O governo nacional de 1931 e as lições da ruptura do Partido Trabalhista Independente (PTI)

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Este artigo foi escrito em 1991 e é de extrema atualidade. Ajuda-nos inclusive a compreender a tática que os marxistas aplicam no Brasil em sua intervenção no PT, um partido que aplica a política da colaboração de classes reafirmada em seu IV Congresso...

Oitenta anos atrás, em 1931, a fração direitista do Partido Trabalhista juntou-se aos Tories [membros do Partido Conservador, na Grã-Bretanha] para formar um novo governo nacional. Esta ação tinha apenas um objetivo. Como os atuais governos de coalizão, seu objetivo era o de realizar cortes implacáveis para salvar os lucros do capitalismo. Rob Sewell relembra a grande traição.

“Aqueles que não aprendem com a história estão condenados a repeti-la” (George Santayana).

Teoria

A teoria marxista pode ser definida como a experiência histórica generalizada da classe trabalhadora, e funciona também como memória do movimento operário. As derrotas e os erros passados podem servir para enriquecer nossa compreensão e para preparar as novas gerações de militantes sindicais e do Partido Trabalhista para as batalhas que se aproximam.

Leon Trotsky, revendo sua tentativa de influenciar o movimento à esquerda do Partido Trabalhista Independente (PTI) em 1930 escreveu:

”Há mais de dois anos, o autor deste artigo procurou chegar a um entendimento com a liderança do PTI através de vários artigos e cartas; a tentativa teve resultados nulos: durante aquele período, nossa crítica da Internacional Comunista parecia aos líderes do PTI ‘pré-concebida’ e ‘facciosa’, talvez até mesmo motivada por ‘questões pessoais’. Nada ficou; exceto dar tempo ao tempo”.

A despeito de todos os acontecimentos tumultuosos do período, a tentativa de Trotsky de influenciar o PTI não deu em nada. O PTI, que tinha grande influência no movimento operário britânico, visto que ajudou a formar o Partido Trabalhista, se separou do Partido em 1932 e se moveu para uma direção semi-revolucionária.

Aviso

Entretanto, sua incapacidade de seguir o conselho de Trotsky para adotar um programa marxista claro e direcionado às organizações tradicionais da classe trabalhadora resultou em seu declínio e eventual colapso.

Todo este episódio foi uma oportunidade tragicamente perdida para a construção de uma poderosa força marxista na Grã-Bretanha que poderia ter mudado todo o curso da história. As experiências dos anos 1930 e a cisão do PTI servirão para prevenir a nova geração de trabalhadores conscientes na luta para transformar as organizações de massas da classe trabalhadora, os sindicatos e o Partido Trabalhista, no curso da luta pelo socialismo.

Crise

A crise de 1931 e a subsequente ruptura provocaram a maior agitação no Partido Trabalhista britânico desde sua formação. Todo este episódio decorreu dos acontecimentos tormentosos dos anos 1920 e do fracasso das políticas reformistas adotadas pelo governo trabalhista de 1924 e de 1929-31. O PTI não era uma pequena seita: desempenhou um papel proeminente no movimento operário britânico e forneceu força motriz à criação do Partido Trabalhista, enquanto aumentava o número de líderes em suas fileiras, incluindo Ramsay MacDonald.

Embora ideologicamente amorfo, o PTI tendeu a preservar a linha socialista do Partido Trabalhista. Sob o poderoso impacto da crise econômica mundial, da ascensão do fascismo na Alemanha e da traição de MacDonald, as bases do PTI mudaram bruscamente para a esquerda. A crise das reformas refletia o impasse do capitalismo mundial e britânico. Na época da expansão capitalista, o desenvolvimento das forças produtivas proporcionou bases materiais ao reformismo e permitiu que o sistema oferecesse certas concessões à classe trabalhadora.

Contudo, a época de crise capitalista destruiu completamente esta posição. A filosofia reformista de mudar a sociedade gradativamente mostrou-se insustentável, enquanto os governos trabalhistas passavam das reformas às contrarreformas.

