Introdução
A
revolução socialista volta a estar na ordem do dia! Apenas 15 anos
depois de terem declarado o fim da história e da luta de classes; 15
anos apenas depois da queda da ex-URSS, quando a classe dirigente
rejubilava com o fim dos ideais comunistas; 15 anos depois de terem
declarado o seu óbito... um espectro volta a pairar.
A revolução
venezuelana, qualquer que seja o seu resultado final, significa desde
já um ponto de viragem histórico. Marca o regresso da classe
trabalhadora ao principal palco da história e, num momento em que o
capitalismo em impasse mostra toda a sua natureza opressora e
destrutiva, a acção das massas na Venezuela revela-se inspiradora para
os trabalhadores de todo o mundo.
A imprensa burguesa clama
contra a "demagogia de Chavez" - reeleito há poucos meses, com o slogan
"socialismo venezuelano" por esmagadora maioria. Aos olhos dos
intelectuais, cronistas, jornalistas e especialistas de todo o tipo,
proporcionar assistência médica, electricidade, saneamento ou educação
a uma população totalmente carenciada é... sinal de populismo! Eis alguns exemplos do "populismo chavista":
Educação - Graças
à MISIÓN ROBINSON conseguiu-se a alfabetização de 1 milhão e meio de
adultos, tendo a UNESCO declarado a Venezuela como "território livre de
analfabetismo". A isto há que acrescentar os programas para ampliar o
acesso ao Bacharelato (Missión Ribas) e à Universidade (Misión Sucre),
a completa gratuitidade da educação a todos os níveis e a dignificação
das escolas (Liceus Bolivarianos).
Saúde - Em
colaboração com cuba, a criação dum sistema de saúde preventiva para a
população de escassos recursos - MISIÓN BARRIO ADENTRO: 200 milhões de
consultas realizadas gratuitamente até ao ano de 2006 com a
distribuição de medicamentos. Ao que há que acrescentar os planos para
a criação de mais de um milhar de Centros de diagnósticos Integrais e
Salas de Reabilitação.
Alimentação - A
MISIÓN MERCAL com mais de 15.000 estabelecimentos por todo o país,
garante a 11 milhões de venezuelanos acesso a produtos alimentares
básicos com 40% de desconto frente às cadeias comerciais. Há que
acrescentar as 6000 "Casas de Alimentação" que atendem um milhão de
pessoas diariamente e 700.000 famílias por mês.
Emprego - Desde
o início, o governo bolivariano aumentou em mais de 400% o salário
mínimo. Apesar do Lock-out patronal e da sabotagem petrolífera da
oligarquia em 2003, que fizeram disparar a taxa de desemprego para 23%,
hoje, essa mesma taxa de desemprego já se encontra abaixo dos 10%.É
tudo isto suficiente? Não! A história demonstra que, sob o capitalismo,
todas as reformas em proveito da classe trabalhadora podem ser
invertidas e anuladas - como estamos sentindo em Portugal e na Europa.
Todavia, não sendo suficiente, estes índices são ilustrativos dos
avanços sociais da Revolução. Sérios
serão, portanto, os políticos burgueses que prometem uma coisa e
executam o seu oposto... Contribuindo para furar o cerco informativo e a
propaganda da imprensa prostituída, este documento visa lançar uma
perspectiva marxista sobre a revolução venezuelana.
O que é a Revolução?
Esta
pergunta evidente raramente é colocada, mas a não ser que seja feita e
respondida, nunca estaremos em posição para determinar o que está
sucedendo na Venezuela.
Em períodos normais, as massas não
participam na política. As condições de vida sob o capitalismo colocam
inumeráveis barreiras à sua participação: as longas jornadas de
trabalho, a fadiga física e mental, o stress, etc. Normalmente, as
pessoas contentam-se em deixar as decisões que afectam a sua vida nas
mãos de outros: do político profissional, do autarca do costume ou do
delegado sindical.
Todavia, em certos momentos críticos, as
massas irrompem no palco da história, tomando as suas vidas e destino,
transformando-se de agentes passivos para protagonistas activos do
processo histórico. Alguém tem de ser particularmente obtuso ou cego
para não ver que, precisamente, essa situação existe na Venezuela: e
essa é a característica mais marcante duma revolução. Nos últimos anos,
mas mais especialmente desde o derrotado golpe anti-Chavez em 2002,
milhões de trabalhadores e camponeses têm estado em movimento, lutando
para mudar a sociedade.
É impossível compreender o processo
venezuelano se nos confinamos apenas na análise dos seus líderes, da
sua origem de classe, declarações ou programas. Isso é, na realidade,
como contemplar as ondas do Oceano que não reflectem as correntezas
profundas que se escondem sob a espuma superficial.
