1. Crise global do capitalismo
A crise mundial do capitalismo é um fato que ninguém
pode ignorar. Ainda ontem os economistas nos asseguravam que a eclosão
de outra crise semelhante à de 1929 era impossível. Hoje, falam sobre a
ameaça de outra Grande Depressão. O FMI alerta sobre o aumento do risco
de uma severa retração econômica em escala mundial. O que começou como
um colapso financeiro nos EUA está atingindo a economia real, ameaçando
empregos, lares e as vidas de milhões de pessoas.
O pânico tomou conta dos mercados. Richard Fuld, o ex-presidente
executivo do Lehman Brothers, disse no congresso americano que o seu
banco fora atingido por uma “tempestade de medo”. Esta tempestade não
deu o menor sinal de trégua. Não apenas bancos, mas países inteiros
estão ameaçados de entrar em bancarrota, como ficou claro no caso da
Islândia. Presumia-se que a Ásia salvaria o mundo da recessão, mas os
mercados asiáticos foram arrastados pelo rodamoinho. Quedas acentuadas
foram registradas diariamente, de Tóquio a Xangai, de Moscou a Hong
Kong.
Este é o maior colapso financeiro desde 1929. E, assim como o grande
“Crash”, foi antecedido por uma especulação generalizada no período
anterior. A magnitude da especulação das duas últimas décadas não tem
precedente na história. A capitalização da bolsa de valores americana
passou de 5,4 trilhões de dólares em 1994, a 17,7 trilhões em 1999 e a
35 trilhões em 2007. Isto é muitíssimo mais do que o montante de
capital especulativo envolvido antes de 1929. O mercado de derivativos
mundial gira em torno de 500 trilhões de dólares, ou dez vezes mais que
toda a produção mundial de bens e serviços.
Nos anos de boom [crescimento econômico], quando os
banqueiros sucessivamente acumulavam quantidades incalculáveis de
riqueza, ninguém pensava em dividir os lucros com o resto da sociedade.
Mas agora que estão em dificuldades, correm para o governo pedindo
dinheiro. Se você for um jogador compulsivo e perder milhares de
dólares que havia pedido emprestado, e não puder pagá-los, você será
preso. Mas se você for um rico banqueiro que apostou e perdeu o
dinheiro de outras pessoas, você não será preso, será recompensado com
outros bilhões de dólares de outras pessoas através do Estado.
Deparando-se com o risco de um completo colapso do sistema bancário, os
governos estão tomando medidas desesperadas. A administração Bush
injetou US$ 700 bilhões nos cofres dos banqueiros numa tentativa
alucinada de reanimar o moribundo sistema financeiro. Isso equivale a
US$ 2.400 de cada homem, mulher e criança dos EUA. O governo britânico
anunciou um pacote de resgate de mais de £ 400 bilhões
(proporcionalmente é maior que o americano), e a União Européia
adicionou outros bilhões de euros a mais. O plano de resgate alemão
equivale a 20% do PIB da maior economia da Europa. A administração
Angela Merkel garantiu € 80 bilhões para recapitalizar bancos em
dificuldades, o restante foi destinado para cobrir as garantias dos
empréstimos e as perdas. No total cerca de US$ 2,5 trilhões já foram
despendidos em todo o mundo e isso não deteve a espiral descendente.
1.1. Medidas desesperadas
Esta crise está longe de ter sido interrompida. Ela não será detida com
as medidas tomadas pelos governos e bancos centrais. Ao lançar enormes
quantidades de dinheiro aos bancos, eles apenas conseguirão um respiro
ou alívio temporário para a crise ao custo de gerar um enorme ônus para
as futuras gerações. Mas todo economista sério sabe que os mercados
desabarão novamente no futuro.
Em alguns aspectos a situação presente é ainda pior que a dos anos 30.
A grande febre especulativa que antecedeu e preparou a atual crise
financeira foi muitíssimo maior que aquela que deflagrou o “crash” de
1929. A quantidade de capital fictício que tem sido injetada no sistema
financeiro mundial, e que age como um veneno que ameaça destruir o
sistema e tudo mais, é tão vasta que ninguém é capaz de quantificá-la.
Por tudo isso, a “correção” (o mais novo eufemismo dos economistas)
correspondente será ainda mais dolorosa e duradoura.