Declínio

Apesar do boom econômico dos “loucos anos da década de 1920”, o capitalismo britânico já se ressentia de sério declínio econômico em relação às outras potências capitalistas. Estava agora a ser ultrapassado pelas poderosas economias da Alemanha e dos EUA.

O impasse da indústria britânica foi sintetizado pela crise na indústria carbonífera. Desde a guerra, a indústria carbonífera vinha sendo fortemente subsidiada pelo Estado. A ameaça de desregulamentação da indústria incitou os proprietários das minas a lançar uma ofensiva para reduzir os salários dos mineiros. Isto foi visto por Baldwin, o primeiro-ministro conservador, como uma medida geral necessária aos empregadores para “colocar a indústria sob seus próprios pés”. A tentativa de reduzir os salários e de cortar custos encontrou a resistência da classe trabalhadora e provocou a Greve Geral de 1926 e a dispensa temporária, por nove meses, dos mineiros. Esta batalha foi a mais importante na história da classe trabalhadora britânica e revelou seu potencial revolucionário.

Infelizmente, devido às políticas e ações dos dirigentes sindicais reformistas – tanto à direita quanto à esquerda – a greve foi derrotada.

Em seu artigo “Para onde vai a Grã-Bretanha?”, Leon Trotsky explicou que a classe trabalhadora britânica, quando suas aspirações são frustradas, tende a oscilar entre a luta sindical e a luta política, e vice-versa. A onda revolucionária depois da I Guerra Mundial resultou em uma onda de greves e no crescimento explosivo do Partido Trabalhista. O refluxo da onda de greves, depois da derrota de Black Friday [sexta-feira Negra] de 1921, empurrou os trabalhadores à luta política.

Eleição

“Paralisada na esfera da ação econômica”, afirma Trotsky, “a energia das massas foi direcionada ao plano político”. A eleição do primeiro governo trabalhista minoritário, em 1924, deu origem a grandes expectativas da classe trabalhadora. Contudo, sua derrota depois de nove meses de luta induziu a classe trabalhadora a girar para as lutas nas fábricas. A traição da Greve Geral empurrou a classe mais uma vez à ação política e à eleição de um governo trabalhista em 1929.

O governo trabalhista de MacDonald mostrou ser um governo de crise. Mergulhado no gradualismo do Fabianismo [princípios da Sociedade Fabiana inglesa – o termo Fabianismo deriva de Fabius, o contemporizador, um general romano que evitava as batalhas desde que isto preservasse o status quo] e despreparado para desafiar o capitalismo, ele tentou trabalhar dentro dos limites da “economia de mercado”. Tal política, tendo por base as crescentes dificuldades econômicas, resultou em que as reformas inicialmente planejadas fossem substituídas por contrarreformas severas.

Em setembro de 1929, o crash da Bolsa de Nova Iorque antecipou a mais profunda depressão econômica da história. O resultante colapso internacional das forças produtivas causou desemprego em espiral: na Alemanha, sete milhões de trabalhadores foram despedidos; na Grã-Bretanha, o desemprego atingiu cerca de três milhões de trabalhadores; nos EUA, 25% da força de trabalho ficaram desempregados. A posterior guerra comercial entre as potências capitalistas significou o colapso generalizado dos mercados e da produção. A Grande Depressão que se seguiu levou os governos capitalistas do mundo inteiro a descarregar a crise nas costas da classe trabalhadora por meio de reduções generalizadas de salários e de programas de “austeridade”. O governo trabalhista de MacDonald, sob a pressão tanto dos grandes negócios quanto da classe trabalhadora, entrou em crise.

Enquanto a classe trabalhadora exigia medidas para reduzir o desemprego etc., a classe dominante exigia cortes drásticos, em nome do “interesse nacional”, para colocar a indústria novamente sob seu controle. O governo inclinou-se ante o Capital e pontualmente executou até o final uma série de cortes no seguro desemprego através de sua Lei das Anormalidades. Não contente com isto, os grandes negócios exigiram mais “sacrifícios” e “aumentos na produção”.

