A falsa promessa de Davos de um “Grande Reinício” revela o medo da revolução

Os recentes anos de turbulência política deixaram a classe dominante perturbada. Estão enfrentando ondas de protesto e instabilidade sem precedentes. Estão, agora e cada vez mais, desesperadamente tentando estabilizar a situação utilizando os gastos do Estado e outras concessões. Foi isso que se viu no Fórum Econômico Mundial no mês passado.


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As colinas nevadas de Davos são visitadas pelos ricos e poderosos do mundo uma vez ao ano para o Fórum Econômico Mundial. Este ano a pandemia os reuniu on-line. Este evento on-line, obviamente, não constituiu o circo completo que normalmente pousa nos Alpes Suíços (lembrar que o ingresso custa 19 mil dólares/por cabeça). Foi um evento público em escala reduzida, sem nenhuma das conversas ou networking “não-oficial”.

Apesar disso, o evento contou com a presença de chefes de governo eleitos e não eleitos de todo o mundo, bem como CEOs de grandes empresas multinacionais.

O tema deste evento foi “The Great Reset” [“O Grande Reinício”]. Recebeu o nome do livro do fundador Klaus Schwab deste verão, gentilmente copatrocinado pelo Príncipe de Gales, Charles Windsor, o herdeiro do trono inglês. O livro circulou e até provocou uma onda de teorias da conspiração em torno dele, incluindo comentaristas de direita que não conseguiam decidir se achavam que era quase fascismo ou comunismo (Rowan Dean, no Australian Sky News, por exemplo). Evidentemente, não é nenhum dos dois casos.

Schwab e seus seguidores estão preocupados com a falta de progresso no tratamento de questões como a mudança climática e a desigualdade. Veem a resposta à pandemia como uma oportunidade para “reiniciar” o capitalismo e devolver alguma estabilidade. O alerta que dão é que se trata de mudar ou ser mudado:

“Deixar de abordar e de corrigir os males profundamente enraizados de nossas sociedades e economias pode aumentar o risco de que, como ocorreu ao longo da história, em última análise, uma reivindicação seja imposta por choques violentos como conflitos e até mesmo revoluções. É nossa responsabilidade pegar o touro pelos chifres. A pandemia nos dá esta chance: ela ‘representa uma rara, mas estreita janela de oportunidade, para refletir, reimaginar e redefinir nosso mundo’.”

É uma advertência bastante severa para a classe dominante mundial: se você seguir o mesmo caminho que vem percorrendo desde os anos 1980, enfrentará conflitos violentos e até mesmo revoluções. Esta é a oportunidade de mudar e é hora de aproveitá-la, argumenta Schwab.

Qual é o remédio oferecido? Schwab oferece um “capitalismo de partes interessadas”, em que os acionistas nem sempre são colocados em primeiro lugar, mas, em vez disso, todas as partes interessadas devem ser consideradas, incluindo o meio ambiente, os trabalhadores e os consumidores. O tipo de medida de que se fala são impostos ambientais, impostos sobre as empresas, a educação e massivos investimentos verdes.

Em muitos sentidos, eles estão ecoando os sentimentos apresentados pelo FMI, pela ONU e outras grandes instituições internacionais, que têm insistido em investimentos massivos em saúde para lidar com a pandemia, bem como em gastos deficitários massivos.

O efeito pandêmico e o afastamento de Friedman

Quando a pandemia eclodiu para valer, em março do ano passado, a classe dominante ficou encurralada. Eles poderiam enfrentar um colapso dos sistemas de saúde, dos sistemas de assistência social e de muitos outros aspectos da sociedade civilizada; poderiam fechar a economia e deixar milhões desempregados ou poderiam emitir grandes dívidas para financiar a economia enquanto esperam por uma vacina. No final, escolheram o último.

No ano passado, os governos gastaram mais dinheiro do que nunca em tempos de paz, mais do que o dobro do que gastaram na crise de 2008-09. Déficits massivos foram acumulados sem perspectivas à vista de equilibrar as contas. A dívida pública atingirá níveis recordes este ano, ainda mais altos do que no final da Segunda Guerra Mundial. Os bancos centrais imprimiram trilhões para manter empresas e governos à tona, muitos dos quais nunca serão reembolsados. Temendo que a bolha estourasse, eles a inflaram ainda mais.