Nos anos 30 os EUA eram o maior credor do mundo. Agora eles são o maior devedor do mundo. Na época do New Deal,
quando tentavam re-impulsionar a economia americana depois da Grande
Depressão, Roosevelt tinha enormes somas de dinheiro a sua disposição.
Hoje, Bush depara-se com um Congresso reticente em entregar um dinheiro
que não possui. A aprovação do presente de US$ 700 bilhões aos Grandes
Negócios significa um ainda maior aumento da dívida pública. Isto, por
sua vez, significa todo um período de austeridade e cortes nos padrões
de vida de milhões de cidadãos norte-americanos.
Essas medidas desesperadas não evitarão a crise que está apenas começando. Da mesma forma, o New Deal
de Roosevelt, ao contrário do senso comum, não evitou a Grande
Depressão. A economia EUA permaneceu em estado de depressão até 1941,
quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial e o assombroso gasto
militar finalmente reduziu drasticamente o desemprego. Estamos mais uma
vez frente a um prolongado período de declínio dos padrões de vida,
fechamento de fábricas, queda de salários, cortes dos gastos sociais e
austeridade generalizada.
Os capitalistas estão num beco sem saída e não vêem alternativa. Todos
os partidos tradicionais estão perplexos a beira da paralisia completa.
O Presidente Bush disse ao mundo que “vai levar algum tempo” até que o
plano de resgate financeiro comece a funcionar. Neste ínterim, muitas
empresas quebrarão, muitas pessoas perderão seus empregos, e muitos
países serão arruinados. A crise de crédito está começando a sufocar de
maneira particular as empresas sadias. Incapazes de aumentar seu
capital, as empresas serão forçadas, num primeiro momento, a reduzir o
investimento em capital fixo, posteriormente, o capital circulante e,
por fim, demitirão.
Os empresários estão suplicando aos governos e aos bancos centrais que
cortem as taxas de juros. Mas sob tais circunstâncias isto não
resolverá. O corte coordenado de 0,5% foi seguido de outras agudas
quedas nas bolsas mundiais. A turbulência nos mercados não será
resolvida pelo corte das taxas de juros. Frente a uma recessão global,
ninguém quer comprar ações e ninguém quer emprestar dinheiro. Os bancos
param de emprestar porque não confiam em que seu dinheiro voltará. Todo
o sistema está sob a ameaça do estancamento.
Apesar dos esforços coordenados dos bancos centrais para injetar
dinheiro no sistema, o mercado de crédito permanece teimosamente
congelado. O governo britânico deu aos banqueiros um presente de mais
de £ 400 bilhões. A reação foi a queda da bolsa. A taxa de empréstimos
interbancários de fato aumentou depois do anúncio da doação e do
anúncio do Banco da Inglaterra do corte de 0,5% da taxa de juros. O
grosso dos benefícios gerados pelo corte não foi repassado aos
tomadores de empréstimos e aos mutuários. Essas medidas não resolveram
a crise, apenas levaram mais dinheiro aos bolsos das mesmas pessoas que
atuam na especulação. Se isso não foi a causa da crise, exacerbou-a
demasiadamente e lhe deu um caráter convulsivo e incontrolável.
1.2. Banqueiros nunca perdem
No passado o banqueiro era um homem respeitável vestido num terno
cinza; supunha-se um modelo de responsabilidade que submetia as pessoas
a um severo interrogatório antes de lhe emprestar dinheiro. Mas, no
último período tudo isso mudou. Com baixas taxas de juros e a liquidez
em seu mais alto nível, os banqueiros mandaram a precaução às favas,
emprestando bilhões para pessoas sem os devidos recursos e sem
garantias em troca de altas margens. Resultou na crise hipotecária das sub-prime que ajudou a desestabilizar todo o sistema financeiro.
Os governos e os bancos centrais atuam lançando gasolina na fogueira da
especulação com o intuito de evitar a recessão. Sob Alan Greenspan, o
Banco Central americano (FED) manteve a taxa de juros extremamente
baixa. Esta medida recebia diversos elogios como uma política astuta.
Com essas medidas eles adiaram o apocalipse, apenas para torná-lo mil
vezes pior quando finalmente chegasse. O dinheiro barato permitiu que
os banqueiros se entregassem a uma orgia de especulação. As pessoas
comuns pegaram dinheiro emprestado para investir em imóveis ou comprar
bens duráveis; investidores usaram a dívida barata para investir em
operações de alto rendimento, viviam da especulação em detrimento de
investimentos já existentes; os empréstimos superaram em muito os
depósitos dos clientes a um grau sem precedentes e as operações
duvidosas não foram anotadas nos balanços.
