Oriente Médio, Annapolis e o problema palestino: mais conversas sobre conversas

Portuguese translation of The Middle East, Annapolis and the Palestine problem: More talks about talks (December 6, 2007)

A montanha pariu um rato. Seria este o epitáfio apropriado para a conferência sobre a Palestina celebrada em Annapolis. Após quatro meses de intermináveis conversações, Condoleezza Rice, a secretária de Estado norte-americana, não conseguiu obter o que Washington e Abbas necessitam tão desesperadamente: um acordo pelo menos sobre os pontos principais de um pacto que finalmente criaria um Estado palestino ao lado de Israel.

À conferência de Annapolis assistiram 40 líderes, muitos deles de estados islâmicos sem relações diplomáticas com Israel. A Arábia Saudita enviou o seu ministro de relações exteriores, uma ação que surpreendeu muitos observadores. Este interesse inusitado por uma conferência que claramente não ia decidir nada de substancial reflete algo, e esse algo são os crescentes temores das camarilhas dominantes de todo o Oriente Médio.

Surge a pergunta de por que tantos governos decidiram assistir a uma conferência que estava condenada ao fracasso antes de seu início. As ações do imperialismo EUA tiveram resultados que eles não pretendiam. Provocaram a instabilidade geral que ameaça todos os regimes árabes existentes e isso explica o desejo de Bush de criar uma frente única sunita contra as forças xiitas encabeçadas pelo Irã.

Os sauditas não tinham opção senão comparecer. A reacionária monarquia saudita pende por um fio. Esta gang corrupta é cada vez mais impopular e tenta aferrar-se ao poder: por um lado, liberam o caminho para o fanático clero wahhabista que tem vínculos com Bin Laden; por outro, tentam tomar iniciativas com relação à Palestina, para tentar reduzir a influência xiita do Irã e do Hezbolá. Dependem excessivamente dos EUA, embora este fato lhes acarrete a acusação aberta (o que é correto) de serem títeres do imperialismo norte-americano. Não se podem permitir desafiar aos estadunidenses, que poderiam culpá-los do fracasso em Annapolis.

A política de Bush no Iraque minou ainda mais a camarilha dominante saudita. Ao eliminar o exército iraquiano, que era a única força que poderia agir como contrapeso ao Irã, Washington alterou a correlação de forças em toda a região. Esta situação beneficiou o Irã, que estendeu a sua influência entre a população xiita do Iraque e por toda a região. Esta circunstância ameaça diretamente os interesses da Arábia Saudita e dos estados do Golfo, onde as monarquias reacionárias pró-EUA estão sentadas sobre enormes reservas de petróleo. A correlação de forças na região foi destruída e toda a região está desestabilizada. Os sauditas e os outros estados do Golfo temem o crescente poder do Irã e dos xiitas. Como resultado desta situação, os EUA secretamente apóiam a formação de uma frente anti-xiita na região.

A monarquia saudita, um dos principais aliados do imperialismo EUA na região, poderia ser derrubada a qualquer momento e qualquer que seja o regime que a substitua não será amigo de Washington. Portanto, a dinastia saudita tem suplicado a Washington para ajudá-la em duas frentes: intensificando a pressão diplomática, econômica e militar sobre Teerã, e negociando alguma espécie de acordo de paz, que, esperam, resolveria a questão palestina e dissiparia algo da pressão que sofre a Arábia Saudita.

A questão palestina

A questão palestina é o centro da crise do Oriente Médio. Os norte-americanos sabem que é um fator importante na turbulência que há no Oriente Médio. Essa região é fundamental para a política exterior norte-americana, tanto por razões econômicas quanto estratégicas. Durante décadas, a questão palestina tem sido como uma úlcera purulenta que está envenenando as relações entre os estados e provocando o risco de novos conflitos, terrorismo, instabilidade e guerras. Mas são incapazes de resolvê-lo. A conferência de paz de Annapolis não solucionou nada. Na realidade, sobre bases capitalistas este problema não tem solução.

Em Washington ficariam encantados de solucionar o problema palestino, mas há vários problemas de natureza muito espinhosa. O problema principal é Israel, que, agora, é o único aliado de confiança de Washington em toda a região. O imperialismo EUA não tem muita influência sobre Tel Aviv na situação atual. Nas condições presentes, Washington propõe, mas a classe dominante israelense dispõe.