Câmara dos Comuns

Na Câmara dos Comuns, os partidos burgueses, Tory e Liberal, insistiram nessas exigências com uma emenda à moção de censura propondo a criação de um comitê para examinar futuros cortes. O comitê, nas palavras de Beatrice Webb, consistia de “cinco experts, duros representantes do capitalismo, e de dois sindicalistas domesticados”.

Como era de se esperar, seu relatório, publicado em julho de 1931, recomendava cortes draconianos nos gastos do governo para equilibrar as contas, o apoio à recuperação industrial e à promoção do lucro capitalista. Estas medidas incluíam cortes de 20% na remuneração dos professores, 25% na remuneração dos serventuários e uma redução de 20% no subsídio aos desempregados, impostos através de um exame de carências de recursos.

Oposição

Em agosto, apesar da oposição do Congresso dos Sindicatos, estas propostas contra a classe trabalhadora foram escandalosamente aceitas pelo Gabinete Trabalhista.

Como sempre, a debilidade é um convite à agressão. Os cortes aceitos por MacDonald não foram suficientes para “restaurar a confiança na moeda” e evitar uma corrida contra a libra esterlina. Sob a pressão do Banco da Inglaterra e do Grande Negócio, o Gabinete foi forçado a admitir novos cortes. Apesar de representar os sindicatos, MacDonald respondeu que “nada me é mais doloroso que discordar de velhos amigos, mas pessoalmente considero impossível ignorar a realidade, como temo que estejam a fazer”. Beatrice Webb descreveu o Conselho Geral como “porcos” dizendo: “eles não vão aceitar quaisquer ‘cortes’ no Seguro Desemprego, nos salários e nos benefícios”.

Apesar da atitude subserviente de MacDonald, o Gabinete recusou-se a autorizar mais cortes. Para eles, o corte extra de 12 milhões de libras provou ser muito difícil de engolir. O Gabinete se dividiu.

Discussões

MacDonald, determinado a superar a crise a qualquer custo, foi ver o Rei e abriu conversações com os líderes dos Partidos Conservador e Liberal, com vistas a estabelecer um Governo Nacional. Ele disse ao chanceler trabalhista Snowden: “Amanhã, todas as duquesas de Londres estarão esperando para me beijar...”.

Com o objetivo de utilizar a autoridade dos líderes trabalhistas para confundir e desorientar a classe trabalhadora, os líderes da oposição queriam manter MacDonald como primeiro-ministro. Sir Herbert Samuel cinicamente informou ao Rei George V que:

”Diante do fato de que os necessários cortes seriam muito intragáveis para as classes trabalhadoras, seria do interesse geral que pudessem ser impostos por um Governo Trabalhista. A melhor solução seria que Mr. Ramsay MacDonald, seja com o atual Gabinete ou com um Gabinete reconstituído, pudesse propor os cortes requeridos. Se ele não conseguir o apoio de um número suficiente de seus colegas, então a melhor alternativa seria um Governo Nacional composto de membros dos três partidos. Seria preferível que Mr. MacDonald permanecesse como primeiro-ministro em tal Governo Nacional”.

MacDonald não conseguiu convencer um número suficiente de seus “colegas” e aconselhado pelos líderes da oposição e pelo Rei anunciou o final do Governo Trabalhista. Ele, então, convocou uma inesperada eleição geral para o final de agosto. O resultado foi uma vitória esmagadora de um Governo Nacional, formado pelos partidos Tory, Liberal e Trabalhista Nacional – que ganhou 554 assentos e 70% dos votos. O Partido Trabalhista, que se encontrava completamente desorientado pela traição, foi dizimado nas urnas, captando apenas 52 assentos e 6,5 milhões de votos.