Agora tudo isso se transformou em seu contrário. Todos os fatores que
empurraram a economia para cima agora se combinaram para criar um
círculo vicioso para baixo. Como a dívida já está dada, a escassez de
crédito ameaça levar a economia ao estancamento. Se um trabalhador
comete algum erro em seu trabalho será mandado para o olho da rua. Mas
quando os banqueiros arruínam todo o sistema financeiro eles esperam
ser recompensados. Homens em belos ternos têm feito fortunas por aí a
fora especulando com o dinheiro de outras pessoas e agora querem que os
contribuintes os salvem. Esta é uma lógica muito peculiar, que muitas
pessoas terão muita dificuldade de entender.
Nos anos de boom, lucros excepcionais foram gerados pelo
setor financeiro e bancário. Em 2006 apenas os grandes bancos foram
responsáveis por aproximadamente 40% da totalidade dos lucros nos EUA.
Esta é uma indústria onde os grandes executivos são remunerados 344
vezes mais que a média dos trabalhadores nos EUA. Há 30 anos a média
salarial dos diretores executivos (CEO) girava em torno de 35 vezes o
pagamento de um trabalhador comum. Ano passado, um CEO médio das 500
maiores companhias recebeu cerca de US$10,5 milhões em “compensações”.
Os banqueiros querem que esqueçamos tudo isso e que nos concentremos na
urgência de salvar os bancos. Todas as necessidades imediatas da
sociedade devem ser colocadas de lado e toda a riqueza da sociedade
deve ser posta à disposição dos banqueiros, cujos serviços à sociedade
presumem ser mais importantes que o trabalho das enfermeiras, médicos,
professores e trabalhadores da construção civil. Os governos da União
Européia e dos EUA gastaram em uma semana o equivalente ao que seria
necessário para acabar com a fome pelos próximos 50 anos. Enquanto
milhões de pessoas passam fome, os banqueiros continuam recebendo
escandalosos salários e gratificações; mantêm um extravagante estilo de
vida em detrimento da população. O fato de existir uma crise não faz a
menor diferença.
1.3. “Em nome do interesse de todos”?
A maioria não foi convencida pelos argumentos dos banqueiros e
políticos. Estão amargamente ressentidos com o fato de que seu suado
dinheiro foi entregue aos banqueiros e ao tesouro. Mas quando estes
levantam objeções se deparam com o coro ensurdecedor dos políticos, que
lhes dizem: “Não existe outra saída”. Esse argumento é repetido tantas
vezes e com tanta insistência que silencia o mais crítico, até mesmo
porque todos os partidos concordam com isso.
Democratas e Republicanos, Social-democratas e Democratas-cristãos,
Conservadores e Trabalhistas, todos juntaram forças numa verdadeira
conspiração para persuadir a população a crer que isto foi feito “em
nome do interesse de todos”; que o trabalhador comum deve ser roubado
para colocar mais dinheiro nas mãos dos gangsteres corporativos.
“Precisamos de um sistema bancário sadio (leia-se, lucrativo)”, gritam
eles. “Precisamos restabelecer a confiança, ou então o Apocalipse virá
pela manhã”.
Este tipo de argumento pretende criar uma atmosfera de medo e pânico
para tornar qualquer discussão racional impossível. Mas em quê de fato
consiste este argumento? Deixando a sutileza de lado, isto significa
simplesmente que: enquanto os bancos estiverem nas mãos dos ricos, e
enquanto os ricos “arriscarem” seu dinheiro somente quando tiverem
altas margens de lucro, tudo vai bem. Mas, quando não estiverem
realizando lucros, e sim perdas, então o governo deve intervir e dar a
eles grandes somas de dinheiro para restabelecer seus lucros e assim
restabelecer sua confiança. E só assim tudo voltará ao normal.
O famoso economista americano John Kenneth Gallbraith resumiu esse
argumento da seguinte maneira: “O pobre tem dinheiro demais, e o rico
não tem dinheiro suficiente.” A idéia é: se os ricos estão se dando
bem, então no longo prazo as migalhas da riqueza geral chegarão a todos
os demais e todos se beneficiarão. Mas como Keynes assinalou: no longo
prazo todos estaremos mortos. E como se não bastasse, essa teoria
mostrou ser falsa na prática.
