arrancada em 2008 nos EUA com o aumento do PIB abaixo de 1% e com
uma inflação que encerrou 2007 em 4,3% anuais). Vendo a reação das autoridades
econômicas ante a gravidade da crise, cabe perguntar-se se não se comportam
como piromaníacos tentando apagar um fogo descontrolado.
Resulta
irônico que, com as estimativas preliminares do FMI que assinalavam um
crescimento da economia mundial de 5,2% em 2007, as incertezas sobre uma
possível recessão mundial a cada dia adquiram mais força 5. Basta
repassar alguns indicadores econômicos dos países mais importantes para se ter
um quadro completo da gravidade da situação.
Nos
EUA, o gasto em construção do terceiro trimestre de 2007 diminuiu 20,1% em
relação ao período anterior, em termos anuais; as casas iniciadas ficaram 16,4%
por baixo do mesmo período do ano anterior. Em outro plano, as perspectivas de
gasto dos consumidores endividados são realmente sombrias. O consumo varejista
marca uma linha de desaceleração lenta, mas bem definida. Paralelamente, a
inadimplência dos cartões de crédito aumentou em quase 30% no primeiro semestre
de 2007. O emprego segue uma evolução semelhante. Segundo anunciou o
Departamento do Trabalho dos EUA, no passado mês de dezembro foram criados 18
mil empregos no país, a cifra mais baixa desde agosto de 2003, enquanto a taxa
de desemprego subiu até 5%. A principal causa da desaceleração na criação de
emprego tem sido a crise imobiliária. O setor da construção destruiu durante o
último mês do ano 49 mil postos de trabalho, embora desde setembro de 2006
tenham sido cortados 236 mil empregos no setor. As indústrias manufatureiras
vinculadas a este setor representam 30% das perdas de emprego no setor
industrial em 2007.
Por
outro lado, o lucro operativo dos grandes grupos financeiros dos EUA caiu
33,15% no terceiro trimestre de 2007, enquanto que os dados manejados pela
maioria dos analistas assinalam que o lucro por ação (LPA) do Standard &
Poor's 500, para o quarto trimestre afundou até 6,1% frente ao incremento de
11,5% que se esperava no início do trimestre.
"Começou
uma recessão no setor industrial e acreditamos que se trata do início de uma
recessão generalizada da economia no primeiro semestre de 2008", assinalou
Daniel Meckstroth, economista-chefe da Alianza
de Industriales (MAPI). "A queda do setor imobiliário, a baixa da produção
automobilística, os preços recordes do petróleo e a crise do crédito são
impactos suficientes para causar uma parada em qualquer ciclo econômico",
acrescentou.
Tampouco
no Japão a situação é agradável. O investimento na construção no terceiro
trimestre de 2007 caiu 10,9% na variação inter-anual. Com respeito ao
investimento, a formação bruta de capital caiu nos segundo e terceiro
trimestres de 2007 0,9 e 1,2, respectivamente. A forte desvalorização que o
dólar estadunidense experimentou ao longo de 2007, e que alcança já 7,5% em
termos de yenes, não favoreceu as
empresas japonesas que sofrem a perda de competitividade de suas exportações. O
PIB japonês cresceu apenas 0,7% no terceiro trimestre de 2007, razão porque um
retrocesso importante da economia estadunidense se deixará sentir com força no
Japão.
A
ameaça é clara não somente para os EUA, Japão ou China. Na velha Europa, a OCDE
reviu drasticamente suas últimas previsões rebaixando o crescimento da zona do
euro para 2008 a 1,9%, sete décimos a menos da estimativa em setembro. Segundo
este organismo, o crescimento dos 30 países que formam parte da organização
ficará em 2,3% em 2008, enquanto que os EUA, o Japão ou o Reino Unido não
superarão 2%.
Em direção a uma crise global
As
necessidades de financiamento das dívidas norte-americanas atam o mundo inteiro
ao carro de uma economia enferma. São os dólares comprados pelos bancos
centrais da China, Coréia e Japão os que financiam diariamente esta dívida
gigantesca, mas a queda livre do dólar ameaça pôr um fim a esta situação. Se a
depreciação do dólar continua, é muito provável que não demore a se produzir
uma fuga desordenada por parte dos investidores em dólares, particularmente
asiáticos, o que provocaria um problema de tal magnitude que é difícil prever
como sairiam dele. No caso de que o governo norte-americano adote medidas para
compensar os investidores por conservar seus ativos em dólares, produzir-se-ia
um fenômeno pouco desejável: o custo do capital nos EUA dispararia,
desalentando o investimento e reduzindo o gasto de consumo na medida em que as
altas taxas de juros reduzam o valor do principal ativo dos estadunidenses,
suas casas. Seria como saltar da frigideira diretamente ao fogo.