O que temos é uma mudança em grande escala para o keynesianismo. De repente, pessoas como Krugman se tornaram moda, e há até um interesse crescente na economia otimista da Teoria Monetária Moderna.

É uma mudança significativa. Durante décadas, as ideias de Milton Friedman dominaram o pensamento da classe capitalista. Ele achava que a Grande Depressão foi causada pela má gestão do governo e, geralmente, que, quanto menos os governos fizerem, melhor. Isso também foi extremamente benéfico para “os resultados financeiros”, ou seja, os lucros. Disseram-nos que, se os ricos ficassem realmente ricos, alguma dessa riqueza “gotejaria” para os mais pobres da sociedade. Uma mentira, é claro, mas era uma mentira oficial, ensinada em todas as salas de aulas de economia do mundo. O Estado era ruim; a iniciativa privada, boa.

O colapso de Lehman Brothers, em 2008, colocou um grande ponto de interrogação sobre essa ideia. De repente, todos os bancos correram para o Estado em busca de ajuda. Quanto maior e mais ultrajante a demanda, maior a probabilidade de ser atendida. As grandes instituições financeiras mantinham governos reféns, ameaçando colapsos e calamidades se não recebessem centenas de bilhões de dólares, o que, de fato, lhes foi concedido. Foi demais para a empresa “livre”.

Quando o monetarismo e Friedman estavam em seu auge, em meados da década de 1990, Ted Grant previu sua iminente morte:

“’Cada ação tem uma reação igual e oposta’. Esta lei se aplica não apenas à física, mas também à sociedade. O impulso para a privatização chegará ao seu limite. Isso já está começando a acontecer na Grã-Bretanha. A certa altura, a tendência para a estatização vai se reafirmar” (Ted Grant – O colapso do stalinismo e a natureza de classe do Estado russo).

Na realidade, isso revelou o que os mercados financeiros claramente haviam dado como assentado, que alguns bancos eram simplesmente grandes demais para quebrar, e o Estado (governo e banco central) era o último fiador do sistema bancário. Durante décadas, governos e comentaristas da mídia insistiram que não havia dinheiro para hospitais, escolas, auxílio-doença etc. Agora, de repente, havia centenas de bilhões disponíveis para os bancos.

Ben Bernanke, o então presidente do Federal Reserve, expressou em particular que ficou surpreso nesse momento por não haver reações mais violentas, mas reconheceu que a reação veio depois de certo atraso, iniciando com movimentos como o Ocupe Wall Street. Essa falta de resposta precoce da classe trabalhadora provavelmente deu à classe dominante a confiança para tomar medidas mais audaciosas.

A partir de cerca de 2010, após o choque inicial, houve um esforço determinado para fazer com que os trabalhadores pagassem pela crise com a austeridade. Isso afetou mais obviamente os trabalhadores do setor público, mas também teve um impacto severo sobre os trabalhadores do setor privado. Precarização, ataques às pensões e aposentadorias e aos benefícios trabalhistas, bem como aos salários, alimentaram o que a mídia chamou de “reação populista”.

Em termos marxistas, o que estava acontecendo era o seguinte: a sociedade capitalista foi fortemente abalada pela crise de 2008, começando pela economia. Para tentar consertar a situação econômica, empresas e governos lançaram um ataque às condições dos trabalhadores e ao estado do bem-estar. Isso, então, levou a ondas de protestos em massa e a uma grande instabilidade eleitoral, com os eleitores mudando para novos partidos e os velhos partidos sendo descartados ou transformados. Assim, a velha ordem política estava sendo destruída. Em outras palavras, a tentativa de restaurar o equilíbrio econômico perturbou o equilíbrio político e social. A classe capitalista e seus representantes pagariam, entretanto, por seu excesso de confiança.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) produziu um índice de protestos em massa neste verão. Foi a primeira vez que fizeram isso e foi claramente uma tentativa de entender o ritmo dos acontecimentos. Usando um vasto banco de dados de artigos de jornais em vários idiomas, eles modelaram a ascensão e a queda dos movimentos de protesto desde os anos 1980. Não é novidade que 2019 viu o culminar da maior onda de protestos do índice, espalhada por todo o mundo. O único período que se aproximou desse nível de protesto foi durante a Primavera Árabe, mas foi menos generalizado.