O argumento de que é absolutamente necessário injetar enormes
quantidades de dinheiro público nos bancos caso contrário acontecerá
uma catástrofe, não convence os homens e mulheres que trabalham duro.
Eles fazem uma simples pergunta: por que temos que pagar pelos erros
dos banqueiros? Se foram eles que fizeram toda essa lambança, que sejam
eles que a limpem. Deixando de lado as consideráveis perdas de empregos
no setor financeiro e de serviços, a crise bancária afeta os padrões de
vida de diversas formas. A convulsão do mercado derrubou violentamente
as bolsas e devastou a poupança dos trabalhadores e da classe média.
Para ilustrar, os planos de previdência privada americanos perderam
mais de US$ 2 trilhões. Isso significa que aquelas pessoas que
trabalharam duro toda a sua vida e pouparam dinheiro com o objetivo de
ter uma aposentadoria confortável são agora forçados a cancelar seus
planos e adiar sua aposentadoria. Mais de 50% das pessoas entrevistadas
em uma recente pesquisa de opinião disseram que estão preocupadas em
ter de trabalhar ainda mais porque o valor de seus planos privados de
aposentadoria declinou, e aproximadamente um de cada quatro disse ter
aumentado o número de horas trabalhadas.
Muitas pessoas perderam suas casas depois de passar por processos de
reintegração de posse e despejo. Se uma família perde sua casa, logo se
diz que foi o resultado de sua própria ganância e falta de previsão. A
lei de ferro do mercado e a “lei do mais forte” os condenam à rua da
amargura. Este é um problema privado e não diz respeito ao governo. Mas
se um banco entra em bancarrota por causa da voraz especulação dos
banqueiros, este é um terrível infortúnio para toda a sociedade, e
mais, toda a sociedade precisa se unir para salvá-lo. Esta é a lógica
perversa do capitalismo!
Esta vergonhosa tentativa de jogar o peso da crise nas costas de quem
menos tem, deve ser combatida. Para resolver a crise é necessário tirar
das mãos dos especuladores todo o sistema financeiro e bancário e
colocá-lo sob o controle democrático da sociedade, só assim podem
servir ao interesse da maioria, e não apenas dos ricos.
Exigimos:
• Nenhuma ajuda para os ricos. Nenhuma recompensa para os peixes
gordos! Nacionalizar os bancos e as companhias de seguro sob o controle
e administração democráticos dos trabalhadores. As decisões bancárias
devem ser tomadas no interesse da maioria da sociedade, não em nome de
uma minoria de malandros. Compensações pela nacionalização dos bancos e
outras companhias somente serão pagas em caso de comprovada necessidade
a pequenos investidores. A nacionalização dos bancos é a única maneira
de garantir os depósitos e as poupanças da população.
• Controle democrático dos bancos. O conselho diretor deve ser composto
da seguinte forma: um terço eleito pelos trabalhadores do banco, um
terço eleito pelos sindicatos para representar os interesses da classe
trabalhadora como um todo, e um terço pelo governo.
• Fim imediato das exorbitantes gratificações, o salário dos executivos
não deve ultrapassar o salário de um trabalhador qualificado. Por que
um banqueiro seria melhor que um médico ou um dentista? Se os
banqueiros não estão preparados para trabalhar sob estas razoáveis
condições, não precisam ficar, serão substituídos por outros tão
qualificados quanto e que estão procurando trabalho e desejam servir à
sociedade.
• Imediata redução das taxas de juros, que devem ser limitadas pelos
custos necessários das operações bancárias. Crédito barato deve ser
disponibilizado para aqueles que precisam: pequenos comerciantes e
trabalhadores que precisem comprar suas casas e não para os banqueiros
e capitalistas.
• Direito à moradia; fim imediato dos despejos, redução geral dos
aluguéis e um programa massivo e acessível de construção de casas
populares.
1.4. A causa da crise
A causa fundamental da crise não é o mau comportamento de alguns
indivíduos. Se isso fosse verdade a solução seria simples: convencê-los
a se comportar melhor no futuro. Isso é o que Gordon Brown quer dizer
quando pede “transparência, honestidade e responsabilidade.” Mas todo
mundo sabe que o sistema financeiro internacional é tão transparente
quanto uma fossa, a fraternidade bancária é tão honesta quanto às
convenções das Máfias e tão responsável quanto um jogador compulsivo.
Porém, mesmo que todos os banqueiros fossem santos, isso não faria uma
diferença fundamental.