Em teoria,
um dólar débil impulsionará as exportações e permitirá que a economia
norte-americana se recupere à custa de seus competidores. Mas as exportações
agora apenas representam 12% do PIB estadunidense, uma proporção demasiado
pequena para compensar o enfraquecimento do consumo, que representa 70% do PIB.
Na realidade, a desvalorização do dólar nos últimos anos supõe uma fraude
gigantesca para os investidores de bônus norte-americanos, que viram como se
reduzia brutalmente o valor de seus depósitos.
Este
verdadeiro equilíbrio do terror financeiro, que no momento é aceito dado o
pânico pelas conseqüências que uma recessão nos EUA teria sobre a economia
asiática e mundial, pode romper-se dadas as contradições insolúveis do sistema.
E já há indícios disso: o governo chinês começou uma campanha estudada de
ameaças econômicas contra os EUA, insinuando que poderia liquidar a grande
quantidade de bônus do tesouro norte-americano que possui se Washington impõe
sanções comerciais para obrigar a valorização do Yuan. A China não quer nem ouvir falar de uma possível queda de
suas exportações no mercado mundial, decisivas para o crescimento de sua
economia. Mas com valorização ou sem ela, uma recessão nos EUA afetará, e
muito, o colosso chinês.
Todo
o anteriormente dito assinala que a verdadeira razão da profundidade da crise
tem de ser buscada na superprodução de mercadorias, bens e serviços que,
inevitavelmente, se produz precisamente no pico agudo do boom econômico. Como resultante, as potências imperialistas se
ameaçam, umas às outras, com adotar medidas protecionistas e desvalorizações
competitivas, o que poderia transformar a crise numa profunda depressão. Por
exemplo, os capitalistas europeus sofrem a apreciação selvagem do euro, que
debilita a competitividade de suas exportações no mercado mundial 6,
enquanto a avalanche de manufaturas chinesas míngua seus lucros em seu próprio
mercado. Como resposta, as autoridades da União Européia tratam de impor novas
tarifas alfandegárias às importações da China. É este endurecimento da
competição num mercado em vias de saturação que explica o fracasso constante da
Organização Mundial do Comércio (OMC) em sua tentativa de regulamentar as
condições do comércio mundial, e o número crescente de acordos bilaterais
firmados entre as grandes potências e as pequenas nações.
Apenas
uma coisa está fora de dúvida: depois de um boom
econômico em que as condições dos trabalhadores europeus e norte-americanos
retrocedeu objetivamente depois de anos de duros sacrifícios, cortes salariais
e perda de direitos, uma nova volta na porca do parafuso pode provocar uma
explosão da luta de classes 7.
Neste
início de ano, as guerras, a miséria, a obscenidade da fome e da enfermidade, a
regressão nas condições de trabalho e de vida de milhares de milhões de homens
e mulheres, são uma realidade inquestionável que golpeia a consciência dos
oprimidos. Mas isto não é suficiente. É necessário resolver estas contradições
de uma vez por todas, com a transformação socialista da sociedade e a derrubada
do capitalismo. Esta é a única alternativa realista. Como Trotsky explicou em
um discurso dirigido ao Terceiro Congresso da Internacional Comunista: "A curva
de desenvolvimento econômico tende, através de todas as oscilações, para baixo
e não para cima. Contudo, quer dizer isto que o fim da burguesia chegará
automática e mecanicamente? De modo algum. A burguesia é uma classe viva que
germinou sobre determinadas bases econômico-produtivas (...) Esta classe
sobreviveu, ou seja, se converteu no mais terrível freio da evolução histórica,
o que não quer dizer que esta classe está disposta a cometer um suicídio
histórico (...) Por outro lado não é suficiente que o Partido Comunista
reconheça a classe burguesa como condenada e quase suprimida para considerar
segura a vitória do proletariado. Não. Ainda há que se vencer e derrubar a
burguesia!".