Porém, é
também necessário compreender que as massas - na Venezuela ou noutro
país qualquer - apenas aprendem através da experiência. A classe
trabalhadora tem de passar pela experiência da revolução, dos seus
altos e baixos, dos seus acontecimentos e reviravoltas, de modo a
distinguir as diferentes tendências, programas e lideres: a classe
trabalhadora aprende através do método de aproximações sucessivas.
O factor subjectivo
O
marxismo nunca negou o papel do indivíduo na história e, indivíduos ou
grupos de indivíduos, podem desempenhar um papel histórico
absolutamente decisivo em certas encruzilhadas do processo histórico. O
que Marx explicou - e nisso estava totalmente certo - é que, em última
análise, a viabilidade dum determinado sistema sócio-económico depende
da sua capacidade para desenvolver as forças produtivas. O actual
impasse do capitalismo reflecte, precisamente, a sua incapacidade para
desenvolver as forças produtivas como o fez no passado.
Este
facto indesmentível proporciona o largo contexto histórico no qual se
desenrolam os grandes dramas actuais da política mundial. Todavia,
neste processo geral, podem (e existem) todo o tipo de correntes e
marés, altos e baixos, nos quais o carácter dos indivíduos pode (e
efectivamente) desempenha um papel importante. E, com efeito, a
fraqueza do factor subjectivo à escala mundial está a ter um efeito
decisivo no atraso e distorção do movimento em direcção à revolução
socialista: O mais importante factor na situação presente é a ausência
duma forte liderança marxista com autoridade política à escala mundial.
Os
problemas das massas, porém, são gritantes. Estas não esperarão até que
a vanguarda comunista esteja pronta e formada. As massas tentarão, por
todos os meios, mudar a sociedade, buscando uma solução para o impasse.
Na
ausência duma tendência marxista de massas, todo o tipo de variantes
peculiares são possíveis - e, de facto, elas emergem. Uma abordagem
criativa é necessária para perceber a natureza de tais
desenvolvimentos, distinguindo a cada etapa o que é progressivo e o que
é reaccionário.
Para a mentalidade
dum sectário, a revolução deve ser conforme a um esquema predefinido.
Os sectários abordam os problemas, não como eles se apresentam, mas com
fórmulas abstractas, definições e normas universais. Estabelecem um
modelo ideal de revolução e sistematicamente rejeitam tudo o que dele
se afastar.
O sucesso da revolução venezuelana estaria, sem
dúvida, garantido se existisse um partido marxista de massas que
pudesse proporcionar ao movimento a necessária liderança, armando-o com
um programa de classe. Porém, a construção desse partido não pode ser
realizada por decreto: a vanguarda revolucionária apenas pode ganhar a
maioria submetendo-se ao teste dos acontecimentos e à aprovação das
massas. Tal não será construindo através da pregação estéril - porque à
margem - das massas e, para que consigamos ganhá-las, é necessário
compreender a natureza do movimento, o estádio de desenvolvimento em
que se encontra, as diferentes e contraditórias tendências que existem
e em que direcção se move.
As massas e Chavez
Na
ausência de um partido marxista de massas, as forças da revolução
juntaram-se em torno de Chavez e do movimento bolivariano. Hugo Chavez
é o homem no centro da tormenta. Independentemente do que dele se possa
pensar, é indesmentível que Chavez abriu as comportas da barragem.
Chavez atreveu-se a desafiar o poder da oligarquia e do imperialismo
americano. Até os seus declarados inimigos não podem negar a sua
audácia e, tendo apresentado um exemplo de coragem, acabou por conjurar
tremendas forças que permaneciam dormentes nas profundezas da sociedade
venezuelana desde há gerações. Este é um facto de tremenda importância.
Pela
primeira vez, em quase duzentos anos, as massas venezuelanas sentem que
um governo está ao seu serviço e defende os seus interesses. No
passado, os governos estavam alienados do povo e contra ele. O povo
venezuelano não deseja regressar ao velho sistema de partidos
corruptos. As massas, quer dizer, os trabalhadores, os camponeses, os
desempregados, os indígenas e pobres, foram espicaçados da sua apatia e
ergueram-se de pé. Descobriram um novo significado na vida, um novo
sentido de dignidade, uma nova esperança. De um dia para o outro,
tornaram-se "chavistas", mesmo não entendendo muito bem o que isso
significava.