Não é correto atribuir a causa da crise à ganância e à corrupção dos
banqueiros (embora, de fato, sejam extremamente gananciosos e
corruptos). É expressão da doença de todo um sistema – a expressão de
uma crise orgânica do capitalismo. O problema não está na ganância de
alguns indivíduos, nem mesmo na escassez de liquidez, muito menos na
falta de confiança. O problema é que o sistema capitalista em escala
mundial se encontra em um verdadeiro beco sem saída. A causa
fundamental da crise é que o desenvolvimento das forças produtivas está
comprimido pelos estreitos limites da propriedade privada e dos estados
nacionais. A contração do crédito é freqüentemente apresentada como a
causa da crise, mas na realidade trata-se apenas de seu mais visível
sintoma. A crise é parte integrante do sistema capitalista.
Há muito tempo, Marx e Engels explicaram:
“As relações burguesas de produção e de troca, o regime burguês de propriedade, a sociedade burguesa moderna, que conjurou gigantescos meios de produção e de troca, assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar as potências infernais que pôs em movimento com suas palavras mágicas. Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as modernas relações de produção e de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio.
Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesa. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos já fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já desenvolvidas. Uma epidemia, que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba sobre a sociedade — a epidemia da superprodução. Subitamente, a sociedade vê-se reconduzida a um estado de barbárie momentânea; dir-se-ia que a fome ou uma guerra de extermínio cortaram-lhe todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem aniquilados. E por quê? Porque a sociedade possui demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio.
As forças produtivas de que dispõe não mais favorecem o desenvolvimento das relações de propriedade burguesa; pelo contrário, tornaram-se por demais poderosas para essas condições, que passam a entravá-las; e todas as vezes que as forças produtivas sociais se libertam desses entraves, precipitam na desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da propriedade burguesa. O sistema burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio. De que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas; de outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las”.
Estas palavras do Manifesto Comunista, escritas em 1848, são tão jovens e relevantes hoje quanto no momento em que foram escritas. Poderiam ter sido escritas ontem.
O mais importante não é a questão bancária e sim a economia real: a
produção de bens e serviços. Para lucrar é preciso encontrar mercados.
Mas a demanda está em forte declínio e a falta de crédito acentua ainda
mais a queda. Deparamo-nos com uma clássica crise do capitalismo, que
já está vitimando inúmeros inocentes. O colapso dos preços imobiliários
nos EUA significa uma crise na indústria da construção, que já eliminou
centenas de milhares de postos de trabalho. A indústria automotiva está
em crise: as vendas nos EUA atingiram seu menor volume em 16 anos.
Isto, por sua vez, acarreta a queda da demanda por aço, plástico,
borracha, eletricidade, petróleo e outros produtos. Terá um efeito
devastador na economia, gerando desemprego e queda dos padrões de vida.
1.5. Anarquia capitalista
Nos últimos trinta anos ou mais, têm-nos dito que o melhor sistema
econômico possível era algo chamado de “economia de livre mercado”.
Desde os anos 70 o mantra da burguesia tem sido “deixar o mercado
fluir” e “manter o Estado fora da economia”. Presumia-se que o mercado
possuía poderes mágicos, que poderia organizar as forças produtivas sem
qualquer intervenção estatal. Esta idéia é tão velha quanto Adam Smith,
que no século XVIII falou da “Mão invisível do mercado”. Políticos e
economistas se gabavam de terem abolido o ciclo econômico. “Nunca mais booms e recessões” foi repetido incansáveis vezes.
Não restava qualquer dúvida sobre a questão da regulação. Muito pelo
contrário, exigiam enfaticamente que toda e qualquer regulação fosse
abolida, pois seriam “nocivas ao livre mercado”. Portanto, destruíram
todas as regulamentações e permitiram que as forças de mercado
reinassem livremente. A sede por lucros fez o restante: enormes
quantidades de capital foram movidas de um país a outro sem qualquer
interferência, destruindo indústrias e desvalorizando moedas com o
clicar de um mouse.
Isto é o que Marx chamou de “anarquia do capitalismo”. Agora estamos
vendo os resultados. Com US$ 700 bilhões dos EUA e mais de £ 400
bilhões do governo britânico, o Estado estará comprometido por muitos
anos. £ 400 bilhões é o equivalente a metade da renda nacional
britânica. Mesmo que isto seja pago (o que é pouco provável)
significará muitos anos de aumento de impostos, cortes de gastos
sociais e austeridade.