Após o colapso da União Soviética, os imperialistas norte-americanos desejavam aumentar sua influência nos países árabes. Portanto, pressionaram Israel a fazer concessões aos palestinos. Isto levou às conversações de Camp David e aos acordos de Madri e Oslo, que estabeleceram um território palestino truncado. Foi uma patética caricatura que de forma alguma satisfez as aspirações nacionais dos palestinos.

Não contentaram ninguém e o resultado foi mais violência, enfrentamentos e rancor. O governo da OLP era corrupto e repressivo. Esta circunstância levou ao crescimento do Hamas que, apesar de sua direção burguesa reacionária, se apresentava como menos corrupta que a OLP. Embora os imperialistas pretendessem defender a democracia, quando Hamas ganhou as eleições, negaram-se a reconhecê-las e cortaram toda a ajuda, provocando enormes sofrimentos e miséria.

Esta situação levou a uma divisão aberta nas fileiras dos palestinos, com Hamas tomando o controle de Gaza, aumentando o caos e a instabilidade, e com elementos de guerra civil. O que aconteceu em Gaza foi uma guerra civil entre Hamas e a OLP de Abbas. A retirada de Israel de Gaza foi um movimento tático destinado a fortalecer o seu domínio na Cisjordânia. Vemos o mesmo cinismo dos imperialistas (não somente dos norte-americanos, mas também da União Européia) quando imediatamente suspenderam os fundos para o governo de Hamas que, digam o que disserem, foi eleito democraticamente.

Tel Aviv observa com bastante satisfação como lutam entre si os palestinos e, de vez em quando, envia tanques ou aperta os parafusos econômicos somente para demonstrar quem é o chefe. Tão logo aconteceu o enfrentamento entre Abbas e Hamas, a camarilha israelense reiniciou o fornecimento de fundos para a Cisjordânia e para o títere Abu Mazen. Ela quer utilizar um dos lados para dividir os palestinos e, dessa forma, garantir o seu controle.

"O que temos, mantemos"

O lema de Tel Aviv é: o que temos, mantemos. Os sionistas não têm intenção de fazer qualquer concessão importante. Hamas alardeava que tinham expulsado o exército israelense de Gaza, o que é uma piada. A retirada israelense de Gaza foi um movimento tático para silenciar as críticas internacionais e dar a impressão de que eles estavam cedendo algo importante, quando, na realidade, não têm nenhum interesse em Gaza. O que pretendiam é fortalecer o seu domínio da Cisjordânia, que é a questão decisiva.

Os israelenses continuaram sem descanso a construção do muro monstruoso que divide o território palestino na Cisjordânia, arrebatando grandes pedaços de terra sob o pretexto de "defesa". Os colonos são cada vez mais audazes e insolentes. Após os incidentes em Gaza, nenhum governo israelense desejará enfrentar os colonos na Cisjordânia.

Em seguida, está o pequeno problema de Jerusalém, que, tantos os judeus quanto os árabes, reivindicam ser sua capital natural dada por Deus. Quanto ao direito de regresso dos palestinos expulsos de seus lares desde 1948, Israel não aceita sob nenhuma condição o seu regresso, visto que alteraria completamente o equilíbrio demográfico do "estado judeu".

Por essas razões, as "discussões" de Annapolis terminaram de forma não conclusiva. Rice teve de se conformar com menos do que esperava. Os palestinos e israelenses apenas estavam de acordo em uma coisa: novas conversações. Estas começarão em 12 de dezembro. Mas a pergunta é: conversar sobre o quê? Tel Aviv não está disposta a fazer concessões em nenhuma das questões fundamentais e Washington não está disposto a pressionar seriamente Tel Aviv.

Essas reuniões não servem para nenhum propósito útil, exceto proporcionar ao presidente Bush e a Condoleezza Rice oportunidades de serem fotografados e de demonstrar ao mundo inteiro que "algo se faz" para resolver a questão palestina. Enquanto isso, pretende-se que os EUA monitorarão ambos os lados para o cumprimento do "mapa do caminho" do plano de paz de 2003, em que se estabelecia que Israel congelaria a construção de assentamentos na Cisjordânia e, ao mesmo tempo, a Autoridade Palestina (AP) empreenderia ações contra os militantes que atacam Israel.

Isto significa que os EUA desempenham o papel de árbitro no conflito com o consentimento mútuo dos dois lados opostos. Os EUA aceitaram supervisionar que ambos os lados cumpram o "mapa do caminho" e este fato tem sido apresentado como uma vitória para os palestinos, porque no passado Israel, de fato, vinha sendo o árbitro do cumprimento. Mas o que se pode obter na situação dada é muito pouco. O árbitro numa partida de futebol deve ser neutro e aí reside a sua autoridade para decidir os problemas. Mas, se este árbitro claramente se inclina para um dos lados, então esta "arbitragem" não vale muita coisa.