Talvez as massas apenas tenham uma vaga ideia do
que realmente pretendem, mas não têm dúvidas nenhumas sobre aquilo que
não querem. As massas não querem o regresso da velha ordem, dos velhos
partidos burgueses e dos seus líderes. As massas provaram o sabor da
liberdade e não pretendem regressar à antiga opressão. Com todas as
fibras do seu ser, anseiam por uma mudança fundamental nas suas
condições de vida. Para as massas, isso é o que o "chavismo" significa.
E essa grande aspiração à mudança é, nas suas mentes, encarnada num
homem: Hugo Chavez Frias.
Muitos se surpreendem com o fervor -
quase religioso - com que as massas venezuelanas veneram o seu
presidente. Estariam, mesmo, na disposição de sacrificar as suas vidas
- como já aconteceu - por ele. Isto representa um enorme poder e
explica como Chavez foi capaz de derrotar todas as tentativas para o
derrubar. O verdadeiro segredo reside não nas suas características
pessoais, mas na força das massas e é essa força e determinação que
determina o curso da revolução e constitui o seu motor.
Os
inimigos, à direita de Chavez, são incapazes de compreender as razões
disso. A classe dominante e as suas prostitutas intelectuais jamais
poderão aceitar que as massas possuam uma dignidade própria, que são
duma criatividade enorme e capazes, não apenas de mudar a sociedade,
mas também de a administrar. Jamais poderão admiti-lo, pois fazê-lo
seria reconhecer a sua própria bancarrota e dispensabilidade como uma
supérflua e parasitária classe, como um obstáculo reaccionário ao
progresso.
Os sectários são incapazes de compreender...
Todavia,
não são apenas os burgueses os únicos incapazes de compreender a
revolução venezuelana. Muita gente de esquerda (incluindo
pseudo-marxistas) tem demonstrado uma completa incapacidade para
perceber o que se está a passar. Tendo-se proclamado como "líderes da
classe operária", vivem mortificados com o espectáculo do entusiástico
apoio das massas venezuelanas a Hugo Chavez. Resmungam pelos cantos,
protestando pelo "populismo" deste ao mesmo tempo que são incapazes de
contactar com o real movimento das massas. De resto, essa sempre foi
uma característica dos sectários em qualquer lugar e tempo...
O
que nenhum deles percebe é a dialéctica relação entre Chavez e as
massas, pois, apesar de todas as variantes, os sectários têm em comum
uma formalista e mecânica abordagem da revolução. Não a vêem como um
processo vivo, pleno de contradições e irregularidades e, não se
desenrolando a revolução conforme os seus esquemas preconcebidos,
voltam-lhe as costas em desgosto...
"Mas Chavez é um burguês" -
protestarão... Esta gente tem um modo muito simplista de ver as coisas:
preto e branco, sim e não, burguês e proletário... Mesmo numa
caracterização puramente sociológica, a definição de Chavez como um
"burguês" é incorrecta. A origem social de classe de Chavez é a
pequena-burguesia. E a pequena-burguesia não é uma classe homogénea:
nos seus extractos superiores, aproxima-se da oligarquia burguesa e
serve-a; nas suas camadas inferiores - pequenos lojistas, pequenos
camponeses, etc. - aproxima-se do proletariado e, em certas condições,
pode passar-se para a barricada da revolução socialista.
Ou como afirma o texto fundador do nosso movimento:
"Finalmente,
nos períodos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva, o
processo de dissolução da classe dominante, de toda a velha sociedade,
adquire um carácter tão violento e agudo que uma pequena fracção da
classe dominante se desliga desta, ligando-se à classe revolucionária,
a classe que trai em si o futuro. Do mesmo modo que outrora uma parte
da nobreza se passou para a burguesia, nos nossos dias, uma parte da
burguesia passa-se para o proletariado."
Karl Marx e Friedrich Engels in O Manifesto do Partido Comunista
Todavia,
a origem social de classe dos líderes não é conclusiva sobre a natureza
de classe de um determinado movimento e partido. O que, em última
instância, determina a natureza de classe dum movimento político é o
seu programa, políticas e a sua base social de apoio. Podemos, em
linhas gerais, descrever o programa e políticas do movimento
bolivariano como o da pequena-burguesia democrática. Como tal, não vai
para lá duma avançada democracia burguesa: a revolução trouxe um muito
ambicioso programa de reformas em favor das massas, mas não aboliu o
capitalismo. Esta constitui a maior e mais perigosa ameaça ao seu
futuro...
A questão do Estado
"Mas
o Estado ainda é burguês" - insistem os nossos amigos formalistas...