Instabilidade crescente

Referindo-se à evolução do índice em 2020, o FMI comentou em seu World Economic Outlook em outubro que os protestos haviam diminuído por causa da pandemia, mas eles não achavam que isso iria durar:

“É razoável esperar que, na medida em que a crise enfraquece, a agitação pode reaparecer em locais onde antes existia, não por causa da crise da Covid-19 em si, mas simplesmente porque questões sociais e políticas subjacentes não foram resolvidas. As ameaças também podem ser maiores onde a crise expõe ou agrava problemas, como falta de confiança nas instituições, governança deficiente, pobreza ou desigualdade.”

No entanto, mesmo durante a pandemia, 2020 viu possivelmente os maiores protestos de todos os tempos nos EUA, com dezenas de milhões participando dos protestos Black Lives Matter, o que acidentalmente faz com que os apoiadores de Trump que invadiram a capital pareçam bastante patéticos em comparação. Se 2020 foi um ano ruim para a estabilidade política, como aponta o FMI, os próximos anos provavelmente serão piores.

A confiança no establishment está em baixa. Em uma pesquisa realizada pela Edelman PR em 27 países, 57-59% pensam que os líderes governamentais, líderes empresariais e jornalistas estão enganando as pessoas propositalmente. Uma profunda preocupação com o futuro está subjacente a isso: 84% estão preocupados com a perda de empregos (53% estão com medo); 54% trabalham em uma empresa onde houve perda de empregos ou onde os trabalhadores tiveram jornada reduzida; 56% temem que a pandemia acelere a taxa de substituição de trabalhadores por Inteligência Artificial ou robôs.

No ano passado, antes da pandemia, a mesma empresa de relações públicas revelou que 56% dos entrevistados pensavam que “o capitalismo hoje faz mais mal do que bem no mundo”; que 74% expressaram um sentimento de injustiça, 73% um desejo de mudança e 48% que “O sistema está falhando comigo”.

No entanto, não são apenas os protestos. O mesmo mal-estar na sociedade burguesa é evidente no parlamento. As rápidas oscilações da opinião pública e a crescente polarização estão desestabilizando parlamentos em todos os lugares. No Ocidente, o exemplo mais notável é o dos Estados Unidos, onde cerca de dois quintos do Congresso votaram a favor de não reconhecer o resultado da eleição presidencial e a maioria tentou o impeachment do presidente cessante por organizar uma insurreição. O único precedente desse evento em que poderiam pensar os historiadores é o período que antecedeu a guerra civil dos Estados Unidos. Ou seja, o período que antecedeu a Segunda Revolução Americana.

Em 1915, Lenin descreve as condições de uma situação revolucionária:

“[Q]uando é impossível para as classes dominantes manter seu governo sem qualquer mudança; quando há uma crise, de uma forma ou de outra, entre as ‘classes superiores’, uma crise na política da classe dominante, levando a uma fissura através da qual irrompe o descontentamento e a indignação das classes oprimidas” (Lenin: 1915/csi: II).

Ele descreve como isso aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, e algumas coisas soam muito verdadeiras para a situação atual:

“Existe uma crise política; nenhum governo tem certeza do amanhã, nenhum está seguro contra o perigo de colapso financeiro, perda de território, expulsão de seu país (na forma como o governo belga foi expulso). Todos os governos estão dormindo em um vulcão; todos eles apelam às massas para que mostrem iniciativa e heroísmo. Todo o regime político da Europa foi abalado, e dificilmente alguém negará que entramos (e estamos entrando cada vez mais profundamente – escrevo isso no dia da declaração de guerra da Itália) em um período de imensas convulsões políticas.” (Ibid)

Obviamente, a crise daquela época foi particularmente aguda por causa da guerra, mas muito dela poderia ser descrito hoje. Na verdade, muito se falou sobre como a pandemia é semelhante a uma situação de guerra, e isso é verdade, dentro de certos limites. Lênin continua:

“A conflagração está se espalhando; as bases políticas da Europa estão sendo abaladas cada vez mais; os sofrimentos das massas são terríveis, os esforços dos governos, da burguesia e dos oportunistas para abafar esses sofrimentos revelam-se cada vez mais inúteis. Os lucros de guerra obtidos por certos grupos de capitalistas são monstruosamente altos e as contradições estão se tornando extremamente agudas. A indignação latente das massas, o vago anseio das camadas oprimidas e ignorantes da sociedade por uma paz gentil (‘democrática’), o início do descontentamento entre as ‘classes mais baixas’ – tudo isso são fatos. Quanto mais a guerra se arrasta e quanto mais aguda ela se torna, mais os próprios governos promovem – e devem promover – a atividade das massas, a quem apelam para que realizem um esforço e sacrifício extraordinários”. (Ibid)

Muito disso poderia ser dito sobre a situação atual, mas, nos países capitalistas avançados, a mesma intensidade de sofrimento não está presente. Na verdade, há apenas uma razão para isso: a classe dominante entendeu desde o início que esta seria uma receita pronta e acabada para uma luta de classes ainda mais intensa do que a que já aconteceu. Foi simplesmente politicamente impossível, para não mencionar não lucrativo, permitir que o desemprego em massa se desenvolvesse sem qualquer tipo de rede de segurança.

Gaste, gaste, gaste!

A partir daí, temos uma mudança dramática de atitude em todo o espectro político. De repente, governo não era mais um palavrão. Na verdade, estava sendo chamado a romper com todos os tipos de regra que norteavam suas atividades desde a década de 1980.

Temos a notável situação em que Trump e os republicanos criaram o maior programa de bem-estar dos Estados Unidos em décadas. O seguro-desemprego nos Estados Unidos há muito é realmente miserável, mas o complemento federal adicional de US$ 600 por semana nos benefícios significava que muitos trabalhadores ficavam melhor sem trabalho do que no trabalho, para desespero de seus empregadores, que preferem forçar seus trabalhadores a aceitar salários miseráveis por causa do desespero. Os cheques de US$ 1.200 que foram enviados a todos foram calculados da mesma forma para esconder as massivas distribuições de dinheiro às corporações.

Na época, o resgate recebeu apoio de setores inesperados, como o senador Pat Toomey, que se opôs ao estímulo de 2009, e agora quer um imposto fixo e quer abolir o IRS (o coletor federal de impostos dos EUA). “Este deve ser considerado um evento de Cisne Negro muito bizarro, não algo que seria visto em circunstâncias normais”, argumentou.

A questão que envolveu Davos este ano não era tanto como lidar com a situação imediata, mas como continuar na mesma linha depois da pandemia. “Reconstruir melhor”, como colocado na campanha presidencial de Joe Biden.

Steve Bannon, à sua maneira um observador político astuto, na primavera do ano passado apontou que o coronavírus mudara as coisas:

“’A era de Robert Taft, de conservadorismo limitado de governo?’ Disse Steve Bannon, ex-guru político do presidente Trump, referindo-se ao senador de Ohio que lutou contra a expansão dos programas governamentais e dos empréstimos federais. ‘Não é relevante. Simplesmente não é relevante’” (Coronavirus Means the Era of Big Government Is…Back)

O mesmo tipo de atitude se refletiu em Davos. Por exemplo, temos Darren Walker, o presidente da Fundação Ford, que se destacou justamente por promover a ideologia de Milton Friedman. Ele disse que os participantes do Fórum Econômico Mundial são os maiores capitalistas do mundo, ou seja, apoiadores do capitalismo. Ele disse que era capitalista porque acredita no capitalismo, mas “se o capitalismo deve ser sustentado, devemos colocar um prego no caixão da ideologia propagada por Milton Friedman”.

Martin Wolf, principal comentarista de economia do Financial Times, escreveu algo muito semelhante quando trata de Biden:

“Mas a mudança necessária ainda pode ocorrer, desde que o governo Biden demonstre rapidamente que um governo competente, formado por pessoas que acreditam nele, pode realizar o que promete. Deve mostrar a famosa declaração de Ronald Reagan de que “as nove palavras mais terríveis na língua inglesa são: sou do governo e estou aqui para ajudar” está errada. A confiança em uma governança democrática sólida e decente não é inimiga da liberdade, mas está entre suas mais importantes garantias.”