Alma dupla

Embora os trabalhadores com mais consciência de classe tivessem permanecido solidamente vinculados ao Partido Trabalhista, o resultado comprovou o que Trotsky denominava de “alma dupla” da classe trabalhadora britânica. “Mais uma vez nos surpreende”, declara Trotsky, “como uma terrível carga de humilhação, de conservadorismo, de intolerância, de conciliação, com relação à elite, aos títulos, aos ricos, à Coroa, absorve a mente da classe trabalhadora britânica que é, ao mesmo tempo, capaz de grandes insurreições revolucionárias” (Chartism, pre-war movements of 1911, movements following the war, the strike movement of 1926). “O proletariado britânico, o mais antigo e com mais tradições, é, em seus pensamentos e métodos, demasiado empírico, e carrega em seu peito duas almas, mostrando, por assim dizer, duas caras frente aos acontecimentos históricos” (Leon Trotsky, Writings on Britain, p. 61).

Revolucionário

A face revolucionária da classe trabalhadora não tardou a se mostrar na reação à traição e na radicalização das fileiras do movimento operário, em particular o PTI. “Um grama de prática vale mais que uma tonelada de teoria”, escreveu Lênin. O fracasso de 1931 foi uma dura lição para os ativistas do movimento operário sobre a inadequação do reformismo. O reformismo tinha sido posto à prova duas vezes: em 1924 e em 1929-31, e em ambas fracassou miseravelmente. O Fabianismo estava agora desacreditado entre largas camadas das organizações tradicionais. Os marxistas não se opõem às reformas, mas ao reformismo, esta errônea concepção de que a sociedade de classes pode ser mudada gradualmente no decorrer de um longo período de tempo. A história tem demonstrado repetidamente a falácia dessa abordagem, que pavimenta o caminho para a desmoralização e para a derrota.

É dever de cada trabalhador com consciência de classe lutar por cada reforma, por menor que seja. Somente por este caminho a classe trabalhadora se torna consciente da necessidade de ativamente transformar a sociedade em linhas socialistas. A luta pelas reivindicações cotidianas deve estar vinculada à tarefa de mudar a sociedade – pois só desta forma será possível tornar permanentes as reformas. A responsabilidade dos marxistas é a de lutar por um programa de demandas transicionais que atue como uma ponte entre o atual nível de consciência da classe trabalhadora e a necessidade de se derrubar o capitalismo: um salário digno para todos, empregos, controle operário, nacionalização dos monopólios e governo operário. A náusea contra o gradualismo de MacDonald e o impasse do capitalismo internacionalmente empurraram muitos trabalhadores em direção ao marxismo. As fileiras do PTI movimentaram-se dramaticamente à esquerda fazendo com que toda a organização se movimentasse para uma direção centrista. Centrismo, nas palavras de Trotsky, era “uma denominação geral para muitas e variadas tendências e agrupamentos espalhados entre o reformismo e o marxismo”. O impacto dos acontecimentos causou profundas mudanças na consciência da classe, que estava evoluindo numa direção revolucionária.

Possibilidades

O PTI ficou totalmente instável. Sua Conferência de Páscoa afirmou que “A luta de classes, que é a força dinâmica da mudança social, está chegando ao momento decisivo... Não há tempo agora para processos de mudança lenta e gradual. A necessidade imperiosa é por socialismo agora”. Isto proporcionou tremendas possibilidades para a construção das forças do marxismo na Grã-Bretanha. Infelizmente, a reação contra o reformismo da liderança empurrou as fileiras do PTI em direção a posições sectárias em relação ao Partido Trabalhista.

Mais uma vez, em sua Conferência de Páscoa de 1932, teve lugar um debate sobre a desfiliação do Partido Trabalhista, com um grande setor votando por dar um ultimato àquele Partido sobre seus mandatos imperativos aos seus parlamentares. Esta questão organizacional – a independência dos cinco representantes do PTI no Parlamento em relação à disciplina do grupo parlamentar do Partido Trabalhista – serviu para disfarçar as verdadeiras questões por trás da iminente separação. Em sua Conferência Especial em julho, dada a ausência de resposta do Partido Trabalhista, o PTI votou pela desfiliação.