Uma "conveniente impressão equivocada"

O próximo teste está aí: que fará Olmert com os aproximadamente 100 postos de controle não "autorizados" criados pelos colonos mais intransigentes? O "mapa do caminho" estabelece que ele deve desmantelar uns 60. Mas as tentativas anteriores de fazê-lo provocaram enfrentamentos violentos entre a polícia e os colonos, e estes estão se reagrupando para o enfrentamento total depois de perder, em 2005, sua luta por ficar em Gaza.

É possível que possa fazer alguma pressão sobre os colonos (afinal, estes são apenas peões no jogo de xadrez e os peões sempre podem ser sacrificados para se ganhar objetivos mais importantes). Mas o que é impensável é a liquidação total dos assentamentos judeus na Cisjordânia. Os colonos são fanáticos bastante capazes de provocar sérios distúrbios tanto na Cisjordânia quanto no próprio Israel, e nenhum governo israelense gostaria de correr o risco de tal desestabilização. O problema dos colonos, portanto, continuará presente como uma provocação permanente aos palestinos. É difícil ver que papel de "árbitro" pode ser desempenhado nesta questão.

Os EUA nomearam um general, James Jones, como enviado de segurança à Autoridade Palestina. Este ato não significa muito. E está claro que Israel não tornará fácil o seu trabalho. Um funcionário israelense disse que qualquer impressão de que Olmert planeja o congelamento total da construção de novos assentamentos, como estipula o "mapa do caminho", é uma "conveniente impressão equivocada". Este é um pequeno detalhe, mas muito significativo. Revela a falsidade da diplomacia norte-americana. De fato, tudo se resume a isto: uma impressão equivocada conveniente.

Onde o "árbitro" será implacável é no capítulo referente à tomada de medidas enérgicas contra os militantes. As enormes quantidades de dinheiro que os norte-americanos estão enviando à Autoridade Palestina não são grátis. Esperam algo em troca. Esperam que Abbas esmague os militantes palestinos e, assim, preparar o caminho para um acordo que acabe com as aspirações palestinas. Por isso, já há muitos meses, Washington tem estado a armar a Autoridade Palestina e a treinar as suas forças de segurança. É a preparação para uma guerra civil que eles sabem que chegará.

A leitura israelense do "mapa do caminho" é que a AP deve desmantelar totalmente os grupos terroristas antes de se chegar a um acordo sobre o status final que devem alcançar as duas partes e exigirá cumprimento total antes de considerar novos passos. Mas esta medida está além das possibilidades reais de Abbas, que teme que um conflito sério com Hamas possa levar ao colapso completo de suas forças armadas. Por essa razão, os palestinos insistem no argumento de que apenas precisam começar a tarefa de "restaurar a ordem".     

Contudo, tanto Israel quanto os EUA têm interesse em chegar a algum tipo de acordo sobre a questão palestina. Para isso, eles podem falar e falar, mas qualquer que seja o acordo a que cheguem, este será contrário aos interesses dos palestinos.

Eles estiveram cultivando o "líder" palestino Mahmoud Abbas como um títere submisso para colocar sua marca sobre qualquer que seja o acordo a que cheguem entre eles. Mas não é fácil! Para Abbas, como para a maioria das pessoas, seria muito bom chegar à velhice, mas também teme ele perder ainda mais apoio entre as massas palestinas do que já perdeu. Não se pode permitir ser visto como alguém que capitula abertamente às exigências de Washington e Tel Aviv. Mas, no final, não terá outra opção.

Depois da divisão aberta com Hamas, Abbas recebeu o apoio generoso dos EUA. Washington é o seu banqueiro e pagador, criando uma dependência total. Tudo o que pode fazer é arrastar os pés e queixar-se o mais alto que possa para silenciar as críticas que (corretamente) o caracterizam como um títere norte-americano. Já houve furiosos protestos de Teerã, do Hezbolá e de Hamas. Mas a ameaça mais séria para Abbas está nos próprios palestinos.

Annapolis não resolveu nada

Portanto, as atuais conversações não solucionaram nada, nem tampouco poderiam solucionar. Este conflito é tão profundo e inflamado que não se pode resolver com conversações. Inclusive quando se retomem as conversações em dezembro, como poderão ser resolvidas questões importantes como as fronteiras do estado palestino, a divisão de Jerusalém, o destino dos 4,5 milhões de refugiados palestinos no exterior, a repartição da água e outras questões ardentes?