Uma velha lei, o instinto de manada, dita o comportamento dos mercados.
O mais leve cheiro de um leão andando entre arbustos fará com que uma
manada de gnus entre em pânico de tal maneira que nada conseguirá
detê-la. Este é o tipo de mecanismo que determina os destinos de
milhões de pessoas. Esta é a mais pura verdade da economia de mercado.
Da mesma forma que um gnu pode sentir o cheiro de um leão, os mercados
podem sentir a iminência de uma recessão. A perspectiva de uma recessão
é a verdadeira causa do pânico. Uma vez iniciada nada a deterá. Nenhum
discurso, nenhum corte de juros, e nenhuma declaração dos bancos, terá
o menor efeito sobre o mercado financeiro. Perceberam que os governos e
os bancos centrais estão assustados, e tiraram as devidas conclusões.
O pânico que se instalou nos mercados ameaça aniquilar qualquer
tentativa por parte dos governos de deter a crise. Nenhuma das medidas
desesperadas adotadas pelos bancos centrais e pelos governos obteve
êxito em deter o pânico. O mais escandaloso de tudo isso é que todas
essas pessoas que estão suplicando a assistência do Estado são as
mesmas que estavam sempre gritando que o governo não tinha lugar nos
assuntos econômicos e que se deveria permitir que o mercado operasse
sem regulação ou qualquer outra forma de interferência do Estado.
Agora, amargamente reclamam que os reguladores não estão fazendo seu
trabalho. Mas até pouco tempo atrás concordavam em que o trabalho dos
reguladores era tão simples quanto deixar o mercado sozinho. Os cães de
guarda estavam completamente certos quando diziam que não era o
trabalho dos reguladores ajudarem os bancos, pois este foi o mantra dos
últimos trinta anos. De Londres à Nova Iorque e à Reykjavík os
reguladores não tiveram êxito em controlar os “excessos” da indústria
financeira. Durante as últimas três décadas os promotores da economia
de mercado exigiram a abolição das regulamentações.
A concorrência entre os centros financeiros por negócios, supunha-se,
garantiria que o mercado funcionasse eficientemente, graças à mão
invisível do mercado. Mas a falência da política do laissez-faire
[deixar rolar] ficou impiedosamente exposta no verão de 2007. Agora,
estão inconsoláveis e lamentando as conseqüências de suas próprias
ações. A sociedade neste momento está pagando a conta das políticas
adotadas pelos capitalistas e seus representantes políticos para manter
o boom
ao inflar constantemente as bolhas especulativas. Todos estão
comprometidos com esta fraude generalizada. Republicanos e Democratas,
Trabalhistas e Conservadores, Social-democratas e ex-comunistas – todos
abraçaram a economia de mercado e aplaudiram este extravagante carnaval
de fazer dinheiro.
É muito fácil ser sensato depois do ocorrido, como qualquer bêbado de
ressaca depois de uma noite de bebedeira, juram de pés juntos que desta
vez aprenderam a lição, e que nunca mais beberão novamente – uma
excelente decisão que sinceramente pretendem cumprir – mas, tudo vai
por água abaixo quando uma nova festa se apresenta. Agora os
reguladores financeiros estão metendo o nariz em cada pequeno aspecto
relacionado aos interesses dos bancos, mas somente agora que os bancos
estão à beira do colapso. Antes, onde é que eles estavam?
Agora todos culpam a ganância dos banqueiros pela crise. Mas, ainda
ontem, estes mesmos gananciosos banqueiros eram universalmente
aclamados como os salvadores da pátria, os criadores de riqueza,
aqueles que assumiam os riscos e criavam empregos. Muitos na City Londrina e em Wall Street
estão na iminência de perder seus empregos. Mas os operadores terão
feito milhões com os derivativos de curto prazo no mercado
especulativo. Os diretores dos operadores nos conselhos de
administração deixarão que o cassino continue porque seus ganhos também
estão ligados aos resultados em curto prazo.
Tardiamente as autoridades estão tentando impor restrições aos ganhos
dos banqueiros como sendo o preço a pagar pelos planos de salvamento.
Eles fazem isso não por uma questão de princípio ou convicção, mas
porque temem a reação da população ante estes escandalosos ganhos, que
estão sendo pagos com o dinheiro público, o dinheiro está indo para
aqueles que causaram todo esse caos na economia. Os diretores se
esquecem que uma atmosfera de fúria e ódio está se acumulando na
sociedade. Na verdade, eles não estão nem aí pra isso. Mas os políticos
não podem se dar ao luxo de serem totalmente indiferentes aos eleitores
que poderão chutá-los para longe nas próximas eleições.