Divisão

A decisão pela ruptura foi agravada pela falta de qualquer perspectiva clara de desenvolvimento subsequente do PTI. Isto fez com que Trotsky comentasse que o “PTI rompeu na hora errada e por questões equivocadas”.

O Partido Comunista Britânico, que já tinha se transformado completamente em estalinista em suas políticas e métodos, mostrou-se incapaz de tirar proveito da crise do movimento, principalmente devido as suas posições ultra-esquerdistas. Originalmente, o Partido Comunista tinha uma base significativa nos sindicatos através da criação do Movimento das Minorias, bem como através do próprio Partido Trabalhista. Contudo, a partir de 1928, os estalinistas, queimando seus dedos com sua linha oportunista anterior em relação à burocracia sindical, adotaram a teoria do “social-fascismo”. Esta teoria falida afirmava que o capitalismo havia entrado em um novo “Terceiro Período” de crise, o que significava que a socialdemocracia desempenhava o papel de face esquerda do fascismo! Esta política sectária resultou em uma grande queda no número de seus militantes e crescente isolamento do movimento operário.

Confusão

Entretanto, a liderança do PTI, devido a sua confusão teórica e à falta de perspectiva, começou a flertar com os estalinistas. A despeito de sua linha ultra-esquerdista, o Partido Comunista avidamente formou uma "frente única" com o PTI, para ganhar posições em suas fileiras. Trotsky, em artigos e cartas, tentou influir no PTI e ganhá-lo para um ponto de vista claramente revolucionário. Ao fazer isto, Trotsky explicou que era necessário para que o PTI se afastasse dos estalinistas e se virasse para as organizações de massa que estavam em efervescência. “O PTI” – escreveu Trotsky –“pode salvar o movimento dos trabalhadores deste novo perigo somente se libertando da falta de clareza e de toda nebulosidade em relação ao momento e aos métodos da revolução socialista e se tornando um partido verdadeiramente revolucionário do proletariado. No entanto, o que é... perigoso é uma abordagem sectária do Partido Trabalhista”.

Ele acentuou este ponto. “Para cada organização revolucionária na Inglaterra, sua atitude em relação às massas e à classe é quase coincidente com sua atitude em relação ao Partido Trabalhista, que se baseia nos sindicatos” (Writings on Britain, vol. 3, p. 107).

Trotsky rejeitou os argumentos que então circulavam no PTI de que o Partido Trabalhista estava “morto”, “vulnerável”, “incapaz de mudar” etc., que foram ecoados por cada grupo sectário, ano após ano.

Para nós – sim! Mas não para as massas, não para os oito milhões que votaram no Partido Trabalhista! É um enorme risco para os revolucionários dar demasiada importância às decisões da Conferência. Nós usamos estas evidências em nossa propaganda – mas isto não pode ser adequadamente denunciado considerando-se a pequena força de nossa imprensa. Ninguém pode gritar mais alto do que lhe permite a própria garganta”.

Libertação

O mesmo é verdadeiro para os sindicatos, as organizações básicas da classe. A tarefa mais importante tornou-se, nas palavras de Trotsky, “a libertação dos trabalhadores de toda a influência reacionária da burocracia sindical”. Isto somente poderia ser feito, não se afastando dos sindicatos, como argumenta a ultraesquerda, mas pelo trabalho paciente e sistemático dentro deles. Para Trotsky, “a questão dos sindicatos permanece sendo a questão mais importante da política operária na Grã-Bretanha, bem como na maioria dos velhos países capitalistas”.

Infelizmente, a liderança do PTI ignorou este conselho. Não somente não conseguiram esclarecer suas ideias, também continuaram a virar as costas para o Partido Trabalhista e convidaram seus membros a retirar-se de suas fileiras e a optar por não pagar a contribuição sindical. Esta orientação teve consequências desastrosas para o PTI. De 100 mil membros e 140 deputados, em 1930, o PTI ficou reduzido a 17 mil membros no momento da ruptura e a 4,4 mil em 1935.