O objetivo declarado é o de concluir um "acordo final" dentro de um ano. Mas não é possível se chegar a algum acordo que possa ser aceito pelos palestinos e Israel. Olmert está seguro de que Tel Aviv tem todas as cartas nas mãos. Por essa razão, está muito feliz em seguir em frente com esta farsa diplomática. Em Annapolis, deram-lhe instruções para manter conversações privadas com Abbas. Mas não ficou claro o que têm de conversar estes dois homens.

Abbas está desesperado para que os israelenses façam concessões. Olmert somente dará o suficiente para manter em marcha o processo de paz; dessa forma, não molestará os estadunidenses. Mas não dará demasiado para não provocar os partidos de direita e evitar que estes abandonem a coalizão. Estes últimos deixaram claro que não estão dispostos a fazer concessões sobre as questões fundamentais. Por exemplo: apresentaram uma lei parlamentar que dificultaria muito ainda mais a Israel conceder qualquer coisa à AP com relação a Jerusalém.

Por seu lado, Abbas conseguiu em Annapolis muito menos do que esperava. Cada vez mais depende das boas intenções (e dólares) de Washington para se manter. Esta incômoda relação fortalece as acusações de capitulação que cobram mais força ao passar dos dias. As forças de segurança da Autoridade Palestina reprimiram com violência as manifestações anti-Annapolis que se celebraram na Cisjordânia.

Esta é uma advertência do que está por vir. Longe de conseguir um verdadeiro acordo de paz para a criação de um estado palestino, Annapolis somente trará mais conflitos, caos e derramamento de sangue. Os imperialistas estão preparados para isso e enviam a Abbas armas, dinheiro e treinamento de suas forças armadas. Querem que atue como uma polícia que esmague os militantes palestinos, não somente de Hamas, mas também trabalhadores estudantes e militantes de esquerda.

A situação é um pesadelo para as massas palestinas que não vêem saídas. A tática de Hamas não resolve nada e apenas reforça a posição dos imperialistas israelenses, proporciona-lhes desculpas para outros atos de agressão e repressão sem sequer provocar um pequeno amasso em sua armadura. Cada foguete de Hamas que atinge solo israelense é mais um argumento para os sionistas que dizem: "os palestinos estão decididos a matar a todos nós".

Esses foguetes não são precisos e podem cair em qualquer lugar. Cedo ou tarde, um deles impactará sobre uma escola, hospital, mercado ou qualquer lugar israelense cheio de gente. Então, o exército israelense responderá com força devastadora. Não se pode descartar que inclusive reocupem Gaza, embora provavelmente permanecessem somente por tempo suficiente para provocar muito dano e sair o mais rápido possível.

O fato de que os imperialistas tenham escolhido Tony Blair como enviado para o Oriente Médio é em si mesmo uma prova eloqüente de que não têm a menor idéia de como resolver o problema palestino. Mas nem a OLP, nem Hamas podem mostrar uma saída ao beco sem saída que, claramente, tende a se converter numa guerra civil entre os palestinos, deixando um legado de amargura que durará muito tempo. Se os palestinos lutarem entre si, os únicos ganhadores serão os imperialistas israelenses, que regozijados esfregarão as mãos.

Toda a região encontra-se desestabilizada

Como um elefante numa loja de porcelana, o imperialismo norte-americano enlouqueceu toda a região, destruindo totalmente os elementos de estabilidade que antes existiam. Agora, cercado por pedaços de louça quebrada e com medo de quebrar outros pratos valiosos, o presidente George Bush convoca uma conferência com a esperança de colar os pedaços quebrados.

George W. Bush e Condoleezza Rice sinceramente desejam a paz no Oriente Médio, uma paz sob o controle dos EUA. O problema é que os dois objetivos são mutuamente excludentes: ou se tem a paz ou se tem o domínio norte-americano, mas não se pode ter as duas coisas.

O imperialismo norte-americano busca o fortalecimento de seu domínio na região como uma parte fundamental de sua política de dominação mundial. A invasão criminosa do Iraque pretendia, entre outras coisas, estabelecer uma cabeça de ponte norte-americana confiável e firme no Oriente Médio. Não conseguiu o seu objetivo e somente conseguiu provocar uma onda de instabilidade por toda a região.