Enquanto a oligarquia não for expropriada, enquanto larga parte da
economia permanecer nas suas mãos, então a Venezuela permanece um país
capitalista e devemos definir a natureza de classe do Estado
venezuelano de acordo com este critério. Mais ainda, uma larga parte da
velha burocracia continua sentada nos gabinetes em que sempre
estiveram: a polícia metropolitana age como um Estado dentro do Estado
e a lealdade de muitos oficiais do exército permanece pouco clara... Isto
significa que uma mudança qualitativa ainda não teve lugar e, portanto,
a presente situação pode ser revertida... todavia, tal não poderá suceder
sem um feroz conflito e quiçá uma guerra civil...
Ainda que
verdadeira, porém, a definição geral do Estado como sendo burguês nada
nos diz sobre a real correlação de forças entre as classes ou, sequer,
sobre a realidade concreta do Estado e em que direcção se move... Na
realidade, a burguesia venezuelana - pelo menos temporariamente... - já
não controla boa parte do seu aparato de Estado: daí que a oligarquia
tenha, por mais de uma vez, recorrido a meios extra-parlamentares, isto
é, violentos e ilegais (golpe de Estado em 2002, lock-out patronal em
2003) para reconquistar as rédeas de controlo.
A maioria das
forças armadas, incluindo importantes sectores do oficialato, porém,
apoia a revolução. Isto cria enormes problemas para a burguesia e
condições potencialmente muito favoráveis para aqueles que pretendem
levar a revolução até ao fim.
Há pouco colocava-se a questão: "o
que é uma revolução?". Agora deve-se colocar outra: "o que é o
Estado?". Esta questão há muito que foi respondida por Lenine, quando
afirmou que o Estado, em última instância, é um corpo de homens armados
em defesa da propriedade: o exército, a polícia, etc. Normalmente, em
períodos estáveis, o Estado é controlado pela classe dominante.
Todavia, em períodos excepcionais, quando a luta de classes atinge o
pico de intensidade, quando a classe dominante já não é capaz de
governar como antes e a classe em ascensão ainda não é capaz de dirigir
a sociedade, o Estado adquire um grande grau de independência,
erguendo-se acima da sociedade e equilibrando-se entre as classes em
disputa. Isto pode parecer contraditório, mas apenas reflecte as
enormes contradições e conflitos que dilaceram a sociedade venezuelana.
Esta extrema polarização afecta todos os domínios da vida e,
naturalmente também, o próprio Estado: esta é a situação actual da
Venezuela.
Chavez e os seus seguidores têm-se apoiado nas massas
trabalhadoras para desferir golpes na oligarquia e no imperialismo.
Originalmente, não tinham uma perspectiva socialista, mas tão só a
ideia de varrer a corrupção e modernizar o país. Queriam uma mais justa
sociedade, mas imaginavam que isso fosse possível sem ultrapassar os
limites do capitalismo. Todavia, estes planos de reformas atraíram um
automático e sério conflito com a burguesia e o imperialismo, ao mesmo
tempo que as massas tomaram as ruas e aportaram uma dinâmica totalmente
nova ao processo. O movimento de massas estimulou Chavez e, por seu
turno, este encorajou o movimento numa direcção revolucionária.
"Mas
nós não nos podemos apoiar nos oficiais do exército" - exclamam ainda
os sectários! A ideia de que não é possível ganhar o exército para a
revolução é absurda! Se assim fosse, nenhuma revolução teria sido
possível no passado. O exército é composto por homens e mulheres, na
sua base constituído por trabalhadores uniformizados, que podem ser
influenciados pelos acontecimentos.
Em todas as grandes
revoluções do passado, o exército foi afectado pelo movimento das
massas: tende a partir-se em linhas de classe. E o fermento
revolucionário não apenas afecta os soldados, mas parte dos oficiais.
Sob condições especialmente favoráveis, boa parte do oficialato pode
ser ganha para a causa revolucionária como sucedeu em Portugal em
1974/75.
A revolução dos cravos
A
ideia de que a revolução bolivariana é única não é correcta. Claro que
tem as suas particularidades intrínsecas, mas encontra-se longe de ser
exclusivamente original: cada revolução tem aspectos que são comuns a
todas as revoluções. Se assim não fosse, seria impossível aprender o
que quer que fosse com os exemplos do passado.
Há 33 anos, um
processo similar ao bolivariano sucedeu em Portugal. Após quase meio
século de opressão fascista, o povo português derrubou Marcelo Caetano
e trilhou a estrada da revolução. Como tudo principiou? Com um golpe de
estado conduzido por oficiais de esquerda, politizados pela insana
guerra colonial que o regime fascista teimou em prosseguir em três
cenários de guerra em África ao longo de mais duma década. E isto
entrava em completa contradição com o papel tradicionalmente
contra-revolucionário representado pelo oficialato, mas era um
significativo sintoma da grande viragem da sociedade à esquerda nos
anos 60 e 70.