Traição

Tragicamente, a separação do trabalhismo ocorreu quando o Partido estava oscilando para a esquerda, uma oportunidade em que o PTI poderia desempenhar papel decisivo. A traição de MacDonald, a recessão e a depressão econômica, o crescente desemprego em massa, bem como a ascensão do fascismo, tudo isto contribuiu para uma crescente radicalização das organizações de massa. Mesmo um bom número dos líderes trabalhistas, refletindo a pressão das bases, foi influenciado por estes acontecimentos.

Em 1932, Harold Laski, um dos principais teóricos do Trabalhismo, perguntou se “o socialismo evolucionário [tinha] se enganado ao acreditar que poderia ser estabelecido por métodos pacíficos no bojo do sistema capitalista”. Outra figura de destaque da esquerda, Stafford Cripps, em um panfleto intitulado “Pode o socialismo vir por meios institucionais?” advertiu que “a classe dominante irá até o fim para derrotar as ações parlamentares se o problema for a questão direta da continuidade de seu controle financeiro e político”. Ele, então, passou a defender poderes de emergência para um governo trabalhista enfrentar a crise.

Ditadura

Desde que os Tories ameaçaram instituir uma ditadura militar, declara Cripps, “provavelmente seria melhor e mais propício à paz geral e ao bem-estar do país o governo socialista tornar-se temporariamente em ditadura até que o assunto pudesse novamente ser colocado sob o teste das urnas”. Apesar da cisão parcial do PTI, as fileiras do Partido Trabalhista moviam-se constantemente para a esquerda. A Conferência de 1932 do Partido Trabalhista aprovou uma resolução, sem discussão, que declarava que “o principal objetivo do Partido Trabalhista é o estabelecimento do Socialismo” e que “a propriedade social dos meios de produção e distribuição é o único meio através do qual os produtores estariam capacitados a assegurar os frutos de seu trabalho”.

Uma resolução posterior, apresentada por Sir Charles Trevelyan, exigia:

“Ao assumir suas posições, com ou sem poder, a legislação socialista definitiva deve ser imediatamente promulgada e o Partido deve permanecer ou cair na Câmara dos Comuns sob os princípios em que deposita suas convicções”.

“Vamos fixar em alguma resolução como esta o inabalável mandato que eles (o governo trabalhista) estão para introduzir de uma só vez, antes de tentar medidas remediadoras de qualquer outro tipo, ou alguma medida geral capacitando-os a nacionalizar as indústrias-chave do país”.

Henderson, o presidente do Partido, em vésperas de renunciar, praticamente esbravejou quando se opôs à resolução, considerando que esta seria o mesmo que atar as mãos da liderança!

Attlee

Clement Attlee, o futuro líder do partido, apoiou, dizendo: “Os acontecimentos do último ano mostraram que nenhum progresso pode ser feito na busca de migalhas da mesa dos ricos...”.

Com a separação do PTI, o grupo de esquerda remanescente se reagrupou em torno de uma nova organização, a Liga Socialista. A Liga, contudo, tinha uma base de classe média e mostrou-se ineficaz na luta contra a ala direita do Partido. Em 1935, a Liga se juntou à chamada “Campanha pela Unidade”, que envolvia o PTI e o Partido Comunista, que tinha dado uma virada de 180 graus sob as ordens de Stalin de estabelecer “frentes populares”. A iniciativa se mostrou estéril.

De acordo com Fenner Brockway, o secretário do PTI, “Seu resultado foi a destruição da Liga Socialista, a perda de influência de Cripps, Bevan, Strauss e outros ‘esquerdistas’, o fortalecimento dos líderes reacionários e a desilusão nas fileiras do partido”.