A "diplomacia" de George Bush

O fracasso de Annapolis é outra manifestação do absoluto fracasso da política estadunidense no Oriente Médio. Vão dando tombos de um desastre a outro, de uma asneira diplomática e militar a outra. Esta situação teve um efeito profundo nos EUA, não somente no conjunto da população, como também na própria classe dominante. George Bush não somente perdeu o apoio da população, também a própria classe dominante norte-americana começa a mostrar sinais de impaciência.

Há um ano, o establishment norte-americano tentou exercer algum controle sobre a política exterior de George Bush, que agora vê que é um desastre. Foi criado o Grupo de Estudos Iraquianos, sob a liderança de um veterano político e diplomata: James Baker. Dentro dos limites impostos pelo caos geral, eles fizeram propostas razoavelmente sensatas. Em primeiro lugar, admitir que os EUA perderam a guerra no Iraque e retirar-se o mais cedo possível. Em segundo lugar, negociar com a Síria para cobrir a retirada dos EUA em troca de concessões que servissem aos seus interesses no Iraque.

George Bush ignorou este conselho sensato. Em vez de se retirar do Iraque lançou a "vaga", enviando mais 21 mil soldados a Bagdá. Exatamente como os generais na I Guerra Mundial, que sempre estavam planejando "o último empurrão" para sair do ponto morto. Todas as vezes terminou em um massacre. Em lugar de abrir linhas de comunicação com Damasco e Teerã, intensificou os seus ataques belicosos contra ambos.

Bush tinha outra possibilidade para melhorar as relações pelo menos com os sírios. Estes últimos não desejam contrariar Washington. Não querem ser bombardeados nem invadidos! A decisão síria de enviar o seu vice-ministro de relações exteriores, cargo inferior a de um negociador completo, contudo mais importante que somente uma presença de testemunho, em troca de uma simples discussão simbólica em Annapolis sobre a paz sírio-israelense, parecia indicar que a Síria deseja chegar a algum acordo com Washington.

Se o atual inquilino da Casa Branca tivesse o menor lampejo de inteligência, aproveitaria a oportunidade para colocar a Síria de seu lado, fazendo concessões ou pelo menos se abstendo de fazer novos ataques. Que fez George W. Bush? Atacou publicamente a Síria; ou seja, em lugar de convidar os sírios a entrar, deu-lhes com a porta nos narizes.

Os estadunidenses pensavam que estavam sendo inteligentes quando projetaram a derrubada do regime pró-Síria no Líbano. Mas tudo o que conseguiram fazer foi afundar o país no caos e na guerra, criando as condições para o ressurgimento do enfrentamento civil. Agora, o Líbano está num ponto morto para a eleição de seu presidente. Com atraso, algumas pessoas em Washington deram-se conta de que o papel da Síria é crucial. É possível que a decisão de convidar Damasco a enviar um representante a Annapolis seja o reconhecimento deste fato.

Os norte-americanos precisam da Síria para evitar que o Líbano exploda numa guerra civil aberta. Mas George Bush é demasiadamente estúpido e míope para compreender as realidades da diplomacia mundial. Não ofereceu à Síria nenhuma concessão para garantir o seu apoio; em vez disso, fez a Damasco uma censura com o seu discurso. Fez uma referência desnecessária à necessidade que tinha o Líbano de ter eleições "livres da interferência e intimidação externas". É assim como a Casa Branca compreende a "discreta arte de fazer amigos e influenciar pessoas".

Revolução: a única solução

Em meio a tudo isto, apareceram revelações alarmantes na imprensa relacionadas com o Irã, o outro "estado delinqüente" favorito do presidente. Fontes anônimas revelaram que a inteligência norte-americana tinha estabelecido já há algum tempo que o Irã não tinha possibilidades imediatas de conseguir capacidade militar nuclear. Isso era exatamente o contrário do que Bush estava dizendo nos últimos meses. Na realidade, tem estado dizendo que era necessário empreender ações imediatas contra o Irã porque a qualquer momento poderia adquirir armas nucleares.

Quem estava por trás destas revelações? Quem quer que tenha sido, foi alguém em posição elevada e com acesso privilegiado às informações sensíveis de inteligência. Parece muito provável que um setor do establishment tenha decidido impedir uma nova aventura militar no Oriente Médio mediante a liberação de informação que deixa a descoberto toda a propaganda da administração sobre o tema, como aconteceu com as velhas mentiras sobre as "armas de destruição massiva" do Iraque.