Como foi possível que os militares ganhassem, nos
meses seguintes tamanho protagonismo revolucionário? O vazio aborrece a
natureza e este princípio ainda se torna mais válido na política. Na
ausência dum partido marxista de massas, outras tendências, em contexto
específicos, podem - e assim sucede - preencher o vácuo político.
Inicialmente, tal como na Venezuela, os oficiais de esquerda do MFA
(Movimento das Forças Armadas) apenas tinham uma vaga ideia sobre a
necessidade de "Descolonizar, Democratizar e Desenvolver". Pretendiam
um país livre e mais justo, julgando ser isso possível sem ultrapassar
os limites do capitalismo...
Todavia, assim que os oficiais
começaram o processo e as comportas da barragem foram abertas, a classe
trabalhadora invadiu a cena dos acontecimentos, deixando-lhe a sua
marca: se a revolução em Portugal começou com a acção libertadora do
MFA a 25 de Abril de 1974, a marcha ulterior dos acontecimentos com a
actuação da classe trabalhadora desperta para a acção política a partir
do golpe dos militares, acabou por radicalizar - por sua vez - uma
parte significativa dos oficiais do MFA. Muitos deles eram homens
honestamente ganhos para a causa operária e que, sinceramente, tentaram
levar a revolução para diante, até às suas últimas consequências.
Porém... não sabiam como fazê-lo.
Todas as condições existiam
para uma pacífica revolução em Portugal, especialmente após a derrota
do golpe reaccionário de Spínola a 11 de Março de 1975 que precipitou
as nacionalizações da Banca, da grande indústria e a reforma agrária
nos campos. Mas a oportunidade perdeu-se.
Por culpa dum Otelo ou
dum Vasco Gonçalves? Não obstante os seus equívocos, a responsabilidade
do falhanço da revolução portuguesa não recai sobre os ombros dos
oficiais esquerdistas do MFA, mas sobre as políticas reformistas e
conciliadoras defendidas pelas direcções (socialista e comunista) da
classe trabalhadora. De passagem, é bom lembrar o papel miserável que
as seitas ultra-esquerdistas desempenharam (por vezes aliadas aos
sectores mais reaccionários), incapazes de - como o foram -
proporcionar uma alternativa revolucionária a tantos e tantos
trabalhadores e soldados que buscavam uma.
A teoria da Revolução Permanente
Agora
vemos um processo similar na Venezuela: na ausência duma forte corrente
marxista de massas, o protagonismo da condução da revolução recai na
figura de oficiais do exército, a frente dos quais está Hugo Chavez.
Hugo
Chavez Frias tornou-se um herói nacional quando protagonizou uma
tentativa de golpe em 1992 contra o sistema corrupto da oligarquia
venezuelana. Em consequência do golpe fracassado, passou alguns anos na
cadeia e, ao ser libertado, fundou o Movimento da Vª República. Sem uma
alternativa de classe, as massas venezuelanas depositaram a sua
confiança em Chavez e este foi eleito Presidente em 1998 com um
programa limitado de reformas: pretendia uma espécie de terceira via,
um capitalismo de rosto humano.
Porém, o impasse geral do
capitalismo verificável nos seus múltiplos sintomas - guerra,
terrorismo, instabilidade social, etc. - ainda é mais sentido nos
antigos países coloniais da Ásia, Africa e América Latina.
Na
sua teoria da Revolução Permanente, Trotsky explicava como, nas
modernas condições, as tarefas da revolução democrático-burguesa não
poderiam ser concluídas senão com o derrubamento e expropriação da
própria burguesia! A independência face ao imperialismo, a reforma
agrária, a modernização económica dum país atrasado, o seu
desenvolvimento social, a sua democratização, etc., apenas poderiam ser
alcançados com a abolição do capitalismo.
Nos países mais
avançados da Europa e da América do Norte, essas tarefas (próprias das
revoluções burguesas) tinham sido concretizadas pela própria burguesia.
Porém, nos países coloniais e semi-coloniais como era - e é - o caso da
Venezuela, a sua decadente e parasitária classe dominante, presa por
mil e um fios de interesses ao imperialismo, não era capaz de realizar
as suas próprias tarefas históricas. Que fez a burguesia venezuelana em
200 anos de história? Nada, senão enriquecer grotescamente à custa da
opressão do povo entregando o país ao saque e rapina do imperialismo e
das multinacionais.
A resolução dessas tarefas da revolução
democrático-burguesa, eram o programa do movimento bolivariano e a
evolução política do país nos últimos anos mostra, significativamente,
como a Teoria da Revolução Permanente conserva todo o seu vigor e
actualidade.