Manifesto

O Manifesto da Unidade emitido pela Campanha em 1936 foi rejeitado pelo Partido Trabalhista que tinha se recuperado do desastre e estava ganhando pontos. Ele usou a associação da Liga com o Partido Comunista para recusá-lo. Esta excomunhão foi aceita pela esquerda, que se encontrava muito desmoralizada com a experiência. Esta regressão foi produto do oportunismo da Liga, do PTI e dos estalinistas. Seu programa de “unidade” ao invés de estar baseado sobre posições de princípio foi usado para encobrir suas diferenças. O PTI, em vez de oferecer um caminho para a classe trabalhadora britânica, desorientado, perdeu força e grandes oportunidades. Isto se originou em sua confusão teórica, em suas perspectivas incorretas e na sua falsa orientação.

Enquanto flertava com o Partido Comunista na Grã-Bretanha, no plano internacional o PTI fez uma aliança com alguns grupos e partidos centristas no Bureau Internacional pela Unidade Socialista Revolucionária. Oscilando ocasionalmente entre o estalinismo e o trotskismo, este Bureau desempenhou papel nefasto crescente ao encorajar as ilusões no estalinismo, espalhando confusão onde ainda tinha alguma influência. Seu papel mais prejudicial foi na Espanha, onde o POUM [Partido Obreiro de Unificação Marxista], a despeito do heroísmo do proletariado espanhol, desempenhou um papel fatal entrando no governo de Frente Popular e usando sua grande autoridade para subordinar os interesses da classe trabalhadora espanhola aos liberais republicanos. Esta política resultou no naufrágio da revolução e na vitória final de Franco.

A Comissão Dewey

Numa altura em que os confrades do PTI na Espanha estavam sendo caçados e assassinados pela polícia secreta de Stalin, Fenner Brockway recusou-se a apoiar a Comissão Dewey sobre os Processos de Moscou, apelando, em vez disto, por “um inquérito sobre o papel do trotskismo no movimento da classe trabalhadora”. Esta confusa política, que era a marca do centrismo, foi a causa final de sua queda.

Foram cometidos erros sectários ao longo da história do movimento operário britânico. Como Lênin explicou: “O movimento paga pelo oportunismo da liderança por suas tendências ultra-esquerdistas”.

Sectarismo

Apesar das advertências de Marx e Engels, os primeiros marxistas britânicos da Federação Socialdemocrata mantinham uma atitude sectária em relação ao movimento operário organizado. Embora participassem da fundação do Partido Trabalhista na virada do século, eles ficaram de fora durante 12 meses por não conseguirem persuadir as suas fileiras sobre a necessidade de um programa socialista. Sob o impacto da Revolução Russa, este programa foi adotado pelo Partido e consagrado na Quarta Cláusula de sua Constituição.

Enquanto isto, os “marxistas” da Federação Socialdemocrata permaneceram isolados na periferia do movimento nos últimos 90 anos. Quando o Partido Comunista Britânico foi formado, em 1920, Lênin defendeu sua filiação ao Partido Trabalhista.

Contudo, tal era o sectarismo do Partido Comunista à época que seu pedido de filiação foi redigido de forma tão sectária que convidava a sua rejeição.

O próprio Lênin levantou a questão das tendências sectárias que ameaçavam destruir o movimento em seu livro Esquerdismo, doença infantil do comunismo. No momento em que o Partido Comunista Britânico conseguiu superar seu “esquerdismo infantil”, que mostrou ser uma característica geral dos Partidos Comunistas, naquele tempo, começou a exercer uma ampla influência no movimento operário. Isto se perdeu em grande parte devido à política de zigzags dos estalinistas, que terminou na política suicida do Terceiro Período. Este giro à esquerda no início dos anos 1930 proporcionou mais uma oportunidade de ouro para o desenvolvimento do marxismo genuíno. Leon Trotsky reconheceu este potencial, tentou influenciar este movimento e ganhá-lo para uma posição claramente revolucionária. O fracasso dos líderes centristas do PTI na realização desta transição do reformismo ao marxismo resultou no desastre do desenvolvimento desta ala esquerda.

