Novo presidente eleito enquanto a crise do regime abala o Peru

No dia 16/11, o Congresso peruano elegeu uma nova liderança chefiada por Francisco Sagasti, que tomará posse hoje como novo presidente do país. A eleição de Sagasti (Partido Morado), à frente de uma lista composta exclusivamente por parlamentares que não votaram no impeachment do presidente Vizcarra em 11 de novembro, é uma tentativa desesperada de manter a continuidade das instituições da desacreditada democracia burguesa e de reconstruir sua legitimidade.


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No domingo, o presidente Merino foi forçado a renunciar pelo movimento de massas após ter permanecido no cargo por apenas cinco dias, ao substituir Vizcarra. Entre a tarde de domingo e a tarde de terça-feira, o país esteve sem governo e sem autoridades.

Sagasti é um político burguês, liberal e de centro-direita de um partido relativamente novo; portanto, não foi diretamente contaminado por escândalos de corrupção. A outra opção seria eleger um representante da Frente Ampla (FA), de centro-esquerda (Frente Amplio), algo que foi tentado no domingo, mas fracassou. A FA desempenhou um papel menor na chapa de Sagasti e agora ocupará o cargo da presidência do Congresso.

A classe dominante calcula que essas manobras serão capazes de apaziguar as massas nas ruas e pôr fim à crise do regime. É provável que o novo presidente faça algumas concessões ao movimento (encontrando alguns bodes expiatórios para a repressão que deixou dois jovens mortos). O novo governo de Sagasti será apresentado como um governo “técnico”, “transitório” e provisório até as eleições de abril de 2021.

O poder das ruas

As manifestações nas ruas continuam exigindo justiça para Inti e Jack, as duas vítimas da repressão. É imprescindível que o sindicato CGTP mantenha o apelo à Greve Nacional na quarta-feira, dia 18 de novembro. A luta nas ruas é a única forma de impor uma saída da crise favorável à classe trabalhadora.

Não se deve esquecer que, já no ano 2000, foram as massas operárias e camponesas que deram o golpe final no regime de Fujimori na grande manifestação da Marcha dos 4 Suyos, mas isso levou à chegada de Toledo ao poder. Em outras palavras, houve uma mudança burguesa a partir de cima.

Por enquanto, a desconfiança das massas nesta solução por cima se expressa na exigência de uma segunda votação, a ocorrer em 2021, junto com as eleições parlamentares, dando ao povo a opção de convocar uma assembleia constituinte para pôr fim à constituição de 1993 de Fujimori, que ainda está em vigor.

A mobilização insurrecional da semana passada afastou o governo ilegítimo de Merino. O movimento mostrou a enorme força das massas nas ruas, lideradas pela juventude. Os jovens que estiveram na vanguarda da luta formam uma geração (conhecida como “geração bicentenária” porque o país marca 200 anos de independência) que não viveu as décadas de 1980 e 1990 e não tem medo do espectro da “subversão”.

O frescor e a espontaneidade do movimento são sua força, mas também sua fraqueza. Alguns estão avançando com a perigosa ideia de “nem direita, nem esquerda“, que sempre beneficia a classe capitalista.

Devemos explicar pacientemente que a corrupção não é a causa da crise, mas apenas a manifestação superficial da podridão do sistema capitalista peruano: atrasado, em crise e sob domínio imperialista.

O que é necessário não é apenas mudar a Constituição. Para conseguir trabalho, moradia, saúde, educação, defender a vida e ter uma verdadeira democracia, é preciso colocar como central a questão de quem manda: os parasitas da Confederação Nacional de Instituições Empresariais Privadas (CONFIEP) e seus políticos corruptos, ou as massas de trabalhadores e camponeses que criam a riqueza.