Em pleno impasse do
capitalismo, nenhuma reforma era - é! - possível na Venezuela senão em
confronto aberto com a classe burguesa. Em face das primeira tímidas
reformas empreendidas, em face duma mais justa redistribuição dos
lucros do petróleo, a burguesia venezuelana não hesitou em lançar mão
da sabotagem, da intimidação, do golpismo e da força.
O "chicote" da contra-revolução
As
massas não começam uma revolução com um claro e estruturado plano de
reconstrução da sociedade, mas apenas - e não é pouco - sentimento de
que o velho regime já não é tolerável. As primeiras fases da revolução
são inevitavelmente caracterizadas por uma sensação de euforia ou
triunfo, de irresistível avanço. Isto é acompanhado pela ideia de
"unidade", numa espécie de marcha universal em direcção à liberdade e
justiça.
Todavia, trata-se duma ilusão. A revolução
inevitavelmente choca com as barreiras e limites da ordem social
existente e das suas instituições. O que conduz ao confronto: cada
acção provoca uma reacção. A vitória inicial de Chavez (1998) não
significou uma revolução social, mas irritou profundamente a classe
dominante e estimulou um fermento geral na sociedade. A oligarquia,
compreendendo que não poderia subornar ou intimidar Chavez, decidiu
removê-lo pela força: o golpe de estado de 11 de Abril de 2002.
As
massas, porém, sublevaram-se e vieram em sua defesa, esmagando os
golpistas - no que foram auxiliadas por secções do exército e a golpada
reaccionária desabou como um castelo de cartas em apenas 48 horas.
Marx
assinalou que, por vezes, a revolução necessita de ser espicaçada pelo
chicote da contra-revolução para poder avançar: foi o que sucedeu na
Venezuela. A cada tentativa da oligarquia, as massas responderam com um
sentimento de combate e militância mais forte, determinado e consciente.
Depois
da derrota do golpe, teria sido possível conduzir a revolução
socialista pacífica e rapidamente. Infelizmente, a oportunidade
gorou-se e os reaccionários puderam reagrupar-se e provocar um lock-out
que induziu sérios problemas à economia e abastecimentos A nova golpada
foi, uma vez mais, derrotada pelos trabalhadores que tomaram as
fábricas e instalações petrolíferas, saneando os reaccionários. Uma vez
mais a possibilidade de transformação radical da sociedade esteve "à
mão de semear".
Seguiram-se a "Batalha de Santa Inês" em que a
oligarquia tentou - em vão - remover Chavez do poder através dum
referendo, o boicote às eleições legislativas e, finalmente, a eleição
presidencial de 3 de Dezembro de 2006 que terminou com uma vitória
esmagadora de Chavez: 63% dos votos, num total de 7,2 milhões contra os
3,8 milhões que obtivera nas eleições de 1998...
Cada
um destes momentos constituiu um ponto de viragem para a esquerda: em
2005 Chavez começou a defender abertamente o socialismo, tendo-se
apresentado com o slogan "socialismo venezuelano" nas últimas eleições.
Para
lá das reformas empreendidas como as "Missiones" que trouxeram médicos,
saneamento, electricidade e alfabetização aos trabalhadores, camponeses
e pobres da Venezuela, para lá do crédito barato e do crescimento do
poder de compra das massas trabalhadoras, as primeiras nacionalizações
começaram a ser empreendidas.
A situação está, neste momento
completamente polarizada à esquerda e à direita. Um enorme abismo
abriu-se entre as classes: ricos e pobres, "chavistas" e "esquálidos",
revolucionários e contra-revolucionários, confrontam-se num estado de
permanente hostilidade. A sociedade vive num atmosfera de constante
agitação, eléctrica, como na véspera duma tempestade que, cedo ou
tarde, terá de rebentar.
As massas têm aprendido rapidamente na
escola da revolução: vão retirando conclusões. A principal conclusão é
que o processo revolucionário tem de ser empurrado para diante, tem de
confrontar os seus inimigos e remover todos os obstáculos no seu
caminho. O desejo ardente de mudança que as massas alimentam, porém,
enfrenta a resistência dos elementos reformistas e conservadores
(também, presentes no movimento bolivariano) que permanentemente pedem
contenção e prudência, mas que na prática outro objectivo não têm senão
o de travar a revolução.