Madrid, 13 Janeiro 2008.
- Para ilustrar a magnitude do fenômeno, basta citar um
dado como exemplo: segundo o Banco de Pagamentos de Basiléia, 500 trilhões de
dólares - o equivalente ao PIB dos EUA em 35 anos - era a soma total do mercado
de derivados não organizados em finais de junho de 2007. Apenas uma parte do
conjunto do mercado de derivados.
- A
capitalização bursátil de todas as bolsas norte-americanas passou de 5,3
trilhões de dólares, em finais de 1994, a 17,7 trilhões de dólares, em finais de
1999, e a 35 trilhões de dólares, em finais de 2006, gerando um aumento
geométrico da relação preço-lucro e assim sucessivamente. Este processo não foi
o resultado de uma expansão da atividade produtiva, mas se deveu a um aumento
massivo dos capitais especulativos investidos em bolsa na busca de
rentabilidades que a inversão produtiva não oferecia.
- J. K.
Galbraith, Breve historia de la historia financiera, Editorial Ariel, Barcelona
1993. P 27.
- Um
investidor saudita e o fundo soberano de Singapura, Temasek, injetarão 830
milhões de euros no maior banco de investimento do mundo, UBS (Suíça). O fundo
soberano mais importante do planeta, o Abu Dhabi Investment Authority, anunciou
um investimento de 7,5 bilhões de dólares (5,096 bilhões de euros) no
Citigroup. À lista, somam-se os estadunidenses Morgan Stanley, Bear Stearns,
Merryl Lynch e o britânico Barclays. A crise financeira arrojou os grandes
bancos nas mãos dos fundos soberanos num momento de falta de liquidez. Os altos
preços do petróleo, uma de suas principais fontes de renda, e o superávit
exportador dos países emergentes dispararam seus recursos.
- O
maior aporte ao crescimento é realizado pelos países emergentes (8,1%), mais do
triplo do registrado pelos países mais avançados (EUA, EU, Japão ou os tigres
asiáticos), que ficaram em 2,5%. Se a evolução das economias for medida em
paridade de poder de compra (segundo a capacidade de compra de cada economia e
não segundo as taxas de câmbio das moedas), a China é o país que mais contribui
ao crescimento mundial nos últimos sete anos (25%), na frente dos EUA.
- Apesar das restrições, o têxtil chinês aumentou sua
quota nos EUA (as importações chinesas cresceram 15% frente a 4% das
importações totais) e na EU (10% frente a 6% global), áreas em que é o
fornecedor líder (nos EUA, domina quase um terço do mercado). Mas o aumento da
quota chinesa foi muito mais corpulento no mercado mundial. Segundo o informe
da OMC, as exportações totais do têxtil chinês aumentaram em 2006 25,2%, ainda
mais que no ano anterior, e tocaram nos 144 bilhões de dólares (107 bilhões de
euros), quase o triplo de há cinco anos.
- No
último informe sobre o mercado de trabalho da EU, publicado pela Comissão
Européia no mês de dezembro de 2007, conclui-se que o peso das receitas do
trabalho no PIB comunitário alcançou em 2006 seu mínimo histórico, com uma
participação de 58%. Em 1975, as rendas dos trabalhadores tinham um peso de 70%
no PIB da UE (15 membros). O descenso continuado na quota da riqueza dos
trabalhadores nas últimas três décadas repete-se em outras grandes economias:
no Japão e nos EUA apenas supera 60% de seus respectivos PIB. Por outro lado, a
OIT publicou no início de 2007 um documento intitulado Tendências Mundiais do Emprego 2007. No mesmo, assinalam-se
contradições que expressam vivamente os limites do crescimento: se bem que haja
mais pessoas trabalhando que nunca antes, o número de desempregados registrados
oficialmente manteve-se numa marca sem precedentes de 195,2 milhões de pessoas
em 2006. A
OIT também destacou que houve somente modestos avanços nas tentativas para
tirar da pobreza aos 1,37 bilhões de trabalhadores que, apesar de terem
emprego, sobrevivem com menos de dois dólares ao dia. O documento assinala que
durante a última década a produtividade aumentou 26%, enquanto que o número de
empregados no mundo subiu apenas 16,6%.
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