O problema que eles têm à frente é que é impossível regular a anarquia
capitalista. Reclamam da ganância, mas a ganância está no coração da
economia de mercado e não pode ser restringida. Qualquer tentativa de
limitar as “excessivas” remunerações, bônus etc., será sabotada. Os
mercados expressarão esse desacordo com repentinas quedas nos preços
das ações. Isto servirá para concentrar as mentes dos legisladores e
compeli-los a prestar atenção no eleitorado real, ou seja, os
proprietários da riqueza. Quando o trabalhador se sacrificar para pagar
os impostos este ano, este dinheiro estará perdido para sempre. Mas a
mesma regra não se aplica aos banqueiros e capitalistas. Mesmo que por
fim concordem em reduzir seus bônus, para manter a imagem, neste ano,
eles se recuperarão deste grande “sacrifício” aumentando seus bônus no
próximo ano. Isto não é assim tão difícil.
A idéia de que homens e mulheres são incapazes de controlar seus
assuntos de uma forma melhor que esta é uma monstruosa calúnia contra a
raça humana. Ao longo dos últimos 10.000 anos a humanidade se mostrou
capaz de superar todos os obstáculos e seguir adiante em seu objetivo
final, a liberdade. As maravilhosas descobertas da ciência e tecnologia
colocaram em nossas mãos a possibilidade de solucionar todos os
problemas que nos atormentam há séculos e milênios. Mas este colossal
potencial pode nunca ser desenvolvido em sua completa extensão, já que
está subordinado à insana busca pelo lucro.
1.6. Por uma vida melhor
Incrivelmente, em seus esforços de defender o capitalismo, alguns
comentaristas estão tentando culpar os consumidores e proprietários de
imóveis pela crise: “Todos nós somos culpados”, dizem eles, sem nem
sequer ficarem vermelhos. Depois de tudo, argumentam, ninguém foi
forçado a pegar uma hipoteca de 125% ou endividar-se para pagar suas
férias no exterior ou comprar belos sapatos. Mas, em uma situação onde
a economia está se desenvolvendo rapidamente, e o crédito está barato,
mesmo os pobres são tentados a “ir além de seus recursos.” Na verdade,
em um dado momento a taxa real de juros nos EUA esteve negativa, o que
significaria que as pessoas teriam prejuízos se não fizessem
empréstimos.
O capitalismo constantemente cria novas necessidades e a publicidade,
hoje, é uma grande indústria, que utiliza as mais sofisticadas
artimanhas para convencer os consumidores que eles precisam ter isso ou
aquilo. O extravagante estilo de vida das “celebridades” se apresenta
ante os olhos fixos dos pobres, mostram-lhes uma visão destorcida da
vida e lhes fazem uma lavagem cerebral para que aspirem a coisas que
nunca poderão ter. A hipocrisia burguesa aponta o dedo acusador para as
massas que, como Tântalos, foi condenado a assistir um grandioso
banquete enquanto era fustigado pela fome e sede.
Não é imoral nem falta lógica em aspirar a uma vida melhor. Se homens e
mulheres não aspirassem constantemente a uma vida melhor, não haveria
qualquer progresso. A sociedade afundaria em uma condição de inércia e
estagnação. Certamente, aspiramos a uma vida melhor, porque só temos
uma. E se tudo aquilo que desejássemos fosse apenas aquilo que existe
agora, a perspectiva da humanidade seria realmente sombria. O que é,
sem sombra de dúvida, imoral e desumano é a luta incessante pela
sobrevivência criada pelo capitalismo, onde a ganância pessoal é
valorizada não apenas como uma virtude, mas como a força motriz de todo
progresso humano.
A classe capitalista acredita na famosa lei da sobrevivência do mais
forte. Entretanto, para eles não se trata da sobrevivência do mais
adaptado ou mais inteligente e sim a sobrevivência dos ricos,
independente de ser fraco, estúpido, feio ou doente, e não lhes importa
se a pessoa mais perfeitamente adaptada e inteligente morra no
processo. A idéia sistematicamente cultivada é que meu avanço pessoal
somente pode ser alcançado a custo dos demais, que minha ambição
pessoal deve ser satisfeita através da perda de outros, e que para
avançar, é necessário esmagar os demais. Este violento individualismo
burguês é a base moral e psicológica de muitos dos males que afetam a
sociedade, corroendo suas entranhas e a arrastando pra baixo até o
nível do primitivo barbarismo. É a moralidade do homem lobo do homem, o
conceito de “cada um por si e Deus contra todos”.