Os reformistas defendem que não podemos
fazer nada para provocar o imperialismo, que devemos ser cautelosos,
diplomáticos, etc. Mas o argumento de "não provocar os imperialistas" é
falso até à medula. Os imperialistas não precisam de ser provocados,
eles odeiam a revolução desde o primeiro dia, não perdendo qualquer
oportunidade para atacá-la e já organizaram vários golpes. Não é este
ou aquele discurso, esta ou aquela medida que os provoca - os
imperialistas e a burguesia venezuelana consideram a própria existência
da revolução como uma provocação. E não estarão satisifeitos até que
esta seja destruída.
Outro argumento que os reformistas gostam
de utilizar é de que é necessário ganhar as classes médias e, portanto,
não se deve ir demasiado longe nos ataques ao capitalismo. A primeira
parte da afirmação é certíssima, mas directamente entra em contradição
com a segunda metade. É igualmente possível e necessário ganhar largas
secções da classe média, mas jamais será possível consegui-lo se
seguirmos as políticas reformistas: só o socialismo poderá resolver os
seus problemas. Alguém uma vez escreveu que o "deus" da
pequena-burguesia é o poder. Quem demonstrar força e audácia, quem se
apresentar com capacidade para retirar a sociedade do impasse ganhará o
apoio das classes intermédias: sempre assim foi.
A relação de forças
A
relação de forças na Venezuela é extremamente favorável para a
conclusão da clássica revolução proletária. Com efeito, a situação está
plenamente madura para a transferência do poder para as mãos da classe
trabalhadora. Por um lado, a burguesia revelou a sua total incapacidade
para governar; por outro, a revolução não foi conduzida até ao fim. O
único possível resultado disto será o caos. Por enquanto, os altos
preços do petróleo (do qual a Venezuela é dos principais produtores)
tem servido de almofada e permitido uma "revolução em slow motion", mas
a situação não poderá durar para sempre.
O argumento de que a
Venezuela não está preparada para o socialismo não merece nenhum
crédito. A Venezuela é uma das nações potencialmente mais ricas com uma
grande abundância de petróleo e outros recursos. A classe trabalhadora
constitui a maioria decisiva da sociedade. Os trabalhadores
demonstraram já enorme coragem, criatividade e espírito revolucionário,
mostraram a sua vontade em mudar a sociedade e tomar controlo da
economia. A única coisa que falta é uma liderança.
É preciso,
também, uma aplicação enérgica da política da frente unida. Isto não
significa, de modo nenhum, a dissolução do movimento operário ou a
dissolução da corrente revolucionária numa "frente popular". Pelo
contrário, significa tão só, que a classe trabalhadora e a sua
vanguarda devem unir-se e agregar em torno da sua liderança a
pequena-burguesia revolucionária, os pequenos camponeses, os pobres da
cidade e todos os elementos progressistas da população numa batalha sem
desfalecimentos contra a oligarquia burguesa e o imperialismo.
Os
inimigos da revolução constantemente tentam quebrar ou impedir esta
união, os marxistas lutam para criá-la. Todavia - repete-se - isto não
significa que tenhamos de aceitar a liderança dos pequeno-burgueses ou
diluir as nossas diferenças com eles: "unidos mas não misturados".
O
movimento bolivariano não é monolítico mas, essencialmente, um largo
movimento de massas no qual subsistem diversas tendências e correntes.
A ala esquerda, reflectindo as aspirações revolucionárias dos
trabalhadores, pretende acelerar a revolução, derrotar a resistência da
oligarquia e armar o povo; a ala direita (reformistas e
social-democratas), na prática, deseja travar a revolução ou, pelo
menos, abrandar o seu ritmo e chegar a um compromisso com a burguesia e
o imperialismo.
Na realidade, a última opção não é,
simplesmente, possível. Não é possível chegar a qualquer compromisso
com os inimigos da revolução. Toda a lógica do processo é a de que a
cada novo avanço, se regista um novo confronto entre as classes: a
burguesia outra coisa não quer senão a reversão de todas as mudanças
operadas. Da decisão deste conflito está o destino da revolução.
Os marxistas e a revolução
Qual
deve ser a atitude dos marxistas perante esta situação concreta?
Deveremos mantermo-nos à parte, argumentando que, uma vez que a
revolução é "burguesa", nada deveríamos fazer? Mas isso seria o
equivalente a mantermo-nos neutrais na luta entre a revolução e a
contra-revolução! Tal posição seria uma deserção e traição imperdoáveis
à classe trabalhadora venezuelana.
Àqueles que constantemente
nos lembram de que os marxistas e a classe trabalhadora devem
permanecer independentes, respondemos que isso é o abc do marxismo, mas
que depois do abc existem muitas mais letras no alfabeto!