Não é difícil identificar de onde vem essa atenção recém-descoberta com relação às dificuldades dos pobres. Durante o Fórum de Davos, James Quincey, CEO da Coca Cola, observou que os líderes empresariais devem ajudar a modelar uma economia que “funcione para todos”. O presidente de Paypal, Dan Schulman, perguntou:

Como podemos esperar que alguém abrace a democracia se não achar que o sistema está funcionando para eles?… Nós, como empresas, temos a obrigação de avançar, de trabalhar com o setor público, de trabalhar com todas as comunidades às quais servimos”.

O que ele quer dizer é: como pode o burguês esperar que as massas evitem a revolução quando o sistema econômico atual apenas proporciona miséria para elas?

O presidente russo, Vladimir Putin, em seu discurso no fórum, alertou sobre paralelos entre a era atual e o início dos anos 1930, especificamente sobre a desigualdade, que, segundo ele, alimentou o radicalismo de direita e de esquerda e um aumento de movimentos extremistas. O próprio Putin está bastante ciente das dificuldades enfrentadas pelos governos, após sua queda dramática em popularidade, uma necessidade cada vez maior de contar com fraudes e medidas policiais para permanecer no poder.

Por algum tempo, pessoas como Warren Buffet, um dos homens mais ricos do mundo, argumentaram a favor dos impostos sobre os ricos. Em 2017, ele expressou ceticismo em relação aos cortes de impostos corporativos de Trump. Em 2018, ele expressou opiniões semelhantes em uma edição da Time que foi editada como convidado de Bill Gates:

“O sistema de mercado, no entanto, também deixou muitas pessoas desesperadamente para trás, principalmente porque se tornou cada vez mais especializado. Esses efeitos colaterais devastadores podem ser amenizados: uma família rica cuida de todos os seus filhos, não apenas daqueles com talentos valorizados pelo mercado.”

Um sentimento muito semelhante foi ecoado por Martin Wolf recentemente:

“Os governos têm que gastar. Mas, com o tempo, eles devem mudar seu foco de resgate para o crescimento sustentável. Se, em última análise, os impostos precisam aumentar, eles devem recair sobre os vencedores. Esta é uma necessidade política. Também está correto.” (A ameaça de uma longa economia Covid se aproxima)

É precisamente o crescente descontentamento na sociedade que está alimentando esse repensar entre os líderes mundiais. Como diz Martin Wolf, é “uma necessidade política”. O dramático declínio da fé na “democracia”, ou seja, no capitalismo, é profundamente preocupante para os burgueses e seus representantes na mídia e na política. O objetivo do “Grande Reinício” é, portanto, antes de mais nada, restaurar a fé no Capitalismo.

Pensamento positivo

O que precisamos, disse o secretário-geral da ONU, é de um “novo contrato social”:

“[Para] permitir que as pessoas vivam com dignidade. Um novo contrato social entre governos, povos, sociedade civil, empresas e muito mais, integrando emprego, desenvolvimento sustentável, proteção social e com base na igualdade de direitos e oportunidades para todos.”

O problema para eles é que tudo isso são ilusões. Certamente, algumas concessões estão sendo feitas no momento. Biden está fazendo muito barulho sobre dobrar o salário-mínimo federal nos EUA para US $ 15 por hora, mas apenas até 2026, e ele pode contar com a desculpa conveniente de que o Congresso bloqueará a proposta. Da mesma forma, o Partido Conservador no Reino Unido adotou uma série de políticas trabalhistas de Corbyn, por exemplo, sobre estímulo econômico.

No entanto, ao mesmo tempo em que estão fazendo isso, há demissões em massa sendo preparadas nos setores de hotelaria, transporte e manufatura, e grandes empresas estão lançando grandes ataques aos termos e condições dos trabalhadores. Em vez de investir em máquinas para se tornarem competitivas, essas empresas estão competindo pela piora dos termos e condições, tentando colocar trabalhadores contra trabalhadores. Os trabalhadores estarão se perguntando que tipo de “novo contrato social” é este quando os trabalhadores são forçados a aceitar 20% ou mais de cortes salariais.

O “Grande Reinício” também envolve uma discussão dos vários tipos de estratégias de investimento verde, e isso se tornou uma grande tendência. O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou uma “Revolução Industrial Verde” no montante de £ 12 bilhões (um nome emprestado do manifesto trabalhista de 2019). O governo Biden está planejando investir US $ 2.000 bilhões em energia renovável. O Investimento Verde também é uma parte importante do fundo de recuperação de 1.800 bilhões de euros da UE.

Todos adotam uma linguagem semelhante, “reconstrução”, “transição” e assim por diante, mas é claro que essa é uma transição que vai acabar exatamente onde começamos: em meio a uma crise capitalista. Pois mesmo US $ 2 bilhões não vão resolver a crise, seja da economia, seja do meio ambiente.

Os políticos reformistas estão agora se atropelando ao tentar apoiar esses esquemas. A atitude de Sanders e de outros democratas de esquerda em relação a Biden é instrutiva, pois eles sentem que “venceram a discussão”. No entanto, eles estão completamente errados. A realidade é que a classe dominante pode sentir a pressão vinda de baixo. Eles podem sentir os primeiros tremores que são sentidos antes da erupção de um vulcão. A verdade é que a classe dominante está desesperada para estabilizar a situação política, e a única maneira de fazer isso é fazendo algumas concessões.

Ironicamente, os conservadores britânicos costumavam acusar os trabalhistas de acreditar na “árvore mágica do dinheiro”. Agora todos eles acreditam nisso. Na prática, os banqueiros centrais e governos das potências imperialistas tornaram-se seguidores da Teoria Monetária Moderna (MMT, em suas siglas inglesas). Ou seja, eles estão financiando os gastos do governo por meio da criação (impressão) de novo dinheiro e não têm planos de equilibrar as contas. Isso é muito semelhante ao que os defensores do MMT pensam, pois acreditam que é desnecessário equilibrar o orçamento, pois o Estado pode simplesmente criar mais dinheiro.

O presidente de um dos bancos da reserva federal dos Estados Unidos foi questionado por Bloomberg: “Vocês todos se tornaram seguidores da Teoria Monetária Moderna?” Ele disse “não”, os banqueiros centrais acham que isso só deve ser feito em tempos de crise ou, como disse o republicano Pat Toomey, é apenas para um “evento cisne negro”.

A questão, entretanto, é que eles vêm imprimindo dinheiro por meio do Quantitative Easing há 12 anos. O excepcional tornou-se o novo normal. A questão é: por quanto tempo eles podem manter isso. Janet Yellen, a nova secretária do Tesouro dos EUA, costumava ser uma defensora de contas equilibradas quando trabalhava para o governo Clinton. Naquela época, a dívida estatal era equivalente a cerca de 50% do PIB. Agora ela diz que uma dívida equivalente a 100% do PIB – o nível atual – é sustentável, embora ela não ache que 200% seja. A verdade é que ela realmente não sabe. Que isso não pode durar para sempre é perfeitamente claro. Com um déficit orçamentário equivalente a 15% do PIB, o nível de 200% seria alcançado, em menos de dez anos, sem cortes sérios.

Insustentável

A realidade é que ninguém conhece o limite. Não existe um limite absoluto. Os limites seriam diferentes para os diferentes países, pois dependem de sua força relativa em escala mundial e, principalmente, do capital financeiro. Isso significa que os EUA e a Europa podem administrar mais tempo do que o Paquistão ou o Brasil. A China pode administrar mais tempo do que a Tailândia etc. A verdade é que relativamente poucos países podem se safar com tal política por muito tempo. Para a maioria dos governos do mundo, esta não é uma opção.

A situação só pode ser mantida enquanto a inflação e as taxas de juros permanecerem historicamente baixas. Se a inflação disparasse, os bancos centrais seriam forçados a aumentar o custo dos empréstimos, o que tornaria essas dívidas maciças insustentáveis ​​muito rapidamente. Como observa um estudo recente do FMI:

“A história nos ensina que muitas crises ocorreram após anos de diferenciais baixos e que as expectativas do mercado podem mudar de maneira rápida e abrupta, deixando os países fora dos mercados financeiros em questão de poucos meses.”

Ou seja, tudo parecerá bem e sustentável, até que deixe de ser. Deve-se lembrar de que a crise da dívida grega não ocorreu em 2008, mas alguns anos depois de iniciada a crise. Enquanto os bancos centrais compram dívida do governo, o risco é menor, mas isso apenas transfere os problemas do governo para o banco central. Governos, banqueiros centrais e comentaristas esperam ser capazes de administrar a situação e recuar antes que o desastre aconteça, mas a história do capitalismo mostra que isso é pura ilusão.

Alguns comentaristas já estão soando o alarme, incluindo Larry Summers, ex-secretário do Tesouro de Obama, que há anos vem alertando sobre a estagnação secular. Agora ele está preocupado com que o estímulo mais recente crie “pressões inflacionárias de um tipo que não vemos há uma geração”. Suas preocupações são ecoadas por Oliver Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, que adverte que o programa de US$ 1,9 trilhão de Biden “pode ​​superaquecer tanto a economia a ponto de ser contraproducente“. Em uma economia não planejada como o capitalismo, é impossível dizer com antecedência quanto seria demais.

Há outro aspecto nisso. Quanto mais concessões forem feitas, especialmente depois de uma luta, mais a classe trabalhadora verá o benefício de lutar por reivindicações. É interessante ver que, no barômetro de confiança mencionado acima, 50% dos empregados dizem que estão “mais propensos agora do que há um ano a expressar minhas objeções à administração ou a protestar no local de trabalho“. Isso apesar do medo de perda de empregos que a mesma pesquisa revelou.

A classe dominante enfrenta agora uma escolha muito difícil. Se eles partirem para a ofensiva e tentarem fazer com que os trabalhadores paguem pela crise, a já difícil situação política pode se deteriorar muito rapidamente. Por outro lado, se tentarem conceder, correrão o risco de encorajar os trabalhadores a exigir mais, e mesmo os programas temporários podem se tornar muito difíceis de retirar. “Nada é tão permanente quanto um programa de governo temporário”, como disse Milton Friedman. Basta olhar para as discussões sobre os benefícios de desemprego nos EUA para ver o que ele quis dizer.

Além disso, nenhum governo tem realmente dinheiro para esses programas. Cada governo precisa tomar emprestado, e só pode tomar emprestado enquanto o banco central estiver imprimindo dinheiro para financiá-lo. Isso é um desastre esperando para ocorrer. O “Grande Reinício” é uma tentativa de restaurar o equilíbrio político à custa do equilíbrio econômico.

No final das contas, os gastos do governo não podem resolver a crise, mas apenas adiá-la. A economia capitalista é baseada na lucratividade. Se as grandes corporações não podem vender os produtos que suas fábricas são capazes de produzir, elas simplesmente não construirão novas fábricas. Se as cadeias de hotéis tiverem muitos quartos vazios, não construirão mais hotéis etc. Grandes investimentos em energia não resolverão esse excesso de capacidade.

As enormes dívidas que se acumularam são um grande entrave à economia mundial e produzir cada vez mais dívidas apenas adiará o acerto de contas, como já acontecia há décadas. A situação atual é um exemplo flagrante das falhas do sistema capitalista e seu “mercado livre”.

Por um tempo, o “Grande Reinício” e ideias semelhantes ocuparão as mentes da classe dominante. Eles precisam ganhar algum tempo para tentar estabilizar a situação política. No entanto, suas medidas serão insuficientes para conter o nível de raiva e ressentimento que eles provocaram e, fazendo concessões, eles mostrarão à massa de trabalho que vale a pena lutar. Quando os limites dessa política forem atingidos, serão forçados a voltar para a austeridade e cortes. Provando assim, mais uma vez, que não há saída para os trabalhadores sob o capitalismo.

Ironicamente, a tentativa de usar o Estado para manter a economia funcionando é uma evidência precisamente do fracasso do capitalismo. Longe de o capitalismo moderno estar cercado pelo Estado, como os monetaristas imaginam, ele está muito mais dependente do Estado do que nunca. Como Ted Grant apontou, essa estatização mostra que as forças produtivas superaram o sistema capitalista, e somente eliminando a motivação do lucro a humanidade pode progredir.