Como Bush reagiu? Corrigiu a propaganda enganosa sobre o arsenal nuclear imaginário de Teerã? Anunciou imediatamente o abandono de qualquer plano de atacar militarmente ao Irã? Não, não o fez. Repetiu as mesmas velhas ameaças sem sentido contra o Irã e as redobrou. E Tel Aviv se uniu afirmando que sua própria inteligência contradizia os informes de Washington. Evidentemente, os falcões de Israel estão entusiasmados com a perspectiva de dar um escarmento sangrento ao Irã e não querem que ninguém estrague a sua diversão.

Contudo, parece que a perspectiva de um ataque aéreo conta o Irã diminuiu, pelo menos por enquanto. Esta circunstância não convém absolutamente a Ahmadinejad. O apoio que tem está em rápida erosão dentro do Irã, e sua única esperança era a de seguir tocando os tambores de guerra sobre o perigo de uma invasão norte-americana para desviar a atenção das massas de seus problemas mais urgentes e, dessa forma, salvar o seu regime. Fez uma declaração pública a esse respeito: disse que as novas revelações desmascaram Bush como um mentiroso (o que é verdade) e justifica totalmente a política de seu regime (o que não é).

Este fato facilitará o desenvolvimento de um movimento amplo de oposição dos trabalhadores e estudantes iranianos, que já começou e está destinado a transformar toda a vida política da região no próximo período. A revolução iraniana eliminará a atmosfera estancada e irrespirável de reação que assola a região. Quebrará o jugo do fundamentalismo religioso e empreenderá decididamente o caminho do socialismo e do poder operário.

Em muitos países a classe trabalhadora, depois de anos de desalento e esgotamento, está empreendendo o caminho da luta. Vemos isto na impressionante onde de greves no Egito, mas também em Marrocos, Jordânia, Líbano e mesmo Israel. É necessário colocar na agenda a luta por uma política da classe operária, pela solidariedade proletária internacional e a luta pelo socialismo como a única solução duradoura para os problemas das massas.

É essencial que a juventude revolucionária da Palestina compreenda isto. Se aceitarmos o argumento de que a sociedade israelense é somente uma massa reacionária, então a causa do povo palestino estaria perdida para sempre. Mas não é verdade! Em Israel há ricos e pobres, exploradores e explorados, como em todos os países. É necessário trabalhar para forjar vínculos entre os revolucionários da Palestina e as massas de Israel, tanto de judeus quanto de árabes. Esse é o único caminho para se colocar uma cunha entre a reacionária classe dominante sionista e as massas.

Dizem-nos que isto é impossível. Não é verdade! Em mais de uma ocasião no passado houve provas claras de que a mensagem dos territórios ocupados encontrou eco nas massas de Israel. Quando do massacre de palestinos no Líbano, houve enorme manifestação de protesto em Israel. Na primeira Intifada, houve sinais claros de descontentamento em Israel, inclusive nas forças armadas.

Táticas como a de atentados suicidas e de lançamentos de foguetes sobre objetivos civis são equivocadas porque são contraproducentes. Por cada cidadão israelense assassinado, eles matarão muitos mais palestinos. Não fazem nenhum dano à maquinaria militar israelense e são uma ajuda extraordinária à classe dominante e ao Estado israelenses. Mas ao empurrar as massas em direção ao estado sionista, estas táticas fortalecem precisamente o que pretendiam destruir.

Lutamos pela revolução socialista em todo o Oriente Médio e Irã, o Golfo e o norte da África. Lutamos contra o imperialismo, o principal inimigo de todos os povos. Mas também lutamos contra o latifúndio e o capitalismo, os principais agentes do imperialismo. Opomo-nos ao fundamentalismo religioso que tenta desviar os sadios instintos antiimperialistas das massas em direção ao beco sem saída do fanatismo religioso e o obscurantismo reacionário. Defendemos o poder operário e o socialismo, uma nova ordem social que expresse os interesses das massas. Defendemos a criação de uma Federação Socialista do Oriente Médio, onde árabes e judeus tenham território garantido em repúblicas socialistas autônomas. Essa é a única alternativa real!

Não há solução possível à questão palestina na base de truques e negociatas com o imperialismo. A única solução possível é dividir Israel em linhas de classe: romper o domínio total do sionismo reacionário. Mas isto exige uma posição de classe. É difícil defender esta posição nas circunstâncias atuais, mas os acontecimentos proporcionarão aos marxistas as oportunidades para que as massas sejam conscientes da inutilidade dos velhos métodos. Enquanto isto é necessário explicar pacientemente nossas idéias aos elementos mais avançados. No futuro, nossas idéias encontrarão um eco entre as massas.

Londres, 6 de dezembro de 2007.

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