Claro
que é necessário manter a independência de classe sempre e em todas as
circunstâncias. É por isso que apelamos aos trabalhadores venezuelanos
a reforçar e construir as suas organizações de classe - sindicatos,
comités de fábrica, controlo operário, etc.
O único modo de
levar a revolução para diante é desde abaixo. Ao movimento de massas
deve ser dada uma forma de organização e expressão. Tal não poderá ser
dado sem o estabelecimento de comités de acção democraticamente eleitos
nos locais de trabalho, nos campos, escolas, bairros, refinarias, vilas
e cidades. Por sua vez, os comités devem ser unidos a todos os níveis:
local, regional e nacionalmente. Apenas isto pode lançar as fundações
dum novo poder na sociedade: a democracia operária. E este é o único
antídoto válido para pôr fim à burocracia que, instalada no aparato de
Estado e não obstante todos os seus juramentos de fidelidade à
revolução, teima em travar e sabotar o movimento revolucionário.
A necessidade dum partido revolucionário
"Temos
de construir o partido! Temos de construir o partido!" - os sectários
repetem-no como se fossem papagaios! Todavia, quando interrogados sobre
como se deve construir o partido, os papagaios emudecem... "Declarando-o,
pois claro!" Isto chega a ser verdadeiramente divertido. Então, 3
homens (ou 30...) e um papagaio bêbado juntam-se num café de Caracas e
proclamam o partido revolucionário. Óptimo! Mas e depois? "Chamamos as
massas a juntarem-se a nós!" Excelente - dizemos nós. Mas... e se as
massas não se juntarem ao "partido revolucionário", preferindo
permanecer nas suas organizações de massas bolivarianas? "Bom... -
entaramelará o papagaio - isso será um sinal do atraso da sua
consciência política!"
Esta gente tremendamente inteligente que
considera a participação dos marxistas no movimento bolivariano como um
abandono e abdicação de construir o partido revolucionário não faz, de
todo, a menor ideia de como construí-lo - seja na Venezuela ou noutro
sítio qualquer!
Aquilo que defendemos apenas vai na esteira do genuíno método de Marx, Engels, Lenine e Trotsky:
"Em que relação se encontram os comunistas com os proletários em geral?
Os
comunistas não são nenhum partido particular face aos outros partidos
operários. Não têm nenhuns interesses separados dos interesses do
proletariado todo. Não estabelecem nenhuns princípios particulares,
segundo os quais queiram moldar o movimento proletário.
Os
comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo
facto de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários
eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da
nacionalidade, do proletariado todo, e pelo facto de que, por outro
lado, nos diversos estádios de desenvolvimento por que a luta entre o
proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do
movimento total."
Karl Marx e Friedrich Engels in O Manifesto do Partido Comunista
Estas
palavras deveriam ser cristalinas mas, infelizmente, não há pior cego
do que aquele que não quer ver. A ideia de que é possível construir um
partido revolucionário fora do movimento de massas, não pode ser levada
a sério. Preferimos basearmo-nos nos métodos propostos por Marx e
Engels há 150 anos e que, como todas as ideias fundamentais do
marxismo, conservam toda a sua validade nos dias de hoje.
É
absolutamente necessário unir as forças do marxismo com o movimento de
massas. Os marxistas devem manter a sua total independência política na
defesa dos seus pontos de vista. Todavia, a independência política não
é tanto um detalhe organizativo, mas fundamentalmente uma questão de
possuir e defender um programa e um método de classe.
Os
marxistas não pretendem diluir-se no movimento de massas e tampouco
impor-se a ele: não apresentam ultimatos. O seu objectivo é
construí-lo, reforçá-lo e empurrá-lo para a frente, ao mesmo tempo que
o armá-lo com as ideias, políticas e programa necessários para derrotar
a oligarquia burguesa e o imperialismo, libertando o caminho para a
transformação socialista da sociedade.
Na
base da experiência, as massas tomarão consciência do acerto das nossas
ideias, slogans e métodos. Para nós, as únicas posições correctas são:
a) Defesa incondicional da revolução venezuelana contra a oligarquia e o imperialismo
b) Apoio crítico a Hugo Chavez contra a oligarquia burguesa e o imperialismo
c) Dentro do movimento de massas (bolivariano) apoiar a ala esquerda contra os reformistas e a social-democracia
d)
Dentro da ala esquerda e junto dos trabalhadores, os marxistas devem
defender as suas ideias, políticas e programas, lutando para ganhar a
maioria através do exemplo, trabalho e superioridade das suas ideias
Esse
é o único caminho para o sucesso! Na Venezuela, a classe trabalhadora
conhecerá a mais trágica derrota ou a mais gloriosa das vitórias: "o
assalto aos céus" com a revolução socialista!
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