Esta miserável caricatura da seleção natural é uma difamação a memória
de Charles Darwin. Na verdade, a chave da sobrevivência e do
desenvolvimento da raça humana desde suas origens não foi a competição
e sim a cooperação. Nossos ancestrais eram pequenas e fracas criaturas
da savana do leste africano (somos todos descendentes dos migrantes
africanos). Não possuíam fortes garras nem poderosos dentes. Não podiam
correr tão rápido quanto os animais que precisavam comer, e muito menos
eram mais rápidos que os predadores que lhes queriam comer. De acordo
com a “sobrevivência do mais forte” nossa espécie teria sido extinta há
aproximadamente três milhões de anos. A principal vantagem evolutiva
que nossos ancestrais possuíam era a cooperação e a produção social. O
individualismo sob tais condições significaria a morte.
1.7. Mudança na consciência
Aos defensores da teoria da sobrevivência do mais forte há que se fazer
uma simples pergunta: Por que não deixar os bancos, que se mostraram
completamente fracos para sobreviver, morrer? Por que salvá-los à custa
da generosidade de toda a sociedade, que antes se presumia, não
existia? Para salvar os fracos e não adaptados bancos, recorrem a
estúpidos e ineficientes banqueiros, enquanto que a maioria forte,
adaptada, inteligente e batalhadora precisa se sacrificar alegremente.
Mas a sociedade não está, de modo algum, convencida a servir a esta
causa valorosa, e muito menos a abrir mão de “supérfluos” tais como
escolas e hospitais e nem a aceitar um regime de austeridade por um
suposto futuro.
Os choques econômicos que são diariamente noticiados nos jornais e
televisões revelam um fato que está ficando claro para todos: o sistema
atual não está funcionando. Usando uma expressão americana: it is not delivering the goods
(não estão cumprindo o prometido). Não há dinheiro para a saúde, ensino
e previdência, mas para Wall Street há todo o dinheiro do mundo. Nas
palavras do maior escritor americano da atualidade, Gore Vidal, o que
temos é: “socialismo para os ricos e economia de livre mercado para os
pobres”.
Muitas pessoas estão tirando a devida conclusão de tudo isso. Estão
começando a questionar o sistema capitalista e procurando alternativas.
Infelizmente, as alternativas não são imediatamente óbvias. Nos EUA,
olham para Obama e para os Democratas. Mas Republicanos e Democratas
são as botas esquerda e direita do mesmo Grande Negócio. Mais uma vez
Gore Vidal: “em nossa República só existe um partido, o Partido da
Propriedade, com duas alas de direita”. Obama e McCain apoiaram
fielmente o plano de salvamento dos bancos de US$ 700 bilhões.
Representam os mesmos interesses com leves variações de tática.
Estes acontecimentos terão um profundo impacto nas consciências. É uma
proposição elementar do Marxismo que a consciência humana é
profundamente conservadora. As pessoas em geral não gostam de mudança.
Hábitos, costumes e rotinas desempenham um papel muito importante na
formação das perspectivas das massas, que normalmente resistem à idéia
de grandes mudanças em suas vidas e costumes. Mas quando grandes
acontecimentos sacodem a sociedade em seus fundamentos, as pessoas são
compelidas a reconsiderar suas velhas idéias, crenças e preconceitos.
Justamente agora, estamos entrando em tal período. O longo período de
relativa prosperidade dos últimos vinte anos ou mais nos países
capitalistas avançados deixou sua marca apesar da relativamente leve
recessão de 2001. Apesar de todas as injustiças manifestas do
capitalismo, apesar das longas horas de trabalho, do aumento da
exploração, do aumento da desigualdade, do luxo obsceno da indecente
riqueza ostentado lado a lado ao aumento do número de pobres e
marginalizados – apesar disso tudo, muitas pessoas acreditam que a
economia de mercado funciona e que mesmo assim serve ao benefício de
todos. Isto é particularmente verdade nos EUA. Mas, para um número cada
vez maior de pessoas isso já não é assim.
Source: Esquerda Marxista