Lições

Marx esclareceu há muitos anos atrás que a história se repete primeiro como uma tragédia e depois como uma farsa. As experiências da Federação Socialdemocrata, do Partido Comunista e do PTI foram trágicas para o movimento. As experiências posteriores dos diferentes grupos sectários, a despeito de todas essas lições poderosas, apenas podem ser vistas como farsas. Suas repetidas tentativas de estabelecer partidos “revolucionários” fantasmas para concorrer com o Partido Trabalhista sempre terminaram em naufrágio com seus remanescentes se espalhando na periferia do movimento operário.

Os marxistas não podem, como foi explicado no Manifesto Comunista há quase 150 anos, estabelecer suas condições prévias para participarem sectariamente nas organizações da classe trabalhadora. Eles se distinguem, por um lado, como “o setor mais resoluto dos partidos operários de cada país, como a fração que impulsiona as demais; por outro lado, teoricamente, têm sobre a grande massa do proletariado a vantagem de entender claramente a curso do movimento, as condições e os resultados do movimento proletário”.

Ultra-esquerda

Nossa tarefa não é a de “gritar mais alto do que podem suportar nossas próprias gargantas”; esta tem sido a marca registrada dos grupos ultra-esquerdistas, que acreditam que a história começa com eles mesmos. Eles não têm senso das proporções em sua tentativa de chegar à realidade através de atalhos e panaceias. O principal papel do marxismo é ganhar a classe trabalhadora para sua bandeira e preparar forças, política e organizacionalmente, para a derrubada do capitalismo e do estalinismo. Contudo, não existe uma linha simples e direta para se chegar a este objetivo. Pode-se chegar a ele apenas na base de acontecimentos poderosos que mudarão radicalmente a consciência e a perspectiva da classe trabalhadora.

O marxismo vai desempenhar o seu papel vital de armar a classe trabalhadora com um programa, estratégia e táticas claras. Para isso, os marxistas devem participar ativamente das lutas da classe e da vida de suas organizações. Isto não significa que nos esforçamos por impor nossas ideias e nosso programa de forma artificial ao movimento, mas participando com os trabalhadores e “explicando pacientemente”, para usarmos as palavras de Lênin, nossa visão de cada etapa. Isto não quer dizer que simplesmente nos sentaremos e esperaremos os acontecimentos.

Aproximação

Nossa participação nas lutas de classe não se faz a partir de uma abordagem arrogante e sectária, mas para ajudar e apontar o melhor caminho a seguir. “Não temos nenhum interesse diferente e separado dos interesses do proletariado como um todo” (Marx). Os que permanecem fora dessas organizações estão condenados ao isolamento sectário.

Estas atitude e abordagem são essenciais para que o marxismo penetre, não apenas nos setores avançados e organizados da classe trabalhadora, como também na própria classe. Os dirigentes reformistas tentam desviar os trabalhadores do marxismo retratando-o como algo forasteiro.

Infelizmente, as ações das seitas dão algum crédito a esta acusação. De fato, nada pode estar mais longe da verdade. O marxismo sempre foi a base de apoio do movimento operário britânico, mesmo antes da criação do Partido Trabalhista. O marxismo não é um credo estrangeiro, mas, em essência, a experiência histórica generalizada da classe internacionalmente. Ele proporciona ao trabalhador com consciência de classe a doutrina e a perspectiva que podem dissipar a cortina de fumaça da classe dominante e fornecer uma explicação materialista dos acontecimentos.

Perspectivas

Em poucas palavras: os marxistas não se colocam em oposição às organizações da classe trabalhadora, mas luta ao lado dos trabalhadores para transformá-las em genuínas organizações de luta. Na Grã-Bretanha isto significa os sindicatos e o Partido Trabalhista. Não há atalhos para este problema. Não há panaceias. Tudo isto exige clareza teórica e perspectivas corretas. Na base dos grandes acontecimentos, que transformarão radicalmente a consciência da classe e destruirão todas as ilusões no capitalismo, bem como de uma “abordagem paciente”, o marxismo pode fornecer a necessária alavanca para a transformação fundamental das organizações da classe trabalhadora.

[Este artigo foi publicado pela primeira vez em Socialist Appeal (Grã-Bretanha) em 